domingo, 19 de fevereiro de 2012

É frevo!

"Ei pessoal, vem moçada, carnaval começa no Galo da Madrugada!"
Inacreditável o modo como essa música contamina os foliões de um dos maiores blocos do Brasil. Hoje foi dia de Galo, que já deixou de ser da madrugada. Ouvi rumores de que a mudança de horário do bloco se deve por influência da Globo, que está dominando (e para alguns arruinando) esse carnaval. A mudança do trajeto original e a criação de camarotes seletos estão elitizando e segregando um carnaval que, inicialmente, era a união de todos os tipos num mesmo nível e lugar. Sendo intriga ou não, posso falar que fora dos camarotes estava o povão e eu estava lá. Deixei de me juntar aos nobres do camarote não por vontade de me reunir com a massa, mas por acreditar que não valeria a pena pagar caro pra ficar pouco tempo no bloco, já que os planos eram de aproveitar a concentração e depois rumar para Olinda. Enfim, como lá foi o meu destino, pude aproveitar e reparar algumas coisas... Duas me chamaram a atenção: a primeira é a estupenda falta de educação das pessoas. Era comum esbarrar, pisar no pé e empurrar com agressividade, sem pedir desculpa. Em Olinda, eu vivi exatamente o contrário. Percebi claramente que o público é outro e que as pessoas são mais educadas. A segunda é que, apesar da falta de educação, mesmo reunindo mais de um milhão e meio de foliões, eu não vi nenhuma confusão. Passei momentos de aperto por conta da muvuca, mas nenhum de briga. Fantástico.
Logo após o Galo, fiquei extasiada com as orquestras arrastando pernambucanos e forasteiros pelos becos e ladeiras de Olinda. O astral era tão maravilhoso que eu me lembro de ter ficado arrepiada e emocionada em alguns momentos. Ver aqueles casarões coloridos de sei lá quantos séculos, como plano de fundo de um mar de pessoas fantasiadas, cada uma mais criativa que a outra, com sorrisos de orelha a orelha, alguns já de porre, outros "chamando o Raul", mas a maioria dançando no mesmo compasso, com seus guarda-chuvinhas coloridos suspensos no ar, girando no ritmo das batidas dos instrumentos, me passava uma energia inexplicável. Tinha hora que eu não conseguia nem pular, ficava só de boca aberta olhando pra tudo com cara de boba, não acreditando estar ali. Em meio a subidas e descidas de ladeiras, com as pernas gritando por uma pausa e a boca clamando por uma cerveja, visitei e me diverti na casa de parentes.
Na quinta-feira, quando fui à Olinda pela primeira vez, fui à um endereço que meu pai havia me passado para entrar em contato com gente da família. No começo hesitei, achei que seria um tanto esquisito, mas lá fui eu. Seguindo a descrição, me deparei com uma casa toda decorada, com uma galera do lado de fora fazendo a maior zona, ensaiando para um bloco. Comentei com minha amiga Lud: "será que é aqui?" e recebi um "só pode ser". Lá fui eu, na cara e na coragem "Oi! É aqui que mora o Juscelino?". A pessoa pra quem eu perguntei abriu os olhos e falou: "É você!!!!!! Você é a filha do Fred!!!!!! É a... É a..." Aí lembrar nome é difícil, né? Mas eu ajudei. Depois começou a fila de apresentações. "Ôxe.. Fulano, venha cá, vou li mostrá essa minina aqui. Ela é filha di Fred." Depois disso eu só ganhava beijos e abraços. Até que teve uma que não sabia quem era o Fred. Então o tal do Juscelino comentou "não, não, ela não conhece o Fred não, mas conhece o Xandi. Zé Raymundo. Ela é neta de Zé Raymundo." Parecia que ele tinha falado a palavra mágica. Quando falou que eu era neta de Zé Raymundo, pronto, a pessoa me deu um abraço, como se fosse minha irmã e não me visse há 25 anos, por pensar que eu estava morta. Depois, isso se transformou na chave mestra para abertura de sorrisos de graça pra mim, que fez até minha amiga comentar: "Pô, seu vô era famoso, hein!". Hoje, quando voltei a Olinda, passei de novo nessa casa e em pouco tempo, lá vem uma pessoa puxando um Paulinho da Viola, com outras acompanhando no tamborim e no batuque na mesa. Aí eu tive a certeza de que era minha família.
Além do carnaval, visitei o litoral sul do estado na quinta e na sexta, fazendo passeios "bate-volta". Na quinta, fui à Porto de Galinhas. Foi a primeira de algumas vezes em que eu me senti sendo feita de otária e não podia fazer nada. Que desgraça! Eu e a Lud pegamos um ônibus para o aeroporto e de lá, outro para Porto de Galinhas. Quando chegamos na praia, começaram a nos assaltar. Antes mesmo de colocar os pés na areia, já vieram trezentos e cinquenta malandros com pacotes e ofertas de passeios de bugre, de mergulho... "Não, obrigada. Não, obrigada. Não, obrigada..." Ao pisarmos na beira da praia, eu fiquei extremamente irritada com a cara de pau dos restaurantes ao qualhar a areia de barracas e poltronas para a turistada, impedindo qualquer um de se sentar, sem ser obrigado a ter um consumo mínimo de um petisco (o mais barato era de 45 reais). Não é possível que isso não seja ilegal! E o que mais me indignava era que parecia que só eu e minha amiga estávamos revoltadas com aquele absurdo. A impressão que me dava era que todos os turistas eram boçais e eu era uma deles aos olhos dos vendedores, garçons, jangadeiros, etc. Fora isso, nos deliciamos com a praia de águas claras e de um azul metido a caribe. Luxo. Na sexta, alugamos um taxista, que furou e indicou um amigo. Meu Deus, que mala. Na ida, ele falava mais que eu e meu pai juntos (juro), na volta, perguntou se a gente gostava de piada e colocou um vídeo com piadas picantes. Que horror! Mas o passeio foi demais. Mesmo com o tempo feio, aproveitamos muito. Primeiro fomos à praia de Calletas, uma enseada ao lado da praia de Gaibu. Ao contrário de Porto de Galinhas, lá era bem mais calmo e barato, sem a mesma poluição sonora de vendedores oferecendo produtos o tempo inteiro. A praia era a maior paz. Primitiva, cercada de árvores, vários barcos de pescadores ancorados e águas calmas. De dentro d'água, dava pra ouvir a música do bar, que era muito boa. Do nada, começou a chover muito, mas mesmo assim ficamos no mar. Aquela chuva fria caindo no rosto, enquanto o corpo estava envolto por uma água quentinha e os ouvidos encharcados de música. Que delícia! Só saí da água, quando a chuva passou, pra comer uma manga, que encontramos na estrada, recém tombada. Após esse relaxamento natural, fomos para a praia dos Carneiros. Mais uma vez, me senti sendo feita de idiota, numa praia carésima, que só dá pra chegar de barco, onde o barqueiro também coloca o preço que ele quiser. Sabe aquele esquema de "vamos passear e depois eu deixo vocês no restaurante"? Me revoltei e falei logo: "no restaurante, por que? Só tem um?" "Não... Então... Tem outros, mas esse é muito bom!". Eu não ia ficar no que ele indicasse de jeito nenhum. Odeio indicação de guia, sempre é um lugar absurdamente caro, onde ele ganha comissão e que nem sempre é bom. Ficamos em outro, que também era caro, mas parecia ser mais simples. O tempo continuou do contra, só abrindo um solzinho sem vergonha por alguns instantes, mas mesmo assim o visual era absurdo. A praia rodeada de coqueiros, águas claras, com um azul também metido a caribe (só dando pra ver quando o sol aparecia), com arrecifes próximos, formando uma piscininha cheia de peixes de todas as cores e formas. Muito lindo! De deixar qualquer um embasbacado.
Pra finalizar, além de praias e carnaval maravilhosos, a parte gastronômica também está sendo de primeira. Das frutas, matei as saudades do suco de cajá, experimentei umbu cajá e delirei quando comi pitomba, depois de terem cortado meu barato, falando que estava fora de época. Dos pratos típicos, lambi os beiços com carne de sol com macaxeira frita e escondidinho de charque com macaxeira. Das besteirolas, provei uma tapioca legítima espetacular, me deleitei com uma deliciosa casquinha de caranguejo e fiquei maravilhada quando matei a saudade de ostra fresca. Dos doces, só lembrei da minha mãe ao comer um bolo de rolo fininho, molhadinho. Acho que ela estava do meu lado saboreando-o comigo.

Por enquanto é só, vice?

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

"Eu vi o mundo; ele começava no Recife." Cícero Dias

É tão esquisito. Depois de perder dois dos meus leitores mais assíduos e queridos, nunca pensei que teria vontade de escrever aqui tão cedo. Surpreendendo minhas expectativas, o Recife tomou conta de mim.
De um carnaval arranjado aos 48 minutos do segundo tempo, não poderia imaginar que seria tão envolvida e acolhida por essa cidade colorida ao som de frevos, afoxés e maracatus. Cheguei com minha amiga, sem panos e planos e no primeiro dia de folia (quase uma semana antes do carnaval) fui contaminada pela capital pernambucana. Sem os mesmos relatos loucos, aventuras e perrengues de voos internacionais, fomos recebidas por uma festa no aeroporto dos Guararapes. Não sei se foi a prefeitura, ou a diretoria do aeroporto que a organizou, mas posso garantir que foi bonita. Bonecos gigantes, dançarinos de frevo e maracatu se misturando com os turistas e residentes na confusão de malas, carrinhos e câmeras fotográficas.
Assim que chegamos, após as apresentações com os desconhecidos e abraços com quem permitiu nossa chegada, banho, jantar, conversas e rolé na praia, fomos parar no Recife Antigo.
Sabe aquele negócio de estar no lugar certo, na hora certa? Então, passei por isso duas vezes ontem. A primeira, passando na rua que foi moradia dos judeus antes e durante a época de Maurício de Nassau (assim me explicou o cariocano -carioca que é pernambucano-), onde tinha um prédio antigo lindo todo iluminado e foi fundo de passagem de um bloco de frevo. Aqueles guarda-chuvas saltando sobre as cabeças das pessoas com pernas que tinham vida, alguns com instrumentos na mão, em um ritmo desconhecido e conhecido, cada um dançando do seu jeito, completamente diferente de tudo que eu já vi. Que astral! Fiquei sem palavras. Filmes e fotos não foram suficientes para relatar aquele momento. O que eu vi, só eu vi.
Andando um pouco mais, escutei uma voz conhecida saindo de caixas de som. Quando eu olhei pro telão, cutuquei a minha amiga e falei: "Moyseis Marques? Ele está aqui?". Pra quem não conhece, é um cantor de samba do Rio de Janeiro, com uma voz maravilhosa! E não é que era ele mesmo? Não acreditei. Larguei o carnaval do Rio, com uma dorzinha no coração e tive o prazer de escutar um sambinha aqui em cima. Que alegria!
Depois ficamos um tempo numa folia que estava rolando numa casa ali perto até cairmos no Marco Zero, um ponto geográfico, de onde parte as direções para todos os lugares do mundo (pernambucano tem mesmo mania de grandeza, já não bastava o meu pai, agora eu tenho uma população inteira falando o quanto o mundo é o que é por causa de Pernambuco). Ali estavam testando as luzes do Palco Multicultural, que vai receber Lenine, Elba Ramalho, Alceu Valença, Seu Jorge, Ney Matogrosso, Lulu Santos... E já estou sabendo que também vem por aí Geraldo Azevedo, Roberta Sá, Beth Carvalho... Mas vamos viver um dia de cada vez.
Olhe, eu só posso falar uma coisa, pra primeiro dia de carnaval, ôxe, tá bom 'dimaix' (pernambucolizando na fala)!
Não sei se vou escrever de novo, se não vou, se terei tempo, se não terei, só sei que eu não podia ter tido melhor primeira impressão.
Eu queria compartilhar e o fiz.