quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Duas Franças


É dada a largada! Será difícil ser breve, com tanto chão caminhado. Cheguei ao momento ideal para descrever as duas Franças que vivi até agora. A primeira, a França chique, glamourosa e saudosa, representada pela minha eterna paixão, Paris. A segunda, um choque. A França através da Provence, qualquer região que não seja a capital; aquela de cidade pequena, costumes fortes e sotaque diferente: a França de Clermont-Ferrand.

Bem, de cara, não posso negar que Paris é um incansável desbunde. Construções sempre imponentes, cultura e diversidade em escala gigantesca e a facilidade de deslocamento a qualquer parte. Clermont-Ferrand causou-me espanto de imediato, por não seguir o padrão dos pequenos prédios de Paris. Substituindo aqueles de tom gelo, com seus quatro ou cinco andares de telhado cinza escuro, aqui há dois mundos: a cidade velha e a nova. A velha, que é a mais interessante, parece um gueto medieval. Ruas estreitas, prédios baixinhos e escuros, que parecem estar dentro de uma cidade murada. Vez ou outra surge um barzinho, geralmente barato, que, como tudo aqui, fecha as portas bem cedo.
Em Paris, tive a tranquilidade de passear em solos já desbravados. Apesar de todo dia tropeçar com algo novo (uma praça, uma igreja, um kebab, um cinema jamais vistos), o senso de direção estava absolutamente regulado. A esplêndida localização, no Quai de La Mégisserie, no coração da Île-de-la-Cité, permitiu-me fazer grande parte dos deslocamentos a pé. Pude conhecer melhor a Rive Droit, um tanto diferente, pra quem só ficou na Rive Gauche.

Dessa vez, a cidade multiétnica foi observada pelo ângulo do mundo árabe. Influenciada pela minha companhia, que lá estava para seus estudos árabes; cinema, rolés, encontros e surpresas giraram nesse contexto. Cheguei no sábado; no domingo já estava assistindo ao filme “Né quelque part” (Nascido em Qualquer Parte), num cineminha muito peculiar no entorno de Saint-Lazare. Numa sala com no máximo 20 pessoas, de parede roxa, cheiro de mofo e quatro luminárias de vidro caindo do teto, assisti ao filme francês/argelino, dirigido por Mohamed Hamidi, que conta, num drama, a dura crise de identidade dos árabes que nasceram na França. Aqui, eles são árabes; nos seus países de origem, são franceses. Sentem a ligação com dois mundos opostos, mas não sabem de onde são. Sofrem preconceito lá e cá. E através de uma fotografia genial, a história passa pela dificuldade da retirada de passaporte/visto dos ex-colonos, das mazelas da imigração ilegal, dentre outros. A música então... Nem se fala! Dava vontade de levantar e começar a dançar! 





Conheci também um lugar, não muito turístico, mas imperdível: a Grande Mesquita de Paris (La Grande Mosquée de Paris). Com um costume de só entrar em igrejas, a gente fica com uma cara de abestalhado ao se deparar com outra maneira de construir, com diferentes cores e cheiros. Paga-se para entrar acho que €2, mas o melhor mesmo, que não paga, é o salão/jardim de chá que tem atrás. É preciso sair da Mesquita e ir costeando-a, até achar a entrada. Não se veem tantos turistas, mas também não é frequentado só por árabes; muito pelo contrário, um bando de jovens, provavelmente universitários (A Sorbonne Nouvelle 3 é do lado), toma o famoso chá verde com hortelã (€2) e comem uns doces fantásticos pelo mesmo preço (Ah minha mãe e minhas tias...). Para chegar: estação Censier-Daubenton, linha 7, do Metro. 





Seguindo com o mundo árabe, fui parar em Saint-Denis, atrás de uma loja da Samsonite pra consertar minha mala, quebrada pela Air France, pela segunda fez.  Fui atrás do endereço que me deram e encontrei outra cidade: a Paris dos imigrantes. Ao sair do metro, dei de cara com um Arco enorme, com o nome de Lvdovico Magno, datando de 1672. Que loucura! Paris é mesmo impressionante! Pegamos um metro aleatório e, ao descer, damos de cara com uma estrutura de pedra gigantesca, carregada de história (que eu não faço a menor ideia de qual seja). Aí eu fiquei pensando: como é que aqui não é um ponto turístico? Em minutos, pude perceber: zona de prostituição à luz do dia, muitos mendigos, bêbados e desocupados.  Os prédios, antigos e mal cuidados. Outro clima! E MUITO, muito árabe e indiano. Depois, dei uma volta pela região e, em meio aquela maluquice de carros tocando música árabe e pessoas falando “Salaam Aleikum”, encontrei a famosa rue du Faubourg, decorada por quitanda chinesa, restaurante turco, madagasquenho e outros mais. A rua é um achado pra quem mora em Paris e precisa fugir dos mercados caríssimos. Lá rolam várias quitandas, açougues, peixarias, onde é possível comprar frutas, legumes, verduras e carnes a preço muito mais baixo. Esperando o metro, para voltar, um sujeito, de origem árabe, é claro, parou do meu lado, para me indagar se eu era casada. Que engraçado! Minha resposta? Já... Já era casada sim!




Finalizando o tour árabe por Paris, fui parar numa manifestação da Irmandade Muçulmana. Calma, pera lá! Eu não tava defendendo ninguém, muito menos presidente que tenta implantar república fundamentalista. O que aconteceu foi o seguinte... Tirei o domingo para passear no Canal Saint-Martin, que ainda não conhecia. Seguindo dicas tiradas de uma matéria da revista Boa Viagem, do Globo, de séculos atrás, desci na estação République do Metro, para ir caminhando e pegar o canal do fim, de onde ele some debaixo de uma ponte. Ao descer na estação, vi que tava rolando uma movimentação diferente, com policiais espalhados, cartazes, faixas e uma galera de nariz acentuado. Cheguei perto para tirar umas fotos, ver o que ia rolar e acabei ficando um tempo, ouvindo música boa e tal..

Achei engraçado que até na manifestação, tem a separação: mulheres de um lado, homens do outro. Um pessoal lá no microfone, gritando palavra de ordem em francês e árabe, defendendo o retorno do presidente deposto... Até que surgiu uma dúvida a respeito de um símbolo que tinha no cartaz e eu e meu amigo, inventamos de perguntar a um sujeito que estava lá. Ele não falava francês, mas passou para outro, que não só falava, como quis conversar. Explicou o símbolo no francês mais difícil que eu já ouvi, depois perguntou de onde éramos. Resultado: conversa mais longa ainda. Disse que amava o Brasil, falou do Lula, do Che Guevara, dos movimentos nacionais, uma salada só! Chamou o câmera (nessa hora eu rezei pra ele não pedir pra dar entrevista), o fotógrafo, tirou foto com a gente segurando o cartaz, apresentou aos filhos, trocou telefone, e-mail, quer que a gente fique na casa da família dele quando for ao Egito e por aí vai... Outro dia desses, já em Clermont, recebi a seguinte mensagem “Salut Cecilia, comments tu vas”. Doideira! Rs. 



Reservei um dos dias de Paris para ir à exposição do Titanic no Parc des Expositions. Comecei almoçando um maravilhoso sanduíche de falafel com chawarma, na rue des Rosiers, a parte judia do Marais. Diferente da última vez, tudo estava aberto e dei sorte de ser uma sexta-feira. Tava a maior movimentação, um bando de judeu caracterizado, preparando-se para o Shabat. Bem diferente! 



Sem demoras, peguei o metro em direção à Porte de Versailles, para ir ao local da exposição. Outro canto da cidade que eu jamais tinha pisado. A fila estava enorme, mas não tive escolha. Apesar de cara, acho que €11, valeu muito a pena! Foi, certamente, uma das exposições mais bem montadas que já vi (só perde para a de Guimarães Rosa no Museu da Língua Portuguesa em São Paulo, em termos de interação com o público). Cada detalhe foi muito caprichado, bem pensado e projetado. O ingresso de entrada, nada mais era que a reprodução do bilhete de embarque do navio. O áudio guia, que estava incluído no preço, foi fundamental pra transmitir a emoção daquela tragédia.

No começo, as informações técnicas foram essenciais para mostrar o que aquele gigantesco transporte representava à época. Genial. Depois, seguiu por uma sala com descrições de quem construiu, quem bancou, qual objetivo, quantas pessoas viajaram, quem de importante estava lá, os preços e alguns primeiros objetos retirados do fundo do mar. A aventura começa quando se entra no navio. Sim, eles fizeram uma representação viva de diversas áreas dele. Com o áudio guia dizendo: “Bienvenue au bord du Titanic”, entramos pelo corredor que leva aos quartos da primeira classe, de tapete vermelho, decoração branca e dourada, enquanto ouvimos música clássica ao fundo. Depois, salas representam a sala de estar das mulheres, a sala de jantar, dentre outros. Tiveram o preciosismo de mostrar os cardápios da primeira, segunda e terceira classe. A realidade era tanta, que quando fomos chegando aos cômodos da terceira classe, bem ao fundo, próximo ao porão, o som que se ouvia não era música clássica, mas das máquinas que moviam o navio. A iluminação: em tom de vermelho, no fundo preto; a temperatura: quente. Estava exposto um pedaço grande e brilhante do carvão que alimentou as fornalhas. Rapidamente, citam os que lá estavam trabalhando. Chega a ser chocante a quase nenhuma importância dada a esses “ninguéns”, os primeiros a morrer.

Depois, a sala em que seguimos é da mudança. Fria. Gelada. A iluminação muda para tons de azul, mantendo o fundo preto, que simbolizava a noite. Começam a dar os primeiros avisos do que estava por vir, a extrema e absoluta imprudência do capitão que mandava avançar a todo vapor, durante aquela noite gelada, enquanto vários outros navios mandavam avisos de que iam parar, pois haviam icebergs no caminho. Eis que o esperado acontece, o choque. Em um dos murais, se lia: "Após a colisão, o arquiteto do Titanic, Thomas Andrews, Jr., inspeciona os danos e dá a triste informação ao Capitão Smith. O Navio pode flutuar com dois compartimentos ‘étanches’ inundados. Ele pode sobreviver com a perda dos quatro primeiros. Mas os danos sobre o Navio são tais que o naufrágio é uma ‘certeza matemática’. Doravante o Titanic está condenado”. De arrepiar!

Continuando a exposição, surge um grande iceberg na sala, tendo ao lado a seguinte descrição: “Toque o Iceberg. Essa noite de 14 de abril de 1912, as águas do Atlântico Norte estavam abaixo de zero (próximo a 28 graus Fahrenheit). Pelo fato da água salgada gelar a uma temperatura inferior a água doce, o oceano salgado estava mais frio essa noite que o iceberg de água doce na frente de vocês. O resultado é que a maior parte das pessoas que morreram no naufrágio do Titanic não morreu afogada. Eles morreram de hipotermia - que é uma forma rápida de coma mental e físico que acompanha a queda de temperatura do corpo”. Um tremendo baixo astral! Tive que ver as últimas salas correndo, pois, depois de quase três horas lá dentro, o museu fecharia. Mal acredito que passei correndo por mais e mais objetos expostos, artigos pessoais... Tinha até vidro de perfume que conservava o conteúdo. Vi igualmente “en passant” os depoimentos de quem era pra estar no navio, mas por alguma situação não embarcou; as histórias de quem não ia e acabou indo aos 48 do segundo tempo; e, no final, uma lista com o nome de todos que estiveram no naufrágio, separados por classe, divididos também em quem morreu e quem sobreviveu. Não preciso nem dizer que o número de sobreviventes da primeira classe foi exorbitante comparado com o da terceira, né?






Dos outros acontecimentos de Paris que não podem deixar de ser mencionados, sigo com Dalí. Uma ida à Montmartre pede Dalí. Já tinha ido ao museu da última vez, mas eu fiquei tão encantada, que tive que voltar; olhar todas aquelas obras pela segunda vez, ouvir as explicações novamente no áudio guia e mais uma vez ficar boquiaberta com a capacidade de se expressar do artista. Como da primeira vez, fiquei longos minutos em frente às esculturas que tinham como personagem principal o relógio mole. Foi vendo um camembert derretendo que Dalí percebeu “Assim como um camembert derrete, o tempo também se funde”. Repetindo as palavras da guia, ele “concretiza a relatividade do tempo em relação ao espaço. O tempo é fluido, não é rígido.”. O artista brinca quando temos que “marcar hora ou encontrar tempo”. Para ele, “os relógios deveriam ser moles, ou nem mesmo existir”. Outra obra que pra mim foi algo inenarrável, foi o Caramujo e o Anjo (l’Esgargot et l’Ange), que representa o próprio Salvador Dalí. Ele ilustra o contraste entre o duro e o mole do caramujo. O duro, ele forte e experiente; o mole, o artista em sofrimento. O interior da concha esconde um corpo frágil e mole, bem como o crânio e o cérebro. As asas no casco, assim como o anjo, exaltam o voo do espírito: “As capacidades do espírito são ilimitadas para aquele que sabe explorá-las”. Sem mais. 



No meu último dia, antes de viajar para Auvergne, fui para Normandia, visitar a casa e o jardim de Claude Monet. Peguei um trem para Vernon e lá, um ônibus para Giverny. Viagem de uma hora e pouquinho. Na casa, fiquei apaixonada pela cozinha. Quero uma igual! De azulejos, tipo português, brancos com decoração diferente em azul fazendo um mosaico na parede. No entanto a emoção é muito maior quando se chega ao jardim. A ver a ponte, fiquei arrepiada, meus olhos se encheram d’água. Muito lindo! E achei de uma sensibilidade tremenda ter cruzado com muitos visitantes cegos, também emocionados. Eu jamais acharia que aquele seria um passeio ideal para eles, pois jamais viram os quadros de Monet, para perceber a ligação com aquele jardim, mas ainda assim conseguiam percebê-lo de outras maneiras. Indescritível. Almocei no restaurante do Museu do Impressionismo, antes de entrar nele. Bebericando dois chopps de uma cerveja local, comi um sanduíche apelidado de “Normand Pepper” (pain baguette, steak haché, salade romaine, sauce poivre vert, CAMEMBERT, frites e coleseau). Sim, eu, Cecília, aquela que rejeita todo e qualquer queijo desde que sempre, resolveu provar o tal do camembert, em homenagem a Dalí. Olha, nada mal. Mas foi duro passar por cima de tanto preconceito carregado durante toda uma vida, ainda mais com aquela textura mole, capa branca... Uuui! Rs. 








Quando cheguei, assisti na Pont Neuf, ouvindo “Emmenez-moi – Charles Aznavour” (ouça aqui), ao mais belo por do sol. Despedida com chave de ouro de Paris.


Chegou a hora. Tomei o trem que me trouxe para a cidade que me abrigará nos próximos meses. De início, Clermont, como alguns costumam chamar aqui, causou-me terrível perturbação. A cidadezinha pacata me levou aos prantos nos primeiros dias. Olha, fazer intercâmbio não é mole não. Demorei mais de uma semana para encontrar o primeiro lusitano e mais ainda, para cruzar com o primeiro brasileiro. Aí tem gente que pensa: “Que bom, vai falar muito francês”. Não é bem assim. Foi insuportável! Porque minhas primeiras amizades foram com os alunos intercambistas (que ainda representam 95% delas), que tem o vocabulário tão limitado quanto o meu; então não acrescenta em nada. As pessoas falam errado, cheios de sotaque e sempre mesma coisa, assim como eu. Cansa e MUITO ficar só falando e ouvindo as mesmas coisas sempre e mais ainda sem ter ninguém pra descansar com o português. Enquanto os tchecos, espanhóis, turcos, alemães, italianos, irlandeses e romenos tinham o tempo de “agora eu não preciso pensar”, entre eles, eu tinha que conversar com as paredes. Isso só melhorou quando o curso de francês começou, que sempre traz coisa nova, apesar de eu achar que minha turma é fraca; também conheci umas brasileiras, que eu encontro de vez em quando.

De mais, outras coisas me fizeram pirar durante as primeiras semanas. Em termos de estrutura, o quarto, de mais ou menos 2 x 15m, contando com o banheiro, de estrutura de químico, me fizeram achar que me sentiria sufocada nesse espaço tão pequeno. Os móveis, cortina e estrutura são novos e limpos, mas não tinha mais nada. Tive que conseguir coisas básicas como lençol, travesseiro, prato, talher, copo, panela, sem falar nos produtos como papel higiênico, detergente, vassoura, pá, etc. A primeira vez que fui ao mercado, não sabia nem o que comprar! Era tanta coisa que eu precisava, que eu só sabia chorar. Aos poucos fui comprando as coisas, criando uma estrutura mínima necessária para se viver. Até comprei uma vela aromática pra levantar o astral desse quarto. Depois fui descobrir que dei muita sorte. São dois alojamentos: Résidence du Clos Saint-Jacques e Résidence Phillipe Lebon-Amboise. Eu me encontro na segunda. Assim que teve a primeira reunião com os intercambistas na universidade, fui informada que a primeira é horrível. Velha, não tem cozinha em todos os andares, o banheiro é coletivo e tem alguns sanitários que não tem nem assento de privada. Minha sorte foi maior ainda quando descobri que dos três blocos da minha residência, fiquei no mais moderno. Nos outros dois, a mobília é velha e em alguns andares não tem nem micro-ondas. No bloco em que estou, há uma cozinha por andar, cada uma com um fogão elétrico de duas bocas, micro-ondas, pia e bancada. Não tem absolutamente mais nada lá; quem usar, tem que levar os utensílios e recolher o lixo. Depois de saber disso tudo, parei de reclamar e comecei a ver que vai ser bom pra juntar uns trocados pra viajar mais; o aluguel custa €233.

Em se tratando do emocional, é impressionante como a insegurança me abate. O simples fato de não ter absolutamente nada nem ninguém com quem contar, a incerteza do que vai acontecer no dia seguinte, bem como a dúvida de se conhecerei pessoas interessantes me enfraqueceram. A dor foi tão grande a ponto de começar a me questionar se tinha feito uma boa escolha em vir para uma cidade pequena, sem ter procurado antes como as coisas funcionavam... Eu vim no escuro. “Consegui isso? Então partiu. Vamos ver qual vai ser.”. Pensava se eu era uma pessoa apta a enfrentar um intercâmbio, se eu não morreria de saudade... Foi brabo mesmo! Eu mal comia, não tinha vontade de fazer nada, quando ia pra rua só chorava, nada me dava prazer, achava tudo um grande lixo. Os primeiros encontros com os intercambistas da faculdade começaram a me impulsionar a fazer a roda girar. Conheci gente exatamente na mesma eu, que veio sozinha, que também achou a cidade esquisita, pequena, coisas fechando cedo, etc. Comecei a criar vínculos com gente doida que nem eu, já encontrei o melhor kebab (até agora), tropecei no primeiro pé sujo, recebo um “bonjour” acompanhado do sorriso do dono do café aqui perto de casa, comprei um tênis para correr no jardim aqui do lado, fiz a primeira noitada, dormi na casa de duas amigas, troquei telefone com um bando de gente... Além disso, são raras as vezes em que almoço sozinha e o tempo resolveu ajudar. 



















Ah o tempo! Algo que eu estou administrando para não se tornar um baixo astral. Quando pensava que só sentiria saudade da minha amada sobrinha, descobri que eu sou chegada num céu azul. Como isso contribui no meu humor! Aqui, só não chove mais que na Normandia. Pra se ter uma ideia, outro dia escutei alguém falando, que o comentário de alguém próximo, quando essa pessoa disse que viria pra cá era: “Você vai pra Clermont-Ferrand, por quê? Lá chove muito.”. Pois é. Aqui quando não tá chovendo, o céu continua cinza. O verão dura somente dois meses: julho e agosto. Acabei encontrando um frio que não esperava logo de cara. Minhas primeiras palavras em romeno foram algo parecido a: “murin de frig”. Quando estava começando a me acostumar (ou ao menos, tentando), São Pedro resolve me fazer uma homenagem. O outono começou com céu azul e muito sol. Eu andava praticamente de braços abertos, olhando pra cima, agradecendo e tentando gravar na memória aquela cor.

Não posso deixar de contar uma das noites mais incríveis aqui em Clermont. Era uma sexta-feira, dia de festa na cidade de reabertura da Ópera. Fui tomar um chopinho de trigo num barzinho, enquanto aguardava uma amiga, para encontramos com outras pessoas. Na hora exata em que saímos do bar e caminhamos para a Place du Jaude (a principal), pegamos o final dos fogos (que eu nem sabia que haveria). Irado demais!!! Encontramos as pessoas e depois vimos um bando de intercambistas passando. Dentre eles, tinham duas conhecidas. Elas falaram com a gente e, quando eu perguntei para onde estavam indo, disseram que era para a casa de um dos Erasmus beber e fazer festa. Em seguida, deram “tchau”. Eu fiquei um pouco ofendida de não ter sido convidada, mas depois caguei. Estava com um grupo legal, com nativos e estrangeiros, a caminho do bar que mudou a minha noite, a Bodega Pata Negra. Estava rolando um som flamenco, que me inebriou. Algumas das minhas companhias eram espanholas, sendo uma delas do sul. Teve um momento que ela me disse: “Essa música é de Camarón”. Aí eu falei: “Camarón de la Isla?” Ela: “É!!! Você conhece????”. Olha, não me pergunte como, eu não faço a menor ideia de como eu conheço esse cara. Ela me disse que ele é o rei do flamenco e que é de Cádiz, Andaluzia, mesma cidade que ela. Foi bizarro! Tinham alguns espanhóis no bar, que levantaram pra dançar. Nossa, fiquei fascinada! Quando já estava quase acabando, cismei que queria ouvir uma música. Aí falei com a minha amiga. Ela não foi falar com o sujeito e ainda apontou pra mim: “minha amiga quer ouvir ‘Como El Agua’”? Teria sido menos ridículo se eu mesma tivesse ido pedir, mas vai.. C’est pas grave! O músico incorporou o artista e tocou como a gravação que eu tenho do Camarón (ouça aqui). Vale a pena ouvir!

 Quando acabou, o cantor ficou amarradão que a gente tava maluca com o som dele e veio trocar ideia. Foi então que o inacreditável aconteceu. O cara disse que era amigo do Camarón, e, assim como ele, também é de Cádiz. O Camarón é de 1950 e ele de 1951. Tirou de dentro da bolsa do violão um álbum de fotos velhinho, mas bem cuidado, com reuniões dos bambambãs do Flamenco. Tinha até foto dele abraçado com o Camarón. Como pode? Que noite!! (Eu só agradecia de não ter ido pra festinha dos Erasmus! Rs.) De lá ainda segui para uma noitada muito doida, que só tocava música doida e todas maravilhosas! Tocou charme, uma música árabe com espanhol, hip-hop antigo, soul, reggaeton.. Fiquei maluca! No dia seguinte, exausta da noite, minha noitada foi no El Dredon na casa das minhas amigas espanholas, assistindo ao filme “Camarón, La Película”, em espanhol, sem legenda. Não sei como que essa cabeça ainda não deu um nó.

No domingo, acordamos cedo e fomos, com os outros intercambistas fazer um passeio tipicamente francês: subir a montanha para..... depois descer. HAHAHAH! A cada passo dado naquelas duas horas de caminhada por trilha em floresta, campo e colinas, pisando em cocô de cabrito, de vestido e tênis tipo all star eu só pensava em como aquela seria a primeira e última vez que eu faria esse tipo de programa. Um sol de rachar o cocuruto (até me queimei), para finalmente chegar à montanha mais alta do Puy-de-Dôme : 1464m. Lá em cima, o prêmio foi um rangão a base de pão ciabatta e presunto cru, olhando aquele visual. Incrível! Deitada na grama, senti que aquele momento só faltava uma coisa: música! Peguei o ipod e achei que o final de semana merecia ser finalizado com Camarón de la Isla. Que astral!!! O deleite foi tanto, que quando eu e minha amiga demos conta, havíamos nos afastado do grupo e precisávamos fazer a trilha de volta antes que escurecesse. Lá fomos nós, aproveitando os últimos raios do dia, naquele deserto, onde a única companhia eram os cabritos no “Chemin des chèvres”. Os cabritos falando “bééé” de lá e nós respondendo com “béééé” de cá, em meio a gargalhadas e frases inusitadas como “Queso de caaabra! Me encanta!”, “Chèèèvre! Chèèèvre! Fromage de chèvre!”.. Genial! Graças à minha memória fotográfica das árvores que tínhamos passado, chegamos ao ponto de início sem sustos. Bem, tem mais coisa pra falar, contar das aulas, de como é a universidade aqui, mas isso terá que ficar pra próxima, pois o texto já está imenso!











Também já fiz a primeira viagem, mas merece um post separado. Posso adiantar apenas que me deu um gás tremendo! Tô empolgada de estar aqui, tão perto de coisas tão fantásticas, que começo a fazer cálculos na minha cabeça de datas e grana, percebendo que o tempo será curto. Clermont-Ferrand deixou de ser um martírio (para o sossego do coração do meu pai), mas está longe de ser a cidade ideal. Estou absolutamente aberta para que ela me prove o contrário, mas caso isso não aconteça, minhas histórias pra contar virão de outros cantos... E já vai valer a pena!

3 comentários:

  1. Cissa, voce é divina para escrever...!!!!! enriquece o texto com fotos e musicas, desta maneira faz-nos entrar na sua viagem. Confesso que ao final, senti muita saudade, mas tbem senti-me feliz de ver Clermont Ferrand com mais ternura e paz. Beijos da tia Beth

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  2. Ci, incrível! Um desbunde fotográfico (como diria a D. Mercia); sem dalar nas descrições qye fazem rir e chorar! Vc é fodona ;p!!!! Aproveite cada segundo dessa experiência incrível, que vai mudar a sua cabeça, abrir seus horizontes e acalmar/alegrar seu coração! T AMO! PS. Senti-me dentro do Titanic!!!! Jack! Rose! !!!! :*

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  3. Adoro o jeito que você escreve, os detalhes, as melodias compartilhadas, os sentimento transmitidos com as palavras, as fotos que você seleciona dotadas de emoção que instigam a imaginação e facilitam a compreensão do seu jeito de enxergar o que esta a seu redor, o requinte de humor e as expressões locais.
    A vida é feita de altos e baixos, o que fará você uma pessoa melhor será sua capacidade de enfrentar situações adversas e as soluções que você dará a elas. O ínicio e o fim você teoricamente já determinou, a diferença estará no percurso. Como você mesmo disse temos que 'fazer a roda girar'. É admirável a forma como você descreve estar encontrando para superar as adversidades, fica notável o seu amadurecimento e a expansão dos seus horizontes.
    Cada dia que passa você se torna uma mulher mais encantadora!
    Estou na torcida para que você aprimore seu Francês, explore culturas diferentes, conheça pessoas interessantes, desfrute da vida pacata de uma cidade pequena e da tranquilidade que uma vida mais simples pode te oferecer e por ai vai..
    Ahh, seu texto esta tão interessante que no próximo você deveria se preocupar menos em ser breve. Por mim, quanto mais histórias e detalhes você contar, melhor. Rss
    Beijos,
    Emygdio

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