sexta-feira, 4 de março de 2011

"Grand Finale"

Depois de 45 dias on the road, finalmente, BRASIL!
Foram alegres, intensos, cansativos, únicos, divertidos e inesquecíveis dias na Argentina, Chile e Peru.  Antes de viajar, li um trecho muito interessante, dito por Amyr Klink, que agora repasso:

“Um homem precisa viajar. Por sua conta, não por meio de histórias, imagens, livros ou TV. Precisa viajar por si, com seus olhos e pés, para entender o que é seu. Para um dia plantar as suas próprias árvores e dar-lhes valor. Conhecer o frio para desfrutar o calor. E o oposto. Sentir a distância e o desabrigo para estar bem sob o próprio teto. Um homem precisa viajar para lugares que não conhece, para quebrar essa arrogância que nos faz ver o mundo como o imaginamos, e não simplesmente como é ou pode ser. Que nos faz professores e doutores do que não vimos, quando deveríamos ser alunos, e simplesmente ir ver.”

E, na hora de voltar pra casa, deixo Tom Jobim falar por mim:

"Minha alma canta
Vejo o Rio de Janeiro
Estou morrendo de saudades
Rio, seu mar
Praia sem fim
Rio, você foi feito pra mim..."


Até a próxima viagem!
Hasta la vista!

terça-feira, 1 de março de 2011

Caminhando para o final da jornada

Sei que a última postagem foi longa e cansativa, mas nao podia deixar de falar de assuntos como Machu Picchu e a loucura que foi a vinda para Lima.

Bem, primeiro de tudo, devo admitir que o último post, o quilométrico, só pôde ter aquele tamanho, devido a um dia ocioso em Cuzco. Depois de me deleitar com tanto oxigênio para respirar no nível do mar,  eu nao conseguia andar, subir ou descer escada/ladeira a 4000 metros, em Cuzco. Entao, passei um dia inteiro calminha, para me preparar para o ponto auge da viagem: MACHU PICCHU.
De manha, foi uma loucura para sair de casa. A agência que tinhamos fechado, para nos levar para pegar o trem, chegou antes da hora. Bárbara foi me chamar no banheiro, para avisar que o pessoal já havia chegado, mas eu nao entendi e entrei no banho. Carácoles! Quase perdemos o ônibus. Saímos como loucos, eu com toalha na cabeça, chinelo no pé, bota na mao... Mas no final deu tudo certo! Desistimos de fazer a trilha maluca, porque gastaríamos muito tempo e nao tinhamos fôlego para aguentar a pressao. Pegamos um trem ótimo até a cidade de Águas Calientes, conhecida por suas piscinas termais (literalmente piscinas, uma decepçao) e por ser a cidade de acesso a misteriosa cidade perdida, o resquício inca, encontrado no final do século XIX, Machu Picchu. Passamos o dia na cidade, que, por possuir um porte pequeno, era fácil conhecer inteira em pouco tempo. Completamente voltada para o turismo, a cidade tem uma estrutura ótima. Sao diversos restaurantes, com todos os tipos de comida, com pessoas quase agarrando você na rua, oferecendo preços baixíssimos. Até lugares oferecendo 4 drinks por 1, nós vimos. O que nos fez escutar (sempre de Bruno): "Yo voy lembrar, hein chica!", colocando o indicador nas têmporas, levantando a sobrancelha, fazendo cara de ameaça. HAHAHAHA! De noite, eu tive que morrer em mais um dinheiro para pagar o preço inteiro da ida para Machu Picchu (126 soles +- 80 reais), porque nao aceitaram o meu BO, provando que haviam roubado a minha carteira de estudante. Fazer o que? Vou deixar de ir pra Machu Picchu por causa de 40 reais (já tinha pagado metade)? No dia seguinte, acordamos cedo e pagamos, cada um 15,50 dólares, para pegar o ônibus que leva até a entrada de Machu Picchu. Lá, chegamos antes que o nosso guia e ficamos aguardando ele chegar com uma bandeira branca, para nos unirmos. Tudo pronto, o grupo se dividiu entre os que ficariam com o guia que falaria inglês e com o que falaria espanhol. Ficamos com o segundo. Era chegada a hora.
Ao entrar na cidade, o espanto e o choque: "CACETE! EU TO AQUI!". Sabe quando você acha que só vai ver determinadas imagens em fotos, documentários, sites, etc, e do nada você se vê ali? Entao, essa é a sensaçao. Pegamos um guia ótimo, que contou tudo nos mínimos detalhes. Os incas eram geniais, cara. É impressionante a habilidade que eles tinham para construir as coisas, tudo tinha explicaçao. A disposiçao das pedras, o formato das janelas em trapésios isóceles, o motivo do tamanho das portas de cada templo, o que significavam determinadas pedras... Quando chegamos numa parte que era o local de se estudar astrologia, eu fiquei maravilhada. No alto de uma montanha, tinha uma petra com medidas perfeitas com a inclinaçao que media exatamente a latitude da cidade de Machu Picchu na Terra. Puta que pariu!! Como esses caras sabiam disso? O guia explicou tudo de solstício, equinócio, como eles marcavam cada dia do ano, os meses, as semanas... Tudo através das sombras na pedra. Ele falou também que só é possível ver o solstício de inverno em dois dias do ano, quando o sol bate exatamente em cima da pedra, nao provocando nenhuma sombra, no dia 2 e 3 de maio, dia do aniversário do meu pai. Legal, né? Essa pedra principal era considerada uma fonte de energia muito forte. As pessoas acreditam, que todos os centros astrológicos do mundo, sao lugares de muita energia. Acreditam também que é um grande polo de inteligência, porque por ali passaram físicos, matemáticos, etc. Era também uma zona forte de meditaçao. Entao, as pessoas costumavam colocar as maos em cima da pedra, sem encostar, para absorver a energia. ÓBVIO QUE EU FIZ O MESMO. Explicaram que grande parte daquelas pedras nao foram colocadas pelos incas, mas sim por povos que estavam ali antes. Um grupo que eu esqueci o nome e outro, chamado de "princas" os pré-incas. Até a maneira de colocar as pedras era diferente, assim como os prédios mais importantes, como os do governo e os templos religiosos, eram os mais bem acabados. O sistema de agricultura, de coleta da água da chuva, os banheiros (todo excremento era usado como adubo), as oferendas... Genial! Ainda no começo do passeio algo chato aconteceu, minha câmera acabou a bateria. Sempre ela me deixando na mao! Mas, algo aconteceu... Nao sei se foi a alma de um inca "zen" ou o meu espírito que evoluiu, mas eu relaxei e nao me chateei nem um pouco com a situaçao. Tinha a câmera do Raoni para tirar algumas fotos, eu conheci uns brasileiros que estavam lá com câmeras profissionais, que até deixaram na minha mao por um momento, para ter o prazer de tirar algumas fotos, sem contar que eu consegui tirar algumas boas com a minha câmera. Entao, foto eu tenho! Mais do que isso, serviu para ampliar a minha visao. Ver é melhor que fotografar. As pessoas ficam tao automáticas com a camera na mao, tirando foto de tudo, o tempo inteiro, que nao param para olhar. Simplismente ver. Guardar na memória aquilo tudo, pensar na construçao daquela cidade, ver no presente e nao no futuro, a marca digital daquilo que existe de verdade. Andamos muito por todas aquelas ruelas, até subirmos para a casa do vigia, o lugar que tem a melhor visao da cidade. Que foda!! É de ficar sem ar diante daquela maravilha. Depois de andarmos por uma trilha até a ponte inca, voltamos até esse mirante. O pessoal desceu para a entrada da cidade, enquanto eu fiquei lá paradinha olhando. Acho que eu voltaria para Machu Picchu, só para fazer a trilha inca, fechada no verao, por causa das chuvas. Mas como nao sei se isso um dia acontecerá, por ter ainda o mundo inteiro pra conhecer, eu queria registrar aquele momento. Como toda câmera que acaba a bateria ressucita por alguns segundos, eu consegui tirar umas fotos legais, na adrenalina. Depois eu sentei no chao, naquele frio com vento e chuva, de frente para a montanha de Waynapicchu, a que nao conseguimos subir, por causa do horário, tendo abaixo a cidade velha, em quéchua, MACHU PICCHU.  Imitando o meu amigo Dudu, da primeira parte da viagem, eu quis escutar uma música legal naquele momento ímpar. Peguei o meu Ipod, no meio daquele frio, com os dedos congelando, e coloquei a música blowing to the wind do Bob Dylan (http://www.youtube.com/watch?v=jgFz3tZYg-M) ... "How many roads must a man walk down / Before you call him a man? (...) The answer, my friend, is blowin' in the wind / The answer is blowin' in the wind (Quantas estradas precisará um homem andar / Antes que possam chamá-lo de um homem? (...) A resposta, meu amigo, está soprando no vento / A resposta está soprando no vento)". Depois daquele devaneio, eu desci e encontrei com o pessoal. Voltamos para Aguas Calientes encantados. Passamos o resto do dia na cidade e voltamos de noite para Cuzco. O mesmo esquema: trem e depois ônibus. A estradinha que o ônibus passou era uma merda! Dava um medo do cacete. Eu estava dormindo e acordei no susto, com o ônibus dando ré. A sensaçao era que ele estava caindo em um abismo.
Bem, depois, passamos um dia em Cuzco. Eu amei a cidade! Ela tem um aspecto colonial, mas é completamente diferente de tudo que eu já vi. As pessoas sao tao diferentes, tao coloridas, tao bonitas. A cidade, a principio, choca. Nao é muito bonita, mas depois você se acostuma e acaba achando ela linda. Da mesma maneira, tem uma estrutura forte para o turismo. Por isso, uma coisa que eu percebi foi que o argumento de "queria muito conhecer Machu Picchu, mas nao tenho mais idade pra essas coisas" é inválido. Quem quiser ir com conforto, pode ficar tranquilo. Venha ao Peru. Conheça Lima, Cuzco e Machu Picchu, ficando em hotéis bons. Algo em Cuzco me chamou a atençao e me fez lembrar da nossa cidade maravilhosa. Mesmo sendo uma importante cidade turística, a antiga capital inca, recebendo muito dinheiro com isso, a desigualdade social é muito forte. No centro tem lojas caras para quem tem dinheiro, ao redor, tem a favelinha nas montanhas. Muita gente pedindo esmola, vendendo coisas, acredito, que como em toda cidade grande. Fiquei chocada ao entrar na catedral na praça principal. Construída pelos jesuítas na década de 1540, a catedral, que se encontra no lugar de um antigo templo inca (sempre a Igreja Católica roubando os ícones de outras religioes, para colocar um símbolo dela), possui o altar repleto de ouro. Ele é de madeira, pintado a ouro puro. Eu nunca vi tanto ouro na minha vida. Fiquei imaginando o quanto que tinha naquela época. Andando pela cidade, fui com Bárbara em uma feirinha de artesanato, e fiquei conversando com um local, que me explicou tudo de Cruz Andina, Tumi, Pacha Mama, Pacha Papa, Trilogia Inca, etc. Estou craque em quéchua e em história inca. De noite, quando eu estava em uma lojinha numa galeria, ao lado da Igreja, começo a ouvir "vao apagar as luzes, todos para a rua!". Do nada, as luzes se apagam, alarmes tocam, carros de polícia passam e todas as pessoas vao em direçao à praça. Sem entender nada, eu pergunto para a vendedora o que estava acontecendo, e ela me explica que aquilo ali era simulaçao de terremoto, para preparar a cidade de como agir. Cusco tem em média 3 terremotos por ano, sabia? Interessante.
No dia seguinte, perdemos o ônibus para Lima, por causa da moça do Bruno Quaresma, que demorou para se arrumar. Sem dinheiro e na merda, o final da nossa história foi muito mais interessante que um simples "tivemos que comprar outra passagem". Na verdade, isso nao aconteceu. Depois da moça que trabalhava na empresa que compramos a passagem ter nos colocado em um taxi, mudamos de cidade, para pedir para a polícia parar o nosso ônibus, já que o mesmo era direto e nao podia ser parado fora do ponto. O policial disse que nao poderia fazer isso. Entao, corremos para a cidade seguinte. Quando chegamos lá, assim que paramos o carro, o ônibus estava vindo. Sem pensar duas vezes, o motorista pulou pra fora do carro, com os bilhetes na mao, Bruno se jogou na rua com os braços abertos, eu com as maos unidas em forma de reza, com a cara de choro, pedindo pro motorista parar por favor, Bárbara louca, com as maos na cabeça, sem saber o que fazer e Raoni já na janela do motorista "Colé parceiro, para o ônibus aê, namoral!". Nao me perguntem como, mas o ônibus parou e conseguimos pegá-lo. Que sorte! Morremos em um dinheiro com o taxista, mas foi válido. Se tivessemos ficado na rodoviária teria sido muito pior. Passamos 20 horas dentro do ônibus, apenas com duas refeiçoes pequenas e SEM ÁGUA. Sim, o ônibus nao tinha água. Enjoar? Nem pensar. Imagina vomitar e nao ter água pra beber depois? Assim tivemos que aguentar em uma estrada perigosíssima, cheia de curvas, com pedras rolando na estrada (sim, grande parte da estrada estava interditada, de tanta pedra que havia caído). Chegamos sao e salvos em Lima e em menos de 24h depois, descobrimos que dois dias antes de viajarmos teve um acidente nessa estrada, onde um ônibus foi fazer uma ultrapassagem, perdeu a direçao e caiu barranco abaixo. 27 mortos. Ok? Pai, nao infarte, eu estou bem (e morta de saudades).
Assim que chegamos em Lima encontramos com Alexandre (amigo meu e de Bárbara) e seu amigo, Murilo (Mayra, Dedé, lembram da música? Ainda nao cantei pra ele... HAHAHA!) e estamos numa nice!
Lima é uma cidade bonita e limpa (lembrando que estamos em um bom bairro, Miraflores). Ontem fizemos uma noitadinha para comemorar o aniversário de Xandi, e agora estamos esperando o nosso quarto ser liberado no hostel, pois mudamos para o hostel deles: Flying Dog.


Até breve (desta vez, é breve mesmo. Se demorar para escrever, a viagem acaba.)
Hasta Luego!