quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Relatos portenhos



Por um mero detalhe técnico, não consegui publicar esse último post em Buenos Aires. Terminei as escrituras na hora de sair para o aeroporto, mas não me importei em deixar para compartilhar no Ezeiza, pois estava certa de que conseguiria fazê-lo antes de embarcar de volta para a Terrinha. No entanto, para a minha surpresa, o aeroporto internacional de Buenos Aires - Ezeiza - não possui a tecnologia Wi-Fi nas suas dependências. Me certifiquei de que nem pagando pelo acesso era possível a conexão, pois a empresa que vendia o cartão com uma senha, a Telecom, estava fechada. Sem mais o que fazer, salvei o texto e o guardei. Depois de ouvir algumas vezes "e qual é o problema de postar depois?" e superando as minhas manias metódicas, resolvi fazer uma publicação pós chegada. Assim, cá estamos, fingindo que a postagem foi ao ar no dia 13, no começo da tarde. (...)

Normalmente, demoro um ou dois dias para me sentir em casa nos lugares para onde viajo. Quando isso acontece, a vontade de voltar pro meu cantinho diminui, conforme o tempo passa. Dessa vez, não foi diferente. Me despeço com o coração na mão desta cidade sempre encantadora. 



Diferentemente dos turistas de primeira viagem, pude me dar ao luxo de aproveitar a última noite num lugar diferente dos tradicionais. Ao invés de escolher um daqueles “só tango, vinho e carne”, optamos por um delicioso retiro ao som dos Beatles, naquele espaço agradável descoberto há poucos dias, já registrado no último post. Em Paseo de la Plaza, ficamos no bar/café The Cavern, espaço dedicado aos músicos que ultrapassaram a sua época. Com um prazeroso encontro de família, com parentes que moram aqui, brindamos o penúltimo dia en Mi Buenos Aires querida.  


Por falar em encontro, no domingo, lá pro final da tarde, acompanhei meu pai na visita a uma amiga de sua família de muitos anos. Inicialmente, fui seguindo o protocolo, que diz ser gentil acompanhar os pais na visita de amigos distantes, para exibir os filhos. No entanto, em pouco tempo de contato, parecia que eu era a convidada. A Ari dá um banho de garbosidade, quando o assunto é receber pessoas. Junto com sua gentileza e elegância, o seu apartamento, lindamente decorado e aconchegante, foi o espaço de uma deliciosa conversa, que foi de política à música, de viagem às histórias familiares. Duas garrafas de vinho e petiscos peruanos incríveis deram um toque de requinte ao encontro e me fizeram perceber o quão maravilhoso são esses momentos. Depois, segui com meu pai pra casa, de mãos dadas, rindo e falando alto, caçando pelas bancas o último dos três jornais que faltava, com a alma e o teor alcoólico elevados, típico dos “bons vivent”.
Nesse mesmo dia, durante a manhã me surpreendi mais uma vez com San Telmo. Se não fosse a intenção do pessoal de ir até lá, para a tradicional feira de antiguidades, acho que provavelmente eu não teria ido. Contrariando às minhas expectativas de que seria igual às outras quinhentas vezes que estive lá, aquele lugar me encantou novamente. A começar pelo bairro, de graciosidade máxima, no estilo de Montmartre, em Paris. Aquelas construções antigas coloridas, com a tinta já envelhecida, apoiadas sobre ruas de pedra, ao som do choro de sanfonas me envolveram. Barraqueiros de antiguidade dividiam espaço com os de artesanato, com peças diferentes e descoladas, e os que se fantasiavam para ganhar um trocadinho (lugar de turistada, não podia ser diferente).


Ainda que tarde, mas não esquecidos, não poderia deixar de falar dos museus. Dessa vez, não dei muita sorte e muitas das minhas tentativas foram frustradas. Num dia, tentei assistir à exposição de Goya no Museo de Arte Español Enrique Larreta, mas demos de cara na porta, porque era dia do funcionário público, então estava cerrado. No sábado, desloquei-me para os confins de Puerto Madero e depois de andar cerca de 10 km (!!!), não pude desfrutar da história do humor na arte. Peguei um ônibus em Barrio Norte, desci em Puerto Madero.  Atravessei a ponte, andei, andei, andei, andei mais um pouco naquela cidade fantasma de espigões, construções e meia dúzia de gato pingado de terno na rua. Quando finalmente encontrei o Museo del Humor, ele estava de portas fechadas, pois preparava um espetáculo para a Noite dos Museus, que aconteceria no mesmo dia. 




No caminho de volta pro ponto de ônibus, andei um pouco menos, porque, quando me achei, vi que tinha pegado um caminho mais longo na ida, mas mesmo assim gastei as canelas. Ao invés de descer perto de casa, decidi seguir pela Av. Santa Fé em busca de um restaurante que me faria ser engolida pela nostalgia da última viagem, o La Niña de Oro. Eu sabia que ficava na Santa Fé, esquina com alguma rua, que eu não conseguia lembrar o nome por nada. Quando eu achei que lembrava, desci, andei pra cima e pra baixo, mas fui vencida pelo cansaço e pela fome, tendo que parar num restaurante para almoçar. Já tinha comido muita parrilla; não podia sair da Argentina sem uma milanesa. Foi essa, então, a minha pedida. Sentada sozinha na mesa, olhando as pessoas que passavam na rua, azul de fome, aguardava o meu prato, pensando se o restaurante procurado não teria fechado e incrédula que, depois de tanto caminhar, eu perderia o dia. Depois que a comida chegou e eu matei quem me matava, fui para um locutório do outro lado da rua, que tinha internet, para procurar o endereço do bendito restaurante. Descobri, então, que era MUITO longe de onde eu estava. Ficaria para outro dia (agora percebo que ficará para outra viagem). Aproveitei que estava em Palermo e procurei na internet o endereço de um cinema que tinha ali por perto e o horário do filme que eu queria assistir. Finalmente, alguma coisa deu certo e o meu dia, mais que salvo, foi incrível. Faltando 40 minutos pra sessão, deu tempo de ir com calma para o cinema. O filme escolhido foi “Esperando la Carroza” (À Espera do Rabecão). É um clássico de comédia argentino de 1985, que teve uma reestreia remasterizada e digital, no final de outubro. Deve ter no Brasil, mas eu não sei o nome em português, em cima está a tradução literal. A película é fantástica!!! Engraçadíssima! Dá vontade de ver de novo, quando acaba. A figura central é uma senhora de idade, completamente maluca. A família, bem simples, vive um drama tragicômico, quando ninguém quer ficar com a velha, porque ela dá muito trabalho com as suas doidices. Tentei escrever mais alguma coisa da história, mas tive que apagar, porque qualquer detalhe tira um pouco da graça. Mas o filme é maravilhoso! Recomendo!


Voltando ao assunto, desisti de ir à Noite dos Museus, pois fiquei muito cansada de andar e não estava disposta a enfrentar horas de fila para entrar de graça em algum centro cultural da cidade. Ainda mais que estava um frio tenebroso. No último post, comentei do calor insuportável que fazia; pois é, o tempo mudou bruscamente com uma frente fria que chegou na sexta. Tempestades e ventos fizeram a temperatura cair mais de 20ºC (as alérgicas aqui de casa sofreram! Infelizmente, fui uma delas!). A cidade ficou alagada e, logicamente, mais apagões. Já estou ficando íntima deles! No domingo o tempo já estava mais agradável e dava pra andar sem casaco, só com uma blusa de manga comprida. Bem, finalizando o tema, que toda hora se perde, depois do Museo Beatle minha segunda e última ida foi ao Museo del Holocausto, aqui perto de casa. Como já era de se imaginar, o clima foi muito baixo astral. Alias, muito mais que eu esperava. A tensão começava do lado de fora. O prédio do museu destoava dos outros da rua; todo de tijolos, funcionava no lugar de uma antiga empresa de eletricidade. De portas trancadas, era necessário tocar a campainha, para que um sujeito não muito amigável abrisse a porta para entrar. Por sorte, peguei carona de uma visita guiada de escola. Fiquei no meio da criançada sem piscar, ouvindo toda a explicação daquelas fotos, objetos e aprendendo parte da história, enquanto os pivetes me olhavam com cara de “olha a gringa!”.  Cheguei a ir para uma sala com as turmas, assistir ao vídeo de um judeu, que havia dado depoimento na Noite dos Museus sobre a sua história. Muito forte! No final da visita, passamos por um Memorial, com nomes de vítimas do Holocausto e que tinham parentes na Argentina. Na Noite dos Museus, 7.000 pessoas passaram pelo local e todas que reconheceram nomes de familiares, acenderam velas embaixo das plaquinhas. Então, quando eu passei por ali, vi a enorme quantidade de cera grudada de muitas e muitas velas queimadas. Saí de lá com um mal estar imenso...








Reencontrando a família, almoçamos juntos no restaurante eleito o melhor da viagem, o Aires Criollos. Despedimos-nos com a melhor das carnes argentinas, saborosas e de maciez impecável, sendo super bem atendidos por um garçom muito simpático, que respondia com prontidão a todos os nossos pedidos com um “muy bien, pero como no...”; dando adeus ao refrigerante Passo de los Toros, à cerveja Quilmes, ao Fernet e aos bons vinhos Luigi Bosca, Rutini, Trapiche, dentre outros...
Agora, com o coração apertado, vejo o primeiro sinal de vida no grãozinho de saudade instalado em meu peito. É tão bom só ter obrigações com diversão, sem preocupações que sejam maiores que “estou guardando as notinhas?”, “onde vamos jantar?” e “tem que comprar mais água!”... Que venha a próxima viagem! Let’s go back to ROTINA! Com um sorriso no rosto, pronta para as novidades que pintarão por aí.

Hasta la vista!

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