Caos. Não há melhor expressão para definir a capital
da Argentina no momento. De quase sete anos que venho pra cá, sendo praticamente uma
tradição anual, nunca vi a cidade desse jeito.
A inflação está gritante e o governo tenta, a todo tempo, escondê-la;
ele o faz proibindo a divulgação da mesma, que não seja pelo órgão oficial. A população
sabe que está mais alta, pois alguns parlamentares fazem uso de sua imunidade,
para divulgar os números reais, que beiram 25%. Aquela farra que a “brasileirada”
fazia na Argentina, pelo fato da taxa de câmbio ser favorável a nós e pelos preços
baixos, não existe mais. Tudo está caríssimo! Um sorvete de duas bolas custa Ar$30
–pesos argentinos– (R$13,00); uma compra de mercado sem luxos (tiramos os
vinhos, frios bons e chocolates), com frutas, papel higiênico, algumas
bebidas e comidas, para uma semana e cinco pessoas: Ar$600 (R$270,00); minhas
amadas alpargatas (sapatilha tradicional daqui), que há 2 anos comprei por
Ar$70, há um ano minha mãe comprou por Ar$80, agora estão custando Ar$160!!!
Muitos lugares aceitam dólares, inclusive, alguns fazem o câmbio melhor que o
oficial (U$1 – Ar$4,40), que acaba valendo a pena!
Como uma coisa induz a outra, as
greves são frequentes. Quando chegamos, reparamos que a cidade estava imunda!
Centenas de sacos de lixo acumulados nas calçadas. Até que descobrimos que
havia greve dos lixeiros. No momento ela já terminou, mas em muitos pontos da
cidade ainda encontramos sujeira e mau cheiro. Inclusive, aqui em casa, ontem,
apareceram duas CUCARACHAS chiquitas, baratinhas, para os íntimos.
Como se não fosse
suficiente, os apagões são frequentes e houve falta de água também, mas essa
não nos atingiu. Com o calor de matar (juro, está pior que o Rio de
Janeiro! Eu cheguei a perguntar à minha tia, se no Rio é assim no verão, porque
a impressão que eu tenho é que nunca senti tanto calor na minha vida. Não bate
um vento.), as pessoas gastam mais energia, principalmente com ar condicionado. Assim, o resultado da falta de investimento em energia nas últimas
décadas está vindo à tona agora. Um apagão atrás do outro. A ordem é para que
as pessoas poupem energia ao máximo. As lojas, até as de grife, como a ZARA,
trabalham com os aparelhos de ar condicionado DESLIGADOS. Elas já estão vazias
por causa inflação, com o calor, mais ainda. Devido às quedas de energia, o metro
vira uma bagunça, pois algumas linhas param, outras ficam superlotadas e o
trânsito, um horror, já que perde a sinalização. Aqui eles falam em um “rodízio”
de energia, cada dia alguns bairros ficam no escuro. A estratégia da presidente
Cristina Kirchner é cortar a luz somente de bairros nobres, já que
proporcionalmente o gasto de energia de um bairro da periferia é infinitamente
menor que o da zona "endinheirada". Isso daria margem a pensar que “o povo” a
apoia, enquanto “os ricos” estão inventando caso para prejudicá-la, como ela
afirma, mas não é verdade. A insatisfação é geral. As pessoas estão mais mau
humoradas, com o dinheiro que é curto e não dá pra nada, os cortes e o
disfarce da inflação.
Faz pouco tempo, cheguei de uma
manifestação gigantesca, certamente a maior que já estive na minha vida. Tomei
a decisão de ir, quando vi um engarrafamento quilométrico se formando, da
janela do meu apartamento na Rua Marcelo T. Alvear, esquina com Av. Callao, no
Barrio Norte (Recoleta). Buzinas ensurdecedoras, policiais desviando o
trânsito, pessoas falando alto... Com a televisão ligada, vimos (eu, meus
familiares e amigos), que estava se formando na rua paralela a minha (Av. Santa
Fé) um encontro de manifestantes fazendo um panelaço, com cartazes, faixas e
bandeiras. Foi então que eu disse: “eu vou lá!”. Um dos
milhares de papeizinhos na rua dava a explicação do movimento: “¿Porque
marchamos?” – Defesa da Constituição, respeito à república, respeito à divisão
de poderes, pela união nacional, pela vida e pela paz.
Os argentinos não estão
engolindo a proposta de Cristina Kirchner de mudar a Constituição, para tornar
possível uma segunda reeleição (seria o seu TERCEIRO mandato). Os cartazes
repetem as frases: “não a RE RE” (fazendo menção a uma ‘re reeleição’), “chega
de mentiras” (em relação ao disfarce dos reais valores de inflação), “oposição
cúmplice” (mostrando que não é só a direita e a extrema direita que estão
contra a presidente), “korrupção” (com o K de Kirchner, provavelmente revoltados
com a reforma da cozinha e banheiros da Casa Rosada -totalmente desnecessária
em meio a crise-, que sairá cerca de U$2 milhões), “chega de insegurança ” (pela
violência que aumentou estrondosamente), “largue os microfones, coloque o fone
de ouvido e escute o povo, que não aguenta mais”, dentre outros... Comecei fotografando,
impressionada com a garra dos argentinos de ir pra rua, quando as coisas não
vão bem. Algum tempo depois, já estava trocando ideia com os manifestantes.
Passado mais alguns minutos, eu já estava com placa na mão, no meio da galera.
A Vânia voltou pra casa, quando ainda estávamos na Av. Santa Fé. Eu fui até a Av. 9 de Julio,
perto do Obelisco. A marcha ia até a Plaza de Mayo, onde fica a Casa Rosada. Eu
desisti de acompanhar até o final, pois estava cada vez mais cheio e, mesmo à
noite, o calor estava demais. Quando saí de casa, os jornais avisaram que deveria
dar 1 milhão de pessoas. Tenho certeza de que o público foi muito maior, pois
quando retornei, vi na televisão, que diversos pontos da capital (Belgrano,
Rivadavia, Olivos, Caballito...) reuniram multidões caminhando para a mesma
direção. Em meio àquele imenso número de pessoas, fiquei impressionada com a
variação de idade, que ia desde crianças de colo até idosos, passando por pessoas
com cachorro e bicicleta no meio da multidão. Tudo era feito com uma organização
e educação que deixavam qualquer brasileiro de boca aberta. Havia alguns
policiais que ajudavam no trânsito nas ruas transversais às que as pessoas
circulavam: ora passava carro, ora passava gente. Todo mundo respeitando todo mundo.
Quando eu cheguei próxima ao obelisco, fiquei em cima de uma estrutura, que me
permitia ver um mar de gente tão grande, que eu não enxergava o final.
Certamente, minha audição piorou alguns decibéis, depois de tanta gente batendo
panela no meu ouvido. Quem não tinha panela, batia uma garrafa plástica fechada
na outra. Tinha também quem colocou uns feijões dentro de uma garrafa de dois
litros vazia, fechou e ficou sacudindo pra fazer barulho. Havia até quem batia
com uma chave num poste de metal, só pra contribuir com a sonoridade. Os ritmos
eram variados, até que todos pararam de batucar e começaram a cantar o hino da
Argentina. Foi muito emocionante. Eu estava no meio de um coro, eram pessoas que cantavam a plenos pulmões, com o sangue fervendo e um patriotismo inimaginável.
No final, acredito que na parte mais importante do hino, as pessoas cantavam e batucavam
no ritmo da música, extremamente emocionadas. Fiquei arrepiada dos pés à
cabeça.
Não posso deixar de fazer duas
observações. A primeira é em relação aos comentários de que a presidente está
cega, que não quer enxergar a crise em que a Argentina se encontra. Quando estávamos
vendo o noticiário, minha tia comentou “e agora? Quais serão os argumentos dela
pra continuar com o projeto de reeleição. Ninguém mais a apoia. Será que ela
não está com a televisão ligada, vendo o que está acontecendo?”; então o meu
pai respondeu sarcasticamente: “é bem provável que os assessores dela estejam
passando vídeos de manifestações favoráveis a ela de alguns anos atrás.” Há
dias as manifestações vêm ocorrendo, mas hoje foi o auge. Será muita cara de
pau amanhã, se algum jornal deixar de notificar este acontecimento. Digo isso,
pois, enquanto os jornais de hoje exibiam manchetes enormes sobre o apagão de
ontem, um jornal de esquerda, favorável à presidente, o Página 12, tinha como a
matéria central, a reeleição de Barak Obama. A segunda observação faz menção à
experiência que tive da mudança de posicionamento da população em relação à C.
Kirchner. Em janeiro completará dois anos da última vez que vim à Argentina.
Lembro-me com clareza de ver cartazes em Buenos Aires e Rosário, logo após a
morte do ex-presidente e marido de Cristina, Néstor Kirchner, com os seguintes
dizeres: “Força, Cristina! O povo está com você!”, pelo fato dela ter começado
a sofrer forte pressão, dos que diziam que ela não seria capaz de governar o
país, sem o auxílio do seu marido. Como tudo muda em tão pouco tempo... Quem
dava o sangue por ela, agora diz: “Fora, Cristina!”.
Tirando
a parte política e mudando o rumo da prosa, fiz alguns passeios legais, mas
estou muito limitada. Está muito quente! Por isso, está um horror sair de casa; pegar metro é outra
tortura, por causa das filas e do calor. Estou assustada também com a
possibilidade dos museus estarem sem ar condicionado. Hoje eu deixei de ir ao
cinema, por essa razão. O único museu que fui até agora, foi o novo Museo
Beatle, em Paseo de la Plaza. Ele é anunciado como a maior coleção de Beatles
do mundo, o que dá uma danada ideia de grandeza, apesar da desconfiança. “Em
Buenos Aires?” A frase é verdadeira, só que mal formulada, por isso decepciona
muitas pessoas que vão lá. Toda a coleção do museu pertence a um colecionador, Rodolfo
R. Vázquez, vencedor no Guiness, como pessoa que mais reuniu artigos dos
Beatles. Realmente, o fato dessa coleção pertencer a apenas uma pessoa é algo incrivelmente
grandioso, só que pra um museu, não é. Tudo fica dentro de uma sala pequena e é
muitíssimo interessante para qualquer “beatlemaníaco”, como eu. Porém, não é
imperdível, principalmente pra quem não é fã. Vale lembrar, ainda que o preço é
bem salgado: Ar$50!!! O mais legal de tudo, sem dúvida, é o passeio no local
que fica o museu. Paseo de la Plaza, fica na Av. Corrientes, 1660. O lugar não
chama a atenção de quem passa pela frente. Situado numa avenida movimentada,
possui uma fachada cercada com cartazes de peças de teatro bem iluminadas; o salão de entrada parece apenas uma bilheteria de teatro.
Ultrapassando o corredor, chega-se a um local escondido dos pontos turísticos e
absolutamente incrível. Uma ruazinha de pedra, com subidas e descidas,
caminhos de escada e rampa, fazem um labirinto num lugar extremamente
agradável, rodeado por árvores, lojinhas, barzinhos, restaurantes e salas de
teatro. O lugar é super Cool e reúne jovens cheios de estilo, que dão graça ao
lugar. Vale a visita noturna!
Em
frente ao Passeo de la Plaza, do outro lado da rua, no número 1669 da Av. Corrientes,
fica o El Gato Negro. É um café tradicional, com mais de 80 anos, que antigamente
funcionava como armazém e distribuição de bebidas. Fundado por um espanhol,
que comercializava especiarias vindas da Ásia, o café mantém a sua estrutura rústica, que dá charme ao lugar. A
vitrine possui caixinhas com temperos, ervas e sabores. Lá dentro, as
especiarias ficam em enormes potes de vidro, que disputam espaço com torres de
grãos de café de diversos lugares, além de um estande enorme de doces
artesanais. Por sorte, pegamos o dia em que havia uma promoção de 2 x 1 em
bebidas alcoólicas e pudemos bebericar à vontade. Provamos uma cerveja artesanal,
que não conhecíamos, chamada Iguana. Muito boa! Um outro achado foi o
restaurante Aires Criollos na Av. Santa Fé, entre as ruas Callao e Rodrigues
Peña. Fomos lá, no primeiro dia, por indicação do proprietário do apartamento,
mas desistimos de entrar, porque estava sem ar condicionado. Então, no segundo
dia retornamos, para ver se o problema já havia sido sanado e felizmente, isso
ocorreu. O serviço foi bom, a comida, espetacular (una buena parrillada, con
ensalada y papas), bebemos cerveja e com o serviço, que não é incluso, mas
demos 10%, deu Ar$440 (R$200 – R$40 reais por pessoa). Para um restaurante de
primeira linha, está bom, não está?
Bueno, por enquanto es esto.
Cada dia uma surpresa nessa cidade que é, apesar de tudo, querida.
Cada dia uma surpresa nessa cidade que é, apesar de tudo, querida.















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