sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Muitas novidades e pouco tempo para escrever

Os últimos dias de Buenos Aires, foram os melhores e os piores ao mesmo tempo. Foram os dias que eu mais me aproximei das pessoas, demos mil e quinhentas gargalhadas, saímos juntos durante o dia, trocamos idéias no bar do hostel de noite e fizemos as melhores noitadas de madrugada. Além de ter conhecido gente nova, fiquei muito próxima de algumas pessoas em especial: a Manuela, do Rio Grande do Norte, uma fofa, que parece que é minha amiga à 10 anos, a Larissa, a holandesa que derrama simpatia e os americanos Kevin e Mike, os maiores figuras que eu já conheci. Eu tive que admitir para a Larissa, que quando eu fiquei sabendo que ela era holandesa, a primeira coisa que eu pensei foi "Grrr.. Eliminou o Brasil na Copa do Mundo", óbvio que a má impressao durou segundos. Quando ela me disse a emoçao que foi para os holandeses ter ganhado do Brasil, pelo fato das pessoas idolatrarem o nosso futebol, eu achei aquilo tao bonitinho, que nem liguei mais de ter sido eliminado. Ela disse que as pessoas choravam compulsivamente. HAHAHA!! Dá pra imaginar? Fofos! A parte ruim começou junto com as despedidas. Primeiro, Kevin e Mike foram embora, que foi bem triste. Depois, foi a nossa vez. Nossa, nunca pensei que fosse ficar tao triste de sair de Buenos Aires. Eu já tinha me despedido da Manu, mas na hora de ir embora mesmo, só estava no hostel a Larissa. Gente, largar o nosso quartinho, que foi ambiente de tanta bagunça, gargalhada, palhaçada, dancinhas com o dedinho pro alto, gringos desengonçados, acordar os outros gritando, cantando, zoando, vocês nao sabem como foi doloroso. Ver aquele quarto vazio, as mochilas do lado de fora, ter que deixar aquele lugar, aquelas pessoas, foi péssimo. E o pior, é a sensaçao de que o aconteceu foi único, que eu nao posso mais encontrar com aquelas pessoas, para lembrar e rir. Cada um vive em um canto do planeta, por mais que eu encontre alguém no futuro, nunca vai ser todo mundo junto. Até chorei quando me despedi da Larissa, fiquei muito triste de deixar aquele lugar. A única coisa que passava pela minha cabeça era a música do Milton Nascimento "Encontros e Despedidas"


"(...)Tem gente que chega pra ficar
 Tem gente que vai pra nunca mais

 Tem gente que vem e quer ficar
 Tem gente que vai e quer ficar
 Tem gente que veio só olhar
 Tem gente a sorrir e a chorar
 E assim, chegar e partir(...)"


Bem, nesses últimos dias, chegaram 3 amigos do Dudu: Nícolas, Lucas e Pedro, que alegraram ainda mais os nossos dias, apesar de terem tornado mais complicado as saídas (para sair, sao 5 banhos; andando na rua, caso um pare, todos tem que parar; e assim vai...). Gargalhamos tanto, que eu achava que ia fazer xixi nas calças todos os dias. Infelizmente, aconteceu uma coisa chata no primeiro dia que o Nícolas chegou. Dormimos de janela aberta, e quando acordamos, a mala dele havia sido roubada. Acreditamos que, pelo fato da janela dar para a rua, ser relativamente baixa e a mala dele estar fechadinha e próxima à ela, foi muito fácil alguém entrar e puxá-la. Imaginem a merda! Mas ele era um cara com o astral tao bom, tao calmo e tranquilo, que a maior tristeza dele foi ter perdido um livro autografado que tinha dentro da mala e o carregador da câmera, que o impedia de tirar mais fotos, do que as roupas em si. Dá pra acreditar? O meu espírito precisa evoluir muito para chegar nesse nível! Apesar de todos os incomodos, essa história gerou uma outra, que ficou marcada como uma das maiores pérolas da viagem. Quando ele foi na delegacia prestar queixa do roubo, ficou esperando, sentado em um banco, conversando com uma senhora que estava ao seu lado. Ela, como uma boa velhinha curiosa, quis saber o que aconteceu, para um jovem estrangeiro estar na delegacia em plena segunda-feira de sol. O problema foi ele ter errado uma letrinha em uma palavra, que gerou um enorme caos. Em espanhol, a palavra "furto" é "hurto". No entando, ele quis deixar a palavra ainda mais cucaracha (assim como Titicaca, Chacarita, buey...), entao ele acabou falando "huerto". Agora imaginem a cena, de um cidadao, falando calmamente: "Bien, yo vim registrar un huerto", que recebeu uma resposta aos gritos, com os olhos esbugalhados: "QUÉÉÉ? UN MUEEERTO?". HAHAHAHAHAHAHAHA!!! Depois disso, a viagem inteira, toda hora que alguém lembrava, falava com uma voz bem aguda "un mueeeerto?" e todos caiam na gargalhada!
Quando fomos para a rodoviária pegar um ônibus para Rosário, aconteceu mais uma. Estou eu, comprando um pancho (cachorro quente), quando o cidadao da lojinha vira pra mim, hablando español, e manda "¿BALA DE TROCO?" e eu respondi "Que cosa triste!!!"AHAHAHAHA!! Sacanagem! Mas meus olhos encheram d'água de tanta vontade de rir, e ter que me segurar. Gente, fiquei impressionada com a estrada e o ônibus argentino. Pegamos a empresa mais barata para Rosário, pagamos uma passagem de 90 pesos, menos de 40 reais, e nao era nada mais nada menos que um ônibus de dois andares, super moderno, com televisoes de plasma, ar condicionado muito forte, banco novo, cheiroso. A estrada? Quilômetros sem nenhum buraco. Parecia que o ônibus deslizava em uma pista de patins. Nessas horas eu prefiro nem pensar em Brasil, pra nao ficar com raiva...
Em Rosário, chegamos na madruga, pegamos um taxi pra ir pro albergue, mas o mesmo estava lotado. Entao, tivemos que andar pelas ruas, sem viva alma, com mochila nas costas, procurando lugar para ficar. O primeiro que encontramos, caímos; um tal de Hostel Freedom. Muito cabreiro, sinistro e povoado majoritariamente por homens. Decoraçao alternativa puxada para "maconha legalize". Quadros de Bob Marley, Charler Chaplin, Beatles, Che Guevara, Che Guevara, Che Guevara, Gandhi, India roots... O banheiro, eu apelidei de "banheiro do estupro". A começar pelo fato de serem dois banheiros conjugados, com uma parede até a metade dividindo-os. O que aterroriza os que o utilizam, primeiro pela inibiçao de nao poder fazer suas necessidades com tranquilidade, temendo que o vizinho escute o barulho do xixi e outras cositas mas, segundo, por passar pela minha cabeça (depois apelidada de O Fantástico Mundo da Cissa), que alguém possa escalar e mudar de lado. Enfim, nao gostei do albergue, achei o clima pesado e a energia negativa. Mesmo assim, ficamos lá por três noites. Eu gostaria de ter ficado mais na cidade, mas os meninos precisavam continuar o caminho, e eu nao queria ficar naquele albergue medonho sozinha. Acabou que em uma noite eu fui jogar pôker com uns caras de lá, e recebi o nome de El Diablo. HAHAHA! Tive que ouvir a noite inteira: "Tu es el diablo. El diablo. Tu es el Diablo."
Mas enfim, quanto a cidade, Rosário é a muito linda e muito aconchegante. Pede umas 5 noites no mínimo. Super bem cuidada, gente bonita (por mais que procurássemos, era muito difícil encontrar alguém feio), muitas árvores, lojinhas, restaurantes e parques deliciosos. Foi lá que saiu outra grande pérola da viagem. O Lucas trocou uma letra de uma palavra e fez a gente gargalhar durante horas. Estávamos em uma lanchonete e ele queria avisar que o sanduíche dele era com presunto, isto é "jamón", que se pronuncia com o "r" bem puxado, como "RRamón". No entanto, o nosso amigo, pede um Ramón, com o "r" enrolado, que na verdade é o nome de uma pessoa, um cara. Imaginem a cena de um moreno, de voz grossa, chegando e pedindo "Yo quiero una mayonesa com Ramón". Na mesma hora, os caras que trabalhavam na loja se entreolharam, e todo mundo imaginou chegando um negao todo sujo de mayonese. Aí nao teve jeito, todo mundo chorou de tanto rir! HAHAHAHA!!
Fomos ao Monumento à la Bandera, que é uma homenagem ao criador da bandeira argentina, Manuel Belgrano, e contém inclusive uma cripta, para ele, mas que nao tem o seu corpo (coisa de argentino). Construíram um lugar para enterrá-lo, mas era desejo dele ser enterrado na Igreja de Santo Domingo, em Buenos Aires. Lá, uma coisa chamou a minha atençao: em volta do monumento, tinham duas fileiras de bandeiras da Argentina, no entanto, elas nao possuíam o sol no centro. Entao, eu perguntei para uma mulher que trabalhava lá, e ela me explicou que, por uma questao protocolar, a bandeira com o sol, oficial, deve ser asteada e baixada todos os dias, nao se pode passar a noite erguida. Entao, quando as bandeiras cumprem funçoes decorativas, elas nao podem ter o sol. Interessante, né? Bem, além disso, fomos à casa em que Che Guevara nasceu, ao Parque Espanhol, ficar deitado na grama, comendo algodao doce, ao Parque Independência, passeamos ao redor do rio Paraná, e por fim, ao Museo de la Memoria, que é sobre a ditadura militar argentina. Ficamos cerca de 3 horas embasbacados com o lugar, que funcionava um centro de detençao e o centro de inteligência dos militares, das seis províncias ao norte da Argentina, que costeam o rio Paraná. Logo no começo, tivemos contato com a Cláudia, uma mulher que trabalha no museu, e nos deu a maior atençao. Nos explicou muitas coisas e todas as vezes que esbarrava conosco no museu, parava para conversar e contar tudo nos mínimos detalhes. A cada passo que dávamos, ficavamos impressionados com a capacidade do povo argentino de peitar os militares, e fazer de tudo para tornar público todas as imundices e as barbaridades que aconteceram aqui. Três salas em especial chamaram a minha atençao: uma que tinham alguns livros, em umas mesas elevadas, com imagens, poemas e histórias, além da decoraçao, com a carteirinha de biblioteca, que caia do teto, de muitos desaparecidos. Tinha cada história mais braba do que a outra. Uma delas era sobre um antigo carceireiro, que resolveu colocar a boca no trambone em relaçao à um diretor de presídio e desapareceu em seguida. Agora pasmem quando isso aconteceu: em 2006! A cinco anos atrás! Sinistro!!! Uma outra sala, tinha uma linha do tempo desde o fim da ditadura, com a criaçao das leis do Ponto Final, que estabelecia que as famílias podiam requerer documentos, e denunciar crimes até uma certa data, depois nao teriam mais direito, e da Obediência Devida, que eximia da culpa, os que eram mandados a prender, torturar, e outras coisas, que marcou um começo ainda conservador. Depois, vindo com o ex presidente Menem, com a suspençao dessas leis, quando se tratassem de crimes que violassem os direitos humanos. Ainda mais pra frente, quando o ex presidente Néstor Kirchner retira os quadros dos dois piores ditadores, Videla e Bignone, do Colégio dos Militares, objetivando fazer da política dos Direitos Humanos, uma política de Estado. Mais tarde, com a prisao de uns generais que foram poderosíssimos. Foda!! Que inveja que dá da Argentina! A terceira sala, que eu achei brilhante, é na verdade um espaço aberto, que faz uma homenagem aos filhos de prisioneiros que foram retirados dos pais, no caso de terem nascido na prisao, ou de assassinato dos pais, ou os dois, e foram entregues a famílias ricas, que possuíam pessoas que nao podiam ter filhos. Estao registrados mais de 500 casos, mas nao se sabe ao certo o número exato. Um dos escândalos da dona do jornal El Clarín envolve isso. Tornou-se obrigatório fazer o exame de DNA, quando a adoçao ocorreu no período em questao, e é suspeita, no entanto, os seus "filhos" se recusam a fazê-lo. Enfim, esta sala, contem duas paredes opostas formadas por peças de quebra-cabeças, cada uma desdinada a uma criança (agora adulta). De um lado, estao as que foram encontradas, e devolvidas às suas famílias, e do outro, as que ainda nao se sabe o paradeiro. A ideia, é passar as peças do quebra-cabeça dessa parede, para a outra. Foi nesse momento, que a Cláudia nos contou que uma novela aqui da Argentina, uma vez falava sobre um menino, que descobriu que foi adotado nessa época, e que os seus pais verdadeiros foram prisioneiros políticos. Depois, fica sabendo que o seu melhor amigo é filho de um médico, que trabalhava em presídio, vendo até aonde podia-se torturar, sem matar, fazendo partos, e naturalmente sabia a quem eram destinadas as crianças. Olha que enredo! Aí a gente começa a lembrar das nossas novelas que só tratam dos ricos do leblon, dos empresários que vao de jatinho para todos os lugares, e por aí vai...
Nos dividimos em Rosário, e a viagem tomou outros rumos. Os meninos foram para Córdoba, e eu vim para Santa Fé. Assim que cheguei na cidade comecei a pagar mico... Primeiro, o taxista me deixou em frente a uma casa que nao era o hostel que eu procurava. Entao, eu dei uma de maluca, e fiquei pedindo cama em uma casa normal, e nego olhando pra minha cara, sem entender nada. Depois, quando eu achei o hostel, fiquei gritando com o interfone, quando fui descobrir que a mulher estava atrás de mim. HAHAHAHAHA!!!! Dei uma sorte danada, pois nao haviam lugares mais no albergue, mas a moça acabou conseguindo um lugarzinho pra mim. Adorei o albergue, que parece mais uma casa de família. Um clima bem mais agradável que o último, tudo limpinho, com meninas e tudo mais. Como é a primeira parte da viagem sem brasileiros, eu nao posso relaxar no português. Toda hora tenho que pensar para falar, mas tudo bem. Assim, eu me acostumo a viver a língua do lugar que eu estou. Logo no começo conheci um francês, de Avignon, e pude me deleitar falando a língua estrangeira que mais gosto. Também conheci um japonês, gente boa, que ficava meio excluído, porque ninguém sabia falar inglês. E quanto aos latinos, conheci um malandro de Buenos Aires, que tem cara de indiano, e três meninas de Córdoba, que me deram várias dicas para a próxima parte da viagem, e me ajudaram a fugir de furadas. Nada se compara a pedir informaçao a quem é da terra, né? Vocês acreditam, que no livro de viagem O Viajante, eles dizem que a boate "Córdoba Open Plaza" é a mais famosa da cidade, olhe a intensidade, MAIS FAMOSA. As meninas falaram que nunca ouviram falar.HAHAHA! Elas sao arquitetas, loucas para conhecer Brasília e idolatram Oscar Niemeyer. Legal, né? Agora, morram de rir: tinham que ver como que falavam das novelas brasileiras.. "Me gusta mucho Lazos de Familia", "me encanta Mujeres Apaixonadas", "La Escrava Isaura", "El Clone", até a minisérie "Transamazônica", aquela merda, elas falam com entusiasmo! HAHAHA! Sabem o nome dos personagens e tudo. Chorei de rir.
Bem, tirando as pessoas que eu conheci, achei Santa Fé um lixo. A cidade é feia, mal cuidada, quente, a 6ª mais perigosa da América Latina, e nao tem nada pra fazer. Eu estava esperando o sol baixar e as coisas reabrirem (já que aqui tem a cultura da siesta), para ir até o centro histórico (fica daqui a umas 24 quadras, mas acho que dá pra ir andando). Eu ficaria aqui 3 noites, mas ficarei apenas duas. Amanha vou passar o dia aqui, e depois zarpar para Córdoba.

Hasta luego!

domingo, 23 de janeiro de 2011

Nao podia estar melhor

¡Hola, cariños!
Como o próprio título desse post já diz, isso aqui nao podia estar melhor.
Antes de comecar a contar das minhas facanhas dos ultimos dias, falarei brevemente sobre o albergue em que estou hospedada. (Agora, além de "til", estamos sem "cedilha" e sem "crase". Vamos colocar essa mente pra trabalhar e decifrar o que eu escrevo...) Quando eu pesquisei lugar para ficar aqui, optei por Palermo, por ser um bom bairro em termos de beleza, seguranca, além de conter um alto número de turistas e jovens. Entre os que eu encontrei no site http://www.hostelworld.com/, esse foi o de melhor qualificacao (86%), o que me assustava, visto que é mais seguro escolher os acima de 90%. No entanto, como eu nao tinha opcao, foi esse mesmo. Baseando na experiência do meu amigo, que andou entrando em alguns albergues para arranjar emprego, o nosso é realmente o melhor. Ele nao é nada mais, nada menos que um casarao antigo, de três andares, localizado na rua Güemes, 4802. O espaco é muito bom, quartos grandes, com pé direito alto, cozinha, terraco, sala de TV, de internet e bar. Além disso, o astral das pessoas que trabalham aqui é contagiante. Só fica excluído quem quer. É muito normal as pessoas puxarem assunto, e interagirem. Algo que me chamou a atencao também foi a limpeza dos banheiros. O feminino, sempre tem papel, é limpo várias vezes por dia(percebo que a lixeira é trocada), acho que foi por isso que eu me adaptei tao bem a usar banheiro coletivo.
Entao, agora vamos ao que interessa. Nada como uma noitada para todo mundo virar amigo de infância. Já fiz duas noitadas aqui, e ambas foram sensacionais. Em um dia, fomos para uma festa em um outro albergue, e depois para uma boate, e no outro, fomos para um bar na Praca Cerrano, que bomba aqui em Palermo, e depois pra uma outra boate. Lembrando que antes de ir pra qualquer lugar a galera vai se reunindo aos poucos no terraco, tomando uma cerveja, trocando uma ideia... A propósito, as coisas aqui só funcionam a partir de uma hora da manha, e só ficam boas, depois das duas. Quem gosta de dormir com as galinhas, pode desistir de fazer noitada. Andei refletindo que é possível viajar pelo mundo sem saber falar inglês, visto que a linguagem dos sinais é internacional. No entanto, essa limitacao impede de conhecer muita gente interessante, o que eu acho ser 50% da viagem. Aqui, passo grande parte do meu dia falando inglês, o que ajuda a soltar a língua e a perder o medo de falar errado. Claro que o velho ditado de "alcool improves my english" ajuda, mas o ideal mesmo é falar devagar, de modo que se faca entender. O ruim é que é um pouco cansativo. Eu tenho que dormir falando inglês e acordar fazendo o mesmo. As vezes acabo falando com os brasileiros em inglês, por distracao. É legal que pelo albergue e por esses bares, eu estou conhecendo gente de vários países, e aprendendo coisas que livros nenhum podem me proporcionar. E mesmo que eles o facam, talvez eu jamais me interessaria pelo assunto. O mais interessante disso tudo é quebrar preconceitos, ideias fixas e afirmacoes falsas que a gente costuma escutar, que nao tem nenhum fundamento. É legal saber o que as pessoas pensam do Brasil, como o Brasil é visto lá fora por pessoas que vivem, e nao por jornais, ou livros. Foi interessante saber, por exemplo, que o meu país nao é totalmente passivo, como eu imaginava, e que tem alguma imponência de "peitar" os grandalhoes. Eu nao sabia que é super complicado para os americanos irem pro Brasil, assim como é o contrário. Embora, eu fiquei chateada em saber que a América do Sul toda é conhecida pela grande e fácil oferta de cocaína. As pessoas vem aqui para cheirar mesmo, e nao estao nem aí (isso terá um tópico a parte). Fora isso, é muito gostoso conhecer gente que é legal de graca, que esta na mesma que voce, que quer desbravar o mundo, que tem uma visao completamente diferente das coisas. Uma coisa que aconteceu ontem e eu achei super engracado, foi a minha amiga Larissa, holandesa, ter perguntado por que havia fila em frente a boate. Eu ri, porque a gente está tao acostumado com fila, e ela nao entende. Pessoas querendo aprender portugues também sao hilárias. Tinha um sueco hospedado, que vai pro carnaval do Rio, e queria saber como se diz: "Eu quero comprar isso", mas ele nao conseguia passar de "Ero comprare esso". HAHAHAHA!!! Finalizando a parte das noitadas, a gente tem saido pra lugar relativamente perto de casa (no maximo umas 15 quadras), e a gente costuma voltar andando. Das duas vezes, juntei-me com a Manu, potiguar, e as duas já "pra lá de Bagdá", soltando o gogó no caminho de volta, cantando Paulinho da Viola, Chico Buarque, Gonzaguinha, Martinho da Vila...
Quanto aos passeios culturais, nao estou cumprindo o meu roteiro ao pé da letra, mas nao importa, estou me divertindo muito, e sei que nao é a minha última vez nessa cidade. Quinta-feira eu fui a praca de Maio para assistir a manifestacao que ocorre, semanalmente, as 3 horas, das maes e avós dos militantes políticos desaparecidos no período da Ditadura. Olha, é muito emocionante. É de chorar, ver aquelas velhinhas, carregando bandeiras, fotos e cartazes, batendo palma em um só ritmo, cantando: "Alerta! Alerta! Alerta quien está vivo! Todos los ideales de los desaparecidos!" No final, quando a líder pegou o microfone, ela falou uma coisa que me marcou: "A única luta perdida, é aquela que se abandona". É brilhante, e ao mesmo tempo revoltante, quando se compara ao Brasil, como que o povo argentino é politizado e culto. O que tem de pixacao pela cidade, apoiando ou denegrindo a presidente, passeatas e movimentos, vocês nao acreditam. Após a líder da associacao das maes e avós ter acabado de falar, um rapaz pegou o microfone e comecou a esculhambar o jornal El Clarín. Está o maior "quebra pau" aqui, os trabalhadores estao revoltados com o Clarín, devido aos problemas com a dona do jornal, que tem filhos adotados na época da ditadura, o que gera incertezas, quanto a legalidade da adocao, o fato da única imprensa (nao sei se me expressei corretamente, quero falar da empresa que imprime o papel jornal) do país ser controlada pelo jornal, gerando um monopólio, o mesmo nao ter dado muita importancia a manifestacao contra o fato de um trabalhador em especial ter sido despedido, e por aí vai. Todos encorajavam a populacao a boicotar o jornal, parando de comprar. Também fui a Catedral Metropolitana, na mesma praca, para ver o mausoléu de San Martin, o general que proclamou a independência do país em , maio de 1816 (por isso, revolucao de maio, Praca de Maio, e por aí vai...), fui ao Museo Historico Nacional del Cabildo, conhecer um pouco mais da história do Cabildo e de sua funcao, da revolucao de maio, e da Argentina em Geral. Encontrei, por acaso, uma exposicao de fotografia maneiríssima (Dé, lembrei muito de voce), com cada foto bizarra de linda, e outras que perdem pra algumas que eu já tirei, modéstia a parte. Fui a um parque legal, deitar na grama, falar besteira e rir. Fiquei decepcionada ao ir ao Teatro Colón, que pela primeira vez eu vejo após a reforma, quando soube que os espetáculos comecam em marco, e as visitas em fevereiro. Nesse dia, inclusive, eu e o Dudu andamos muita coisa, muito mesmo, e quando decidimos comer, ele lembrou  que tinha passado por um Kebab (prato turco, que eu conheci em Paris, e choro de saudades), e que lembrava mais ou menos onde era. Por uma questao de honra, andamos durante muito tempo em busca, do maldito Kebab, que na verdade era Shwarma, quase a mesma coisa, e quando encontramos, Murphey estava do nosso lado e roubou dinheiro de nossa carteira. Sim, quando, esfomeados, finalmente encontramos, percebemos que nao tinhamos dinheiro suficiente para pagar. Puta merda! Entao comemos em um cachorro quente que ganhou o primeiro lugar, nos melhores cachorros quentes dos últimos tempos. Na lojinha, havia vários molhos gostosos para colocar. Para quem se interessar, tanto o shwarma, quanto o cachorro quente, ficam na rua Lavalle, entre a rua Florida e a Av. 9 de Julio. Depois de contar o dinheiro para pegar o metro, percebemos que aqui nao se pode errar. A estrutura do metro de Buenos Aires é completamente diferente da existente em qualquer outro lugar do mundo. Quando se passa de uma estacao, ou quando se erra a linha, nao se pode cruzar as vias por uma passarela, ou algo do tipo. É preciso sair, pagar uma nova passagem, ou desenrrolar para entrar sem pagar. Mas chegamos a conclusao de que aqui, o sistema é esse, porque os argentinos sao infalíveis e nunca erram. Outra coisa, em termos de modernidade, a Argentina é o Brasil de dez anos atrás. É muito difícil encontrar lugares que aceitam cartao de crédito. Por isso, é necessário andar com dinheiro o tempo inteiro.
O último tópico de hoje, visto que eu já estou cansada de escrever, e acredito que vocês de ler, é algo que eu comentei lá traz e tem me chocado muito: cocaína. Ou eu sou muito careta, ou muito inocente, mas eu nunca tive tanto a nocao de como a cocaína é difundida e tem fácil acesso. Dentro do albergue vi umas cenas bizarras. Além de algumas pessoas usarem sem pudores, pude perceber os efeitos (que nao sao iguais nas mesmas), como por exemplo gente falando com a boca toda torta, como se o maxilar estivesse solto, mexendo os dedos como se eles estivessem cheios de cola, gente agressiva, ou completamente pancada, que fica na sua, completamente away do mundo. Também vi o depois. Dentro do meu quarto, acordei com um dos meus "roomys" abrindo a porta correndo, e voltando com um pedaco de papel higienico cobrindo o nariz, e o mesmo jorrando sangue. É muito sangue que sai do nariz, é impressionante como a droga é forte e corrói tudo por dentro. Eu sou obrigada a repetir as palavras do Dudu quando disse que "se eu algum dia tive curiosidade de saber como é a onda, o que nunca aconteceu, depois de ver tudo que eu vi, essa vontade nunca vai existir". Gente, as pessoas ficam decadentes, em depressao. Teve um menino, que depois de passar 48 horas acordado, sem tomar banho, com a mesma roupa, depois de ter passado esse tempo inteiro cheirando, ficou numa tristeza, que era percebível. Mais que tristeza, vergonha. Depois dessas 24 horas, conversando com ele, dava pra ver que o cara é uma boa pessoa, legal, engracado, mas que muda completamente de comportamento quando está doidao. Hoje, quando eu estava indo pro terraco, passando pelo segundo andar, o malandro que é conhecido aqui como "the guy of the drugs" ou "o cara das drogas", perguntou se eu queria. É assim. Eu nao preciso procurar, isso vem bater na minha porta. Ao mesmo tempo, é interessante conhecer gente que já conhece esse tipo de coisa, convive sem preconceito, e com a cabeca aberta. Muitos falam com uma certa normalidade dos amigos que cheiram, mas que nao se incomodam, desde que eles nao encostem ou tragam algum mal para os primeiros. Ainda assim, pra mim é assustador saber que é tao comum, tao fácil, tao perto e tao normal.
Bem, por hoje é isso. O final ficou um pouco tenso, mas nao se apoquentem. Eu estou muito feliz e aproveitando a Argentina como nunca o fiz. Ainda nao coloquei fotos, porque fico com medo de conectar o pen drive, ou o cabo da câmera, em computadores que possivelmente estao infestados de vírus. Assim que eu estiver em um computador que tenha o mínimo de seguranca, eu coloco algumas.

Beijos!

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Agora sim, eu comecei!

Antes de mais nada, devo informar que minhas notas nao terao o acento "til", visto que escrevo em um teclado espanhol e aqui eu nao o encontro. 

Bem, escrevo de mi Buenos Aires querida. Cheguei ontem e já tenho histórias a contar. 
Mesmo com um mal humor inicial, provocado por uma noite de sono de apenas 1 hora e meia, um podólogo de mao torta que torturou o meu pé e uma mochila de 20kg, que me impede de comprar qualquer regalo, o resto do meu dia foi interessante.
Fiz uma boa viagem, e assim que cheguei, a Argentina já sorriu pra mim. Depois de trocar meus reais por pesos, me dirigi para fora do aeroporto, com o objetivo de pegar um ônibus. Quando pedi informaçao para um guardador de carros de onde era o ponto, ele me mostrou e, ao mesmo tempo, me recordou que eu necessitaria de moedas para viajar. Foi entao que eu tive que voltar para o Banco de La Nación, que se encontra dentro do aeroporto, para trocar novamente o dinheiro, desta vez, notas por moedas. Só de olhar a fila que eu enfrentaria, me surge a brilhante ideia de pedir ao primeiro da fila, que eu lembrava estar no meu voo. 
"Oi! Você é brasileiro, nao é?" Expliquei-lhe a minha situaçao, a qual ele concordou em me ajudar. Logo em seguida, havia uma chica brasileira na fila, que começou a puxar assunto comigo, perguntando onde pegava o onibus, e para onde eu ia. Após eu dizer que ia para Palermo, ela disse que também iria, e nao sabia como chegar, já que o rapaz que a buscaria no aeoporto nao estava la. Ela pediu para que eu a esperasse trocar o dinheiro, para irmos juntas. Beleza, sem problemas! Depois de algum tempo, percebo que ela sai do banco olhando em outra direçao, que nao era a minha, até parar para falar com um cidadao. Era o tal do homem do transfer. Conformada de que iria sozinha, e nem um pouco chateada com a situaçao, ela me chama. Explica para o rapaz que me conheceu, etc e tal, e eu recebo nada mais nada menos que uma boa de uma carona.
O beleza, era tudo que eu queria! Ela é paraibana, e mora no Rio de Janeiro a 18 anos, em Jacarepaguá. Ele, é argentino, dono de uma espécie de "alojamento estudantil", procurem: www.casabuenosaires.com.ar (ainda nao o fiz). Ambos extremamente simpáticos. 
Ele me levou ao endereço que eu pedi, mas que infelizmente nao era o do albergue que eu procurava. Pelo contrario, eu estava ate um pouco longe. Ele se ofereceu para me levar no certo, mas eu achei um absurdo, ja que nao havia pagado pela carona, e seria pedir demais. Agradeci, me despedi, coloquei a mochila nas costas (uuui... sao 20kg!) e andei umas 8 quadras até chegar ao Hostel Giramondo. 
Assim que eu estava fazendo check in, encontrei com meu amigo Dudu, que me aguardava. Foi aquela alegria de brasileiro, quando se encontra em terras distantes. 
Assim que larguei as malas, fomos tomar uma cerveja para comemorar e almoçar. Depois, voltamos para o albergue, encontramos com a Manu, uma amiga dele, potiguar, que ele conheceu aqui. Entao fomos para a livraria El Ateneo na Santa Fé, que fica no lugar de um antigo teatro (onde Carlos Gardel fez as suas primeiras gravaçoes). Neste clima intelectual, olhamos alguns livros, até que o cansaço começou a bater. Me despedi dos meus amigos, e parti em direçao a casa para descansar. 
Cade que eu sabia como fazer? Eu estava cansada, nao sabia qual ônibus pegar, onde era o metro, nao queria pensar, só queria dormir. Quando eu vejo o metro, dou uma de suicida radiante. Saio correndo para atravessar a rua, até que o sinal abre, quando eu estou no meio dela. Puta mierda!!! Pescoço encolhido, bracinhos para a cima sacudindo e falando: "Fudeuu!!!". Felizmente, os carros pararam para eu passar, e eu pude ouvir o ruido de 20 xingamentos a distância: "hija de puta", "muy loca", fora os que eu nao entendi...
No metro, lembrei muito de Fabrício e Aline, quando eu vi um anúncio sobre a "Arte de vivir". Até aqui a galera gosta de uma meditaçao e de um estilo de vida que valoriza o "slow motion". 
Quanto ao final deste dia, após dormir um bocado, acordei com um polonês no meu quarto acendendo a luz, desligando o ventilador, mexendo em sacola plástica, usando uma cueca escrita na bunda "I love Ibiza". Que imagem para se acordar. Perdi o sono, logo Dudu chegou, conversamos com o polaco, que disse morar na lua, quando perguntamos de onde ele veio, e o resto do dia nao teve nada de interessante.

Hoje, dia 19, acordamos com o céu chorando, ou Sao Pedro lavando a casa, ou Iansa mandando o seu recado, depende do ponto de vista. Mesmo com chuva, demos um rolé pela Plaza de Mayo, já que o Dudu precisava ir ao Banco de La Nación trocar dinheiro. Tiramos algumas fotos, depois partimos para o Cemitério da Chacarita. No caminho, presenciamos uma cena muito engraçada no metro. Dois cachorros metidos a humanos circulando na estaçao, correram para pegar o Subte quando a porta se abriu. Rapidamente procuraram um lugar debaixo de algum banco (justamente o meu) e sentaram-se. Cachorros imundos e pulguentos, depois sairam na mesma estaçao que eu e Dudu, e voltaram a entrar em outro vagao. Nao to dizendo?!
Durante o passeio macabro do cemitério (dava até pra ouvir o ronco das almas, que paz!), andamos sem parar, até encontrarmos, o túmulo tao esperado do maior cantor de tango de todos os tempos, Carlos Gardel. Alguns instantes depois, enquanto ainda admiravamos as homenagens, surge um cidadao que começa a falar. Como sua pronuncia nao era a das melhores, e ele tinha um acelerador na mente, eu desisti de tentar entender, e ele ficou conversando com Dudu. No final, meu amigo estava com um cigarro em uma das maos, de olhos fechados, mexendo a boca. Eu nao entendi nada, e quando ele terminou, me passou o mesmo e disse para eu fazer um pedido. Eu perguntei se ele estava doidao, e ele me explicou que existe uma superstiçao de que todos os visitantes ao mausoléu do Gardel devem pegar um cigarro, fazer um pedido, acender (caso sejam fumantes, que nao é o meu caso, calma mae, nao se assuste!) e depositar aos pés da estátua do homenageado. Assim, o mesmo deverá se concretizar.
Entao retornamos a Palermo e depois de comer, conhecemos os novos hóspedes do nosso chatêau. Uma menina e três meninos, americanos, tranquilos, e sem chulé, ao contrário do polonês, que infestou o quarto em uma noite.
Agora estamos pensando se daremos alguma saidinha.
Hasta luego, queridos!

Ponto de Partida

Seguindo a sugestao do meu irmao, Fabrício, resolvi criar um blog, para que meus amigos e familiares pudessem acompanhar meus passos em uma terra distante. Espero que gostem.