quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Relatos portenhos



Por um mero detalhe técnico, não consegui publicar esse último post em Buenos Aires. Terminei as escrituras na hora de sair para o aeroporto, mas não me importei em deixar para compartilhar no Ezeiza, pois estava certa de que conseguiria fazê-lo antes de embarcar de volta para a Terrinha. No entanto, para a minha surpresa, o aeroporto internacional de Buenos Aires - Ezeiza - não possui a tecnologia Wi-Fi nas suas dependências. Me certifiquei de que nem pagando pelo acesso era possível a conexão, pois a empresa que vendia o cartão com uma senha, a Telecom, estava fechada. Sem mais o que fazer, salvei o texto e o guardei. Depois de ouvir algumas vezes "e qual é o problema de postar depois?" e superando as minhas manias metódicas, resolvi fazer uma publicação pós chegada. Assim, cá estamos, fingindo que a postagem foi ao ar no dia 13, no começo da tarde. (...)

Normalmente, demoro um ou dois dias para me sentir em casa nos lugares para onde viajo. Quando isso acontece, a vontade de voltar pro meu cantinho diminui, conforme o tempo passa. Dessa vez, não foi diferente. Me despeço com o coração na mão desta cidade sempre encantadora. 



Diferentemente dos turistas de primeira viagem, pude me dar ao luxo de aproveitar a última noite num lugar diferente dos tradicionais. Ao invés de escolher um daqueles “só tango, vinho e carne”, optamos por um delicioso retiro ao som dos Beatles, naquele espaço agradável descoberto há poucos dias, já registrado no último post. Em Paseo de la Plaza, ficamos no bar/café The Cavern, espaço dedicado aos músicos que ultrapassaram a sua época. Com um prazeroso encontro de família, com parentes que moram aqui, brindamos o penúltimo dia en Mi Buenos Aires querida.  


Por falar em encontro, no domingo, lá pro final da tarde, acompanhei meu pai na visita a uma amiga de sua família de muitos anos. Inicialmente, fui seguindo o protocolo, que diz ser gentil acompanhar os pais na visita de amigos distantes, para exibir os filhos. No entanto, em pouco tempo de contato, parecia que eu era a convidada. A Ari dá um banho de garbosidade, quando o assunto é receber pessoas. Junto com sua gentileza e elegância, o seu apartamento, lindamente decorado e aconchegante, foi o espaço de uma deliciosa conversa, que foi de política à música, de viagem às histórias familiares. Duas garrafas de vinho e petiscos peruanos incríveis deram um toque de requinte ao encontro e me fizeram perceber o quão maravilhoso são esses momentos. Depois, segui com meu pai pra casa, de mãos dadas, rindo e falando alto, caçando pelas bancas o último dos três jornais que faltava, com a alma e o teor alcoólico elevados, típico dos “bons vivent”.
Nesse mesmo dia, durante a manhã me surpreendi mais uma vez com San Telmo. Se não fosse a intenção do pessoal de ir até lá, para a tradicional feira de antiguidades, acho que provavelmente eu não teria ido. Contrariando às minhas expectativas de que seria igual às outras quinhentas vezes que estive lá, aquele lugar me encantou novamente. A começar pelo bairro, de graciosidade máxima, no estilo de Montmartre, em Paris. Aquelas construções antigas coloridas, com a tinta já envelhecida, apoiadas sobre ruas de pedra, ao som do choro de sanfonas me envolveram. Barraqueiros de antiguidade dividiam espaço com os de artesanato, com peças diferentes e descoladas, e os que se fantasiavam para ganhar um trocadinho (lugar de turistada, não podia ser diferente).


Ainda que tarde, mas não esquecidos, não poderia deixar de falar dos museus. Dessa vez, não dei muita sorte e muitas das minhas tentativas foram frustradas. Num dia, tentei assistir à exposição de Goya no Museo de Arte Español Enrique Larreta, mas demos de cara na porta, porque era dia do funcionário público, então estava cerrado. No sábado, desloquei-me para os confins de Puerto Madero e depois de andar cerca de 10 km (!!!), não pude desfrutar da história do humor na arte. Peguei um ônibus em Barrio Norte, desci em Puerto Madero.  Atravessei a ponte, andei, andei, andei, andei mais um pouco naquela cidade fantasma de espigões, construções e meia dúzia de gato pingado de terno na rua. Quando finalmente encontrei o Museo del Humor, ele estava de portas fechadas, pois preparava um espetáculo para a Noite dos Museus, que aconteceria no mesmo dia. 




No caminho de volta pro ponto de ônibus, andei um pouco menos, porque, quando me achei, vi que tinha pegado um caminho mais longo na ida, mas mesmo assim gastei as canelas. Ao invés de descer perto de casa, decidi seguir pela Av. Santa Fé em busca de um restaurante que me faria ser engolida pela nostalgia da última viagem, o La Niña de Oro. Eu sabia que ficava na Santa Fé, esquina com alguma rua, que eu não conseguia lembrar o nome por nada. Quando eu achei que lembrava, desci, andei pra cima e pra baixo, mas fui vencida pelo cansaço e pela fome, tendo que parar num restaurante para almoçar. Já tinha comido muita parrilla; não podia sair da Argentina sem uma milanesa. Foi essa, então, a minha pedida. Sentada sozinha na mesa, olhando as pessoas que passavam na rua, azul de fome, aguardava o meu prato, pensando se o restaurante procurado não teria fechado e incrédula que, depois de tanto caminhar, eu perderia o dia. Depois que a comida chegou e eu matei quem me matava, fui para um locutório do outro lado da rua, que tinha internet, para procurar o endereço do bendito restaurante. Descobri, então, que era MUITO longe de onde eu estava. Ficaria para outro dia (agora percebo que ficará para outra viagem). Aproveitei que estava em Palermo e procurei na internet o endereço de um cinema que tinha ali por perto e o horário do filme que eu queria assistir. Finalmente, alguma coisa deu certo e o meu dia, mais que salvo, foi incrível. Faltando 40 minutos pra sessão, deu tempo de ir com calma para o cinema. O filme escolhido foi “Esperando la Carroza” (À Espera do Rabecão). É um clássico de comédia argentino de 1985, que teve uma reestreia remasterizada e digital, no final de outubro. Deve ter no Brasil, mas eu não sei o nome em português, em cima está a tradução literal. A película é fantástica!!! Engraçadíssima! Dá vontade de ver de novo, quando acaba. A figura central é uma senhora de idade, completamente maluca. A família, bem simples, vive um drama tragicômico, quando ninguém quer ficar com a velha, porque ela dá muito trabalho com as suas doidices. Tentei escrever mais alguma coisa da história, mas tive que apagar, porque qualquer detalhe tira um pouco da graça. Mas o filme é maravilhoso! Recomendo!


Voltando ao assunto, desisti de ir à Noite dos Museus, pois fiquei muito cansada de andar e não estava disposta a enfrentar horas de fila para entrar de graça em algum centro cultural da cidade. Ainda mais que estava um frio tenebroso. No último post, comentei do calor insuportável que fazia; pois é, o tempo mudou bruscamente com uma frente fria que chegou na sexta. Tempestades e ventos fizeram a temperatura cair mais de 20ºC (as alérgicas aqui de casa sofreram! Infelizmente, fui uma delas!). A cidade ficou alagada e, logicamente, mais apagões. Já estou ficando íntima deles! No domingo o tempo já estava mais agradável e dava pra andar sem casaco, só com uma blusa de manga comprida. Bem, finalizando o tema, que toda hora se perde, depois do Museo Beatle minha segunda e última ida foi ao Museo del Holocausto, aqui perto de casa. Como já era de se imaginar, o clima foi muito baixo astral. Alias, muito mais que eu esperava. A tensão começava do lado de fora. O prédio do museu destoava dos outros da rua; todo de tijolos, funcionava no lugar de uma antiga empresa de eletricidade. De portas trancadas, era necessário tocar a campainha, para que um sujeito não muito amigável abrisse a porta para entrar. Por sorte, peguei carona de uma visita guiada de escola. Fiquei no meio da criançada sem piscar, ouvindo toda a explicação daquelas fotos, objetos e aprendendo parte da história, enquanto os pivetes me olhavam com cara de “olha a gringa!”.  Cheguei a ir para uma sala com as turmas, assistir ao vídeo de um judeu, que havia dado depoimento na Noite dos Museus sobre a sua história. Muito forte! No final da visita, passamos por um Memorial, com nomes de vítimas do Holocausto e que tinham parentes na Argentina. Na Noite dos Museus, 7.000 pessoas passaram pelo local e todas que reconheceram nomes de familiares, acenderam velas embaixo das plaquinhas. Então, quando eu passei por ali, vi a enorme quantidade de cera grudada de muitas e muitas velas queimadas. Saí de lá com um mal estar imenso...








Reencontrando a família, almoçamos juntos no restaurante eleito o melhor da viagem, o Aires Criollos. Despedimos-nos com a melhor das carnes argentinas, saborosas e de maciez impecável, sendo super bem atendidos por um garçom muito simpático, que respondia com prontidão a todos os nossos pedidos com um “muy bien, pero como no...”; dando adeus ao refrigerante Passo de los Toros, à cerveja Quilmes, ao Fernet e aos bons vinhos Luigi Bosca, Rutini, Trapiche, dentre outros...
Agora, com o coração apertado, vejo o primeiro sinal de vida no grãozinho de saudade instalado em meu peito. É tão bom só ter obrigações com diversão, sem preocupações que sejam maiores que “estou guardando as notinhas?”, “onde vamos jantar?” e “tem que comprar mais água!”... Que venha a próxima viagem! Let’s go back to ROTINA! Com um sorriso no rosto, pronta para as novidades que pintarão por aí.

Hasta la vista!

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Buenos Aires: retratos de um país em crise


Caos.  Não há melhor expressão para definir a capital da Argentina no momento. De quase sete anos que venho pra cá, sendo praticamente uma tradição anual, nunca vi a cidade desse jeito.  A inflação está gritante e o governo tenta, a todo tempo, escondê-la; ele o faz proibindo a divulgação da mesma, que não seja pelo órgão oficial. A população sabe que está mais alta, pois alguns parlamentares fazem uso de sua imunidade, para divulgar os números reais, que beiram 25%. Aquela farra que a “brasileirada” fazia na Argentina, pelo fato da taxa de câmbio ser favorável a nós e pelos preços baixos, não existe mais. Tudo está caríssimo! Um sorvete de duas bolas custa Ar$30 –pesos argentinos– (R$13,00); uma compra de mercado sem luxos (tiramos os vinhos, frios bons e chocolates), com frutas, papel higiênico, algumas bebidas e comidas, para uma semana e cinco pessoas: Ar$600 (R$270,00); minhas amadas alpargatas (sapatilha tradicional daqui), que há 2 anos comprei por Ar$70, há um ano minha mãe comprou por Ar$80, agora estão custando Ar$160!!! Muitos lugares aceitam dólares, inclusive, alguns fazem o câmbio melhor que o oficial (U$1 – Ar$4,40), que acaba valendo a pena!
Como uma coisa induz a outra, as greves são frequentes. Quando chegamos, reparamos que a cidade estava imunda! Centenas de sacos de lixo acumulados nas calçadas. Até que descobrimos que havia greve dos lixeiros. No momento ela já terminou, mas em muitos pontos da cidade ainda encontramos sujeira e mau cheiro. Inclusive, aqui em casa, ontem, apareceram duas CUCARACHAS chiquitas, baratinhas, para os íntimos. 




Como se não fosse suficiente, os apagões são frequentes e houve falta de água também, mas essa não nos atingiu. Com o calor de matar (juro, está pior que o Rio de Janeiro! Eu cheguei a perguntar à minha tia, se no Rio é assim no verão, porque a impressão que eu tenho é que nunca senti tanto calor na minha vida. Não bate um vento.), as pessoas gastam mais energia, principalmente com ar condicionado. Assim, o resultado da falta de investimento em energia nas últimas décadas está vindo à tona agora. Um apagão atrás do outro. A ordem é para que as pessoas poupem energia ao máximo. As lojas, até as de grife, como a ZARA, trabalham com os aparelhos de ar condicionado DESLIGADOS. Elas já estão vazias por causa inflação, com o calor, mais ainda. Devido às quedas de energia, o metro vira uma bagunça, pois algumas linhas param, outras ficam superlotadas e o trânsito, um horror, já que perde a sinalização. Aqui eles falam em um “rodízio” de energia, cada dia alguns bairros ficam no escuro. A estratégia da presidente Cristina Kirchner é cortar a luz somente de bairros nobres, já que proporcionalmente o gasto de energia de um bairro da periferia é infinitamente menor que o da zona "endinheirada". Isso daria margem a pensar que “o povo” a apoia, enquanto “os ricos” estão inventando caso para prejudicá-la, como ela afirma, mas não é verdade. A insatisfação é geral. As pessoas estão mais mau humoradas, com o dinheiro que é curto e não dá pra nada, os cortes e o disfarce da inflação.
Faz pouco tempo, cheguei de uma manifestação gigantesca, certamente a maior que já estive na minha vida. Tomei a decisão de ir, quando vi um engarrafamento quilométrico se formando, da janela do meu apartamento na Rua Marcelo T. Alvear, esquina com Av. Callao, no Barrio Norte (Recoleta). Buzinas ensurdecedoras, policiais desviando o trânsito, pessoas falando alto... Com a televisão ligada, vimos (eu, meus familiares e amigos), que estava se formando na rua paralela a minha (Av. Santa Fé) um encontro de manifestantes fazendo um panelaço, com cartazes, faixas e bandeiras. Foi então que eu disse: “eu vou lá!”. Um dos milhares de papeizinhos na rua dava a explicação do movimento: “¿Porque marchamos?” – Defesa da Constituição, respeito à república, respeito à divisão de poderes, pela união nacional, pela vida e pela paz.



 Os argentinos não estão engolindo a proposta de Cristina Kirchner de mudar a Constituição, para tornar possível uma segunda reeleição (seria o seu TERCEIRO mandato). Os cartazes repetem as frases: “não a RE RE” (fazendo menção a uma ‘re reeleição’), “chega de mentiras” (em relação ao disfarce dos reais valores de inflação), “oposição cúmplice” (mostrando que não é só a direita e a extrema direita que estão contra a presidente), “korrupção” (com o K de Kirchner, provavelmente revoltados com a reforma da cozinha e banheiros da Casa Rosada -totalmente desnecessária em meio a crise-, que sairá cerca de U$2 milhões), “chega de insegurança ” (pela violência que aumentou estrondosamente), “largue os microfones, coloque o fone de ouvido e escute o povo, que não aguenta mais”, dentre outros... Comecei fotografando, impressionada com a garra dos argentinos de ir pra rua, quando as coisas não vão bem. Algum tempo depois, já estava trocando ideia com os manifestantes. Passado mais alguns minutos, eu já estava com placa na mão, no meio da galera. 





A Vânia voltou pra casa, quando ainda estávamos na Av. Santa Fé. Eu fui até a Av. 9 de Julio, perto do Obelisco. A marcha ia até a Plaza de Mayo, onde fica a Casa Rosada. Eu desisti de acompanhar até o final, pois estava cada vez mais cheio e, mesmo à noite, o calor estava demais. Quando saí de casa, os jornais avisaram que deveria dar 1 milhão de pessoas. Tenho certeza de que o público foi muito maior, pois quando retornei, vi na televisão, que diversos pontos da capital (Belgrano, Rivadavia, Olivos, Caballito...) reuniram multidões caminhando para a mesma direção. Em meio àquele imenso número de pessoas, fiquei impressionada com a variação de idade, que ia desde crianças de colo até idosos, passando por pessoas com cachorro e bicicleta no meio da multidão. Tudo era feito com uma organização e educação que deixavam qualquer brasileiro de boca aberta. Havia alguns policiais que ajudavam no trânsito nas ruas transversais às que as pessoas circulavam: ora passava carro, ora passava gente. Todo mundo respeitando todo mundo. Quando eu cheguei próxima ao obelisco, fiquei em cima de uma estrutura, que me permitia ver um mar de gente tão grande, que eu não enxergava o final. Certamente, minha audição piorou alguns decibéis, depois de tanta gente batendo panela no meu ouvido. Quem não tinha panela, batia uma garrafa plástica fechada na outra. Tinha também quem colocou uns feijões dentro de uma garrafa de dois litros vazia, fechou e ficou sacudindo pra fazer barulho. Havia até quem batia com uma chave num poste de metal, só pra contribuir com a sonoridade. Os ritmos eram variados, até que todos pararam de batucar e começaram a cantar o hino da Argentina. Foi muito emocionante. Eu estava no meio de um coro, eram pessoas que cantavam a plenos pulmões, com o sangue fervendo e um patriotismo inimaginável. No final, acredito que na parte mais importante do hino, as pessoas cantavam e batucavam no ritmo da música, extremamente emocionadas. Fiquei arrepiada dos pés à cabeça. 





Não posso deixar de fazer duas observações. A primeira é em relação aos comentários de que a presidente está cega, que não quer enxergar a crise em que a Argentina se encontra. Quando estávamos vendo o noticiário, minha tia comentou “e agora? Quais serão os argumentos dela pra continuar com o projeto de reeleição. Ninguém mais a apoia. Será que ela não está com a televisão ligada, vendo o que está acontecendo?”; então o meu pai respondeu sarcasticamente: “é bem provável que os assessores dela estejam passando vídeos de manifestações favoráveis a ela de alguns anos atrás.” Há dias as manifestações vêm ocorrendo, mas hoje foi o auge. Será muita cara de pau amanhã, se algum jornal deixar de notificar este acontecimento. Digo isso, pois, enquanto os jornais de hoje exibiam manchetes enormes sobre o apagão de ontem, um jornal de esquerda, favorável à presidente, o Página 12, tinha como a matéria central, a reeleição de Barak Obama. A segunda observação faz menção à experiência que tive da mudança de posicionamento da população em relação à C. Kirchner. Em janeiro completará dois anos da última vez que vim à Argentina. Lembro-me com clareza de ver cartazes em Buenos Aires e Rosário, logo após a morte do ex-presidente e marido de Cristina, Néstor Kirchner, com os seguintes dizeres: “Força, Cristina! O povo está com você!”, pelo fato dela ter começado a sofrer forte pressão, dos que diziam que ela não seria capaz de governar o país, sem o auxílio do seu marido. Como tudo muda em tão pouco tempo... Quem dava o sangue por ela, agora diz: “Fora, Cristina!”.


            Tirando a parte política e mudando o rumo da prosa, fiz alguns passeios legais, mas estou muito limitada. Está muito quente! Por isso, está um horror sair de casa; pegar metro é outra tortura, por causa das filas e do calor. Estou assustada também com a possibilidade dos museus estarem sem ar condicionado. Hoje eu deixei de ir ao cinema, por essa razão. O único museu que fui até agora, foi o novo Museo Beatle, em Paseo de la Plaza. Ele é anunciado como a maior coleção de Beatles do mundo, o que dá uma danada ideia de grandeza, apesar da desconfiança. “Em Buenos Aires?” A frase é verdadeira, só que mal formulada, por isso decepciona muitas pessoas que vão lá. Toda a coleção do museu pertence a um colecionador, Rodolfo R. Vázquez, vencedor no Guiness, como pessoa que mais reuniu artigos dos Beatles. Realmente, o fato dessa coleção pertencer a apenas uma pessoa é algo incrivelmente grandioso, só que pra um museu, não é. Tudo fica dentro de uma sala pequena e é muitíssimo interessante para qualquer “beatlemaníaco”, como eu. Porém, não é imperdível, principalmente pra quem não é fã. Vale lembrar, ainda que o preço é bem salgado: Ar$50!!! O mais legal de tudo, sem dúvida, é o passeio no local que fica o museu. Paseo de la Plaza, fica na Av. Corrientes, 1660. O lugar não chama a atenção de quem passa pela frente. Situado numa avenida movimentada, possui uma fachada cercada com cartazes de peças de teatro bem iluminadas; o salão de entrada parece apenas uma bilheteria de teatro. Ultrapassando o corredor, chega-se a um local escondido dos pontos turísticos e absolutamente incrível. Uma ruazinha de pedra, com subidas e descidas, caminhos de escada e rampa, fazem um labirinto num lugar extremamente agradável, rodeado por árvores, lojinhas, barzinhos, restaurantes e salas de teatro. O lugar é super Cool e reúne jovens cheios de estilo, que dão graça ao lugar. Vale a visita noturna!
           Em frente ao Passeo de la Plaza, do outro lado da rua, no número 1669 da Av. Corrientes, fica o El Gato Negro. É um café tradicional, com mais de 80 anos, que antigamente funcionava como armazém e distribuição de bebidas. Fundado por um espanhol, que comercializava especiarias vindas da Ásia, o café mantém a sua estrutura rústica, que dá charme ao lugar. A vitrine possui caixinhas com temperos, ervas e sabores. Lá dentro, as especiarias ficam em enormes potes de vidro, que disputam espaço com torres de grãos de café de diversos lugares, além de um estande enorme de doces artesanais. Por sorte, pegamos o dia em que havia uma promoção de 2 x 1 em bebidas alcoólicas e pudemos bebericar à vontade. Provamos uma cerveja artesanal, que não conhecíamos, chamada Iguana. Muito boa! Um outro achado foi o restaurante Aires Criollos na Av. Santa Fé, entre as ruas Callao e Rodrigues Peña. Fomos lá, no primeiro dia, por indicação do proprietário do apartamento, mas desistimos de entrar, porque estava sem ar condicionado. Então, no segundo dia retornamos, para ver se o problema já havia sido sanado e felizmente, isso ocorreu. O serviço foi bom, a comida, espetacular (una buena parrillada, con ensalada y papas), bebemos cerveja e com o serviço, que não é incluso, mas demos 10%, deu Ar$440 (R$200 – R$40 reais por pessoa). Para um restaurante de primeira linha, está bom, não está?





           Bueno, por enquanto es esto.
           Cada dia uma surpresa nessa cidade que é, apesar de tudo, querida.

domingo, 19 de fevereiro de 2012

É frevo!

"Ei pessoal, vem moçada, carnaval começa no Galo da Madrugada!"
Inacreditável o modo como essa música contamina os foliões de um dos maiores blocos do Brasil. Hoje foi dia de Galo, que já deixou de ser da madrugada. Ouvi rumores de que a mudança de horário do bloco se deve por influência da Globo, que está dominando (e para alguns arruinando) esse carnaval. A mudança do trajeto original e a criação de camarotes seletos estão elitizando e segregando um carnaval que, inicialmente, era a união de todos os tipos num mesmo nível e lugar. Sendo intriga ou não, posso falar que fora dos camarotes estava o povão e eu estava lá. Deixei de me juntar aos nobres do camarote não por vontade de me reunir com a massa, mas por acreditar que não valeria a pena pagar caro pra ficar pouco tempo no bloco, já que os planos eram de aproveitar a concentração e depois rumar para Olinda. Enfim, como lá foi o meu destino, pude aproveitar e reparar algumas coisas... Duas me chamaram a atenção: a primeira é a estupenda falta de educação das pessoas. Era comum esbarrar, pisar no pé e empurrar com agressividade, sem pedir desculpa. Em Olinda, eu vivi exatamente o contrário. Percebi claramente que o público é outro e que as pessoas são mais educadas. A segunda é que, apesar da falta de educação, mesmo reunindo mais de um milhão e meio de foliões, eu não vi nenhuma confusão. Passei momentos de aperto por conta da muvuca, mas nenhum de briga. Fantástico.
Logo após o Galo, fiquei extasiada com as orquestras arrastando pernambucanos e forasteiros pelos becos e ladeiras de Olinda. O astral era tão maravilhoso que eu me lembro de ter ficado arrepiada e emocionada em alguns momentos. Ver aqueles casarões coloridos de sei lá quantos séculos, como plano de fundo de um mar de pessoas fantasiadas, cada uma mais criativa que a outra, com sorrisos de orelha a orelha, alguns já de porre, outros "chamando o Raul", mas a maioria dançando no mesmo compasso, com seus guarda-chuvinhas coloridos suspensos no ar, girando no ritmo das batidas dos instrumentos, me passava uma energia inexplicável. Tinha hora que eu não conseguia nem pular, ficava só de boca aberta olhando pra tudo com cara de boba, não acreditando estar ali. Em meio a subidas e descidas de ladeiras, com as pernas gritando por uma pausa e a boca clamando por uma cerveja, visitei e me diverti na casa de parentes.
Na quinta-feira, quando fui à Olinda pela primeira vez, fui à um endereço que meu pai havia me passado para entrar em contato com gente da família. No começo hesitei, achei que seria um tanto esquisito, mas lá fui eu. Seguindo a descrição, me deparei com uma casa toda decorada, com uma galera do lado de fora fazendo a maior zona, ensaiando para um bloco. Comentei com minha amiga Lud: "será que é aqui?" e recebi um "só pode ser". Lá fui eu, na cara e na coragem "Oi! É aqui que mora o Juscelino?". A pessoa pra quem eu perguntei abriu os olhos e falou: "É você!!!!!! Você é a filha do Fred!!!!!! É a... É a..." Aí lembrar nome é difícil, né? Mas eu ajudei. Depois começou a fila de apresentações. "Ôxe.. Fulano, venha cá, vou li mostrá essa minina aqui. Ela é filha di Fred." Depois disso eu só ganhava beijos e abraços. Até que teve uma que não sabia quem era o Fred. Então o tal do Juscelino comentou "não, não, ela não conhece o Fred não, mas conhece o Xandi. Zé Raymundo. Ela é neta de Zé Raymundo." Parecia que ele tinha falado a palavra mágica. Quando falou que eu era neta de Zé Raymundo, pronto, a pessoa me deu um abraço, como se fosse minha irmã e não me visse há 25 anos, por pensar que eu estava morta. Depois, isso se transformou na chave mestra para abertura de sorrisos de graça pra mim, que fez até minha amiga comentar: "Pô, seu vô era famoso, hein!". Hoje, quando voltei a Olinda, passei de novo nessa casa e em pouco tempo, lá vem uma pessoa puxando um Paulinho da Viola, com outras acompanhando no tamborim e no batuque na mesa. Aí eu tive a certeza de que era minha família.
Além do carnaval, visitei o litoral sul do estado na quinta e na sexta, fazendo passeios "bate-volta". Na quinta, fui à Porto de Galinhas. Foi a primeira de algumas vezes em que eu me senti sendo feita de otária e não podia fazer nada. Que desgraça! Eu e a Lud pegamos um ônibus para o aeroporto e de lá, outro para Porto de Galinhas. Quando chegamos na praia, começaram a nos assaltar. Antes mesmo de colocar os pés na areia, já vieram trezentos e cinquenta malandros com pacotes e ofertas de passeios de bugre, de mergulho... "Não, obrigada. Não, obrigada. Não, obrigada..." Ao pisarmos na beira da praia, eu fiquei extremamente irritada com a cara de pau dos restaurantes ao qualhar a areia de barracas e poltronas para a turistada, impedindo qualquer um de se sentar, sem ser obrigado a ter um consumo mínimo de um petisco (o mais barato era de 45 reais). Não é possível que isso não seja ilegal! E o que mais me indignava era que parecia que só eu e minha amiga estávamos revoltadas com aquele absurdo. A impressão que me dava era que todos os turistas eram boçais e eu era uma deles aos olhos dos vendedores, garçons, jangadeiros, etc. Fora isso, nos deliciamos com a praia de águas claras e de um azul metido a caribe. Luxo. Na sexta, alugamos um taxista, que furou e indicou um amigo. Meu Deus, que mala. Na ida, ele falava mais que eu e meu pai juntos (juro), na volta, perguntou se a gente gostava de piada e colocou um vídeo com piadas picantes. Que horror! Mas o passeio foi demais. Mesmo com o tempo feio, aproveitamos muito. Primeiro fomos à praia de Calletas, uma enseada ao lado da praia de Gaibu. Ao contrário de Porto de Galinhas, lá era bem mais calmo e barato, sem a mesma poluição sonora de vendedores oferecendo produtos o tempo inteiro. A praia era a maior paz. Primitiva, cercada de árvores, vários barcos de pescadores ancorados e águas calmas. De dentro d'água, dava pra ouvir a música do bar, que era muito boa. Do nada, começou a chover muito, mas mesmo assim ficamos no mar. Aquela chuva fria caindo no rosto, enquanto o corpo estava envolto por uma água quentinha e os ouvidos encharcados de música. Que delícia! Só saí da água, quando a chuva passou, pra comer uma manga, que encontramos na estrada, recém tombada. Após esse relaxamento natural, fomos para a praia dos Carneiros. Mais uma vez, me senti sendo feita de idiota, numa praia carésima, que só dá pra chegar de barco, onde o barqueiro também coloca o preço que ele quiser. Sabe aquele esquema de "vamos passear e depois eu deixo vocês no restaurante"? Me revoltei e falei logo: "no restaurante, por que? Só tem um?" "Não... Então... Tem outros, mas esse é muito bom!". Eu não ia ficar no que ele indicasse de jeito nenhum. Odeio indicação de guia, sempre é um lugar absurdamente caro, onde ele ganha comissão e que nem sempre é bom. Ficamos em outro, que também era caro, mas parecia ser mais simples. O tempo continuou do contra, só abrindo um solzinho sem vergonha por alguns instantes, mas mesmo assim o visual era absurdo. A praia rodeada de coqueiros, águas claras, com um azul também metido a caribe (só dando pra ver quando o sol aparecia), com arrecifes próximos, formando uma piscininha cheia de peixes de todas as cores e formas. Muito lindo! De deixar qualquer um embasbacado.
Pra finalizar, além de praias e carnaval maravilhosos, a parte gastronômica também está sendo de primeira. Das frutas, matei as saudades do suco de cajá, experimentei umbu cajá e delirei quando comi pitomba, depois de terem cortado meu barato, falando que estava fora de época. Dos pratos típicos, lambi os beiços com carne de sol com macaxeira frita e escondidinho de charque com macaxeira. Das besteirolas, provei uma tapioca legítima espetacular, me deleitei com uma deliciosa casquinha de caranguejo e fiquei maravilhada quando matei a saudade de ostra fresca. Dos doces, só lembrei da minha mãe ao comer um bolo de rolo fininho, molhadinho. Acho que ela estava do meu lado saboreando-o comigo.

Por enquanto é só, vice?

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

"Eu vi o mundo; ele começava no Recife." Cícero Dias

É tão esquisito. Depois de perder dois dos meus leitores mais assíduos e queridos, nunca pensei que teria vontade de escrever aqui tão cedo. Surpreendendo minhas expectativas, o Recife tomou conta de mim.
De um carnaval arranjado aos 48 minutos do segundo tempo, não poderia imaginar que seria tão envolvida e acolhida por essa cidade colorida ao som de frevos, afoxés e maracatus. Cheguei com minha amiga, sem panos e planos e no primeiro dia de folia (quase uma semana antes do carnaval) fui contaminada pela capital pernambucana. Sem os mesmos relatos loucos, aventuras e perrengues de voos internacionais, fomos recebidas por uma festa no aeroporto dos Guararapes. Não sei se foi a prefeitura, ou a diretoria do aeroporto que a organizou, mas posso garantir que foi bonita. Bonecos gigantes, dançarinos de frevo e maracatu se misturando com os turistas e residentes na confusão de malas, carrinhos e câmeras fotográficas.
Assim que chegamos, após as apresentações com os desconhecidos e abraços com quem permitiu nossa chegada, banho, jantar, conversas e rolé na praia, fomos parar no Recife Antigo.
Sabe aquele negócio de estar no lugar certo, na hora certa? Então, passei por isso duas vezes ontem. A primeira, passando na rua que foi moradia dos judeus antes e durante a época de Maurício de Nassau (assim me explicou o cariocano -carioca que é pernambucano-), onde tinha um prédio antigo lindo todo iluminado e foi fundo de passagem de um bloco de frevo. Aqueles guarda-chuvas saltando sobre as cabeças das pessoas com pernas que tinham vida, alguns com instrumentos na mão, em um ritmo desconhecido e conhecido, cada um dançando do seu jeito, completamente diferente de tudo que eu já vi. Que astral! Fiquei sem palavras. Filmes e fotos não foram suficientes para relatar aquele momento. O que eu vi, só eu vi.
Andando um pouco mais, escutei uma voz conhecida saindo de caixas de som. Quando eu olhei pro telão, cutuquei a minha amiga e falei: "Moyseis Marques? Ele está aqui?". Pra quem não conhece, é um cantor de samba do Rio de Janeiro, com uma voz maravilhosa! E não é que era ele mesmo? Não acreditei. Larguei o carnaval do Rio, com uma dorzinha no coração e tive o prazer de escutar um sambinha aqui em cima. Que alegria!
Depois ficamos um tempo numa folia que estava rolando numa casa ali perto até cairmos no Marco Zero, um ponto geográfico, de onde parte as direções para todos os lugares do mundo (pernambucano tem mesmo mania de grandeza, já não bastava o meu pai, agora eu tenho uma população inteira falando o quanto o mundo é o que é por causa de Pernambuco). Ali estavam testando as luzes do Palco Multicultural, que vai receber Lenine, Elba Ramalho, Alceu Valença, Seu Jorge, Ney Matogrosso, Lulu Santos... E já estou sabendo que também vem por aí Geraldo Azevedo, Roberta Sá, Beth Carvalho... Mas vamos viver um dia de cada vez.
Olhe, eu só posso falar uma coisa, pra primeiro dia de carnaval, ôxe, tá bom 'dimaix' (pernambucolizando na fala)!
Não sei se vou escrever de novo, se não vou, se terei tempo, se não terei, só sei que eu não podia ter tido melhor primeira impressão.
Eu queria compartilhar e o fiz.