Essa frase, por si só, já causa um frisson. Desde que
cheguei na belíssima Cartagena de Índias, Colômbia, vivi com máxima intensidade
os dias que passaram. Já sinto a nostalgia dessa primeira etapa, que foi tão
incrível, motivada principalmente pelas pessoas que conheci.
As pessoas, o lugar e o tempo compuseram um cenário perfeito
para as mais brilhantes memórias. Vejo um pouco de teoria do caos nisso tudo;
se qualquer um desses itens não estivesse presente, a história seria outra.
Cartagena me acolheu de uma maneira que, mesmo que eu pudesse, não conseguiria
definir em palavras. A cidade é mágica. Ao atravessar a muralha, que leva à
cidade antiga, sentimos um astral diferente; a energia se transforma.
Não sei se chegar na
véspera de Natal contribuiu, ou se foi pura sorte, sei que o clima no albergue
era sem igual. Nunca vi nada parecido. Com ambiente agradabilíssimo, um
perfeito espaço para interação, localizado em uma área externa, entre os
quartos e uma equipe fantástica, não tinha como sair coisa ruim. Participamos
da ceia de natal e emendamos na bebedeira antes da fiesta. Em meio aos gringos,
com os quais me comuniquei com aquele “portunhol” brabo e um inglês preguiçoso,
conheci brasileiros encantadores. Um grupo tão bom, que depois de passar alguns
dias juntos, parecia que nos conhecíamos há meses. Na primeira noite, fomos num
bando de umas 15 ou 20 pessoas para a rua. Paramos numa casa chamada “Salsa Colombia” que
tinha música ao vivo e bons mojitos. Ao botar os pés lá dentro, meus ouvidos
já foram premiados com “Guantanamera”. Parecia que eu estava num filme!
Durante o dia, suspeitávamos estar em pleno sertão
nordestino, de tanto calor! Sem estações definidas, salvo pelo inverno, que é a
época das chuvas, Cartagena tem sol na cabeça o ano inteiro. Tanto é, que os
lugares não costumam ter água quente, porque não é necessário. Aliviamos a
sensação térmica com muitos dias de praia. As melhores, na minha opinião, não
foram as mais bonitas, mas as mais tranquilas. Não sei se isso se estende à
Colômbia inteira, mas Cartagena sofre com o assédio insuportável de vendedores,
ambulantes, prestadores de serviço e afins. O lugar mais badalado é Playa
Blanca e as Islas del Rosario, onde é necessário pegar barco para chegar.
Seguindo a minha intuição, achei uma roubada. Extremamente turístico, onde você
se sente feito de otário o tempo inteiro. As opções que chegam às pessoas para
ir são limitadas: pegar uma lancha ou uma espécie de barca, ambas saindo do
porto. Por essa razão, já se paga COP$12.000 (pesos colombianos), que dá uns
U$8 (dólares), que é a taxa do porto. O passeio com a lancha, que é mais
rápido, custa COP$50.000 (= U$30) por pessoa, enquanto o de barca, COP$40.000
(U$25), ambos com o almoço incluído. A vantagem do mais caro é que é mais
rápido, 40 min., enquanto o mais barato, cerca de duas horas. Em relação ao
visual, as praias são realmente sensacionais; a cor da água é inexplicável. Nós
pegamos a opção mais demorada, a da barca, que é a furada das furadas. A ida,
já é na maior farofada, com direito a música alta, mãe brigando com criança e
“animador” no microfone do barco. Ao chegar lá, temos que comer no restaurante
da empresa do barco, sem opções de cardápio. É sempre o mesmo rango, que,
apesar de ser o tradicional daqui, é feito da maneira mais “chinfrin”. Quando
fomos para a areia, ficar na beira d’água, parecia que estávamos no final de um
jantar de churrascaria, onde o “não, obrigado” entra por osmose na nossa fala.
É muita gente oferecendo coisa o tempo todo. Ir pra água, não é sinônimo de
paz, visto que demônios montados em Jet Sky passam quase arrancando o nosso
braço, perguntando se estamos interessadas em alugá-lo. Isso sem falar dos que
vem oferecer aluguel de boia, de máscara e snorkel, de passeios de mergulho...
Muito trash! As melhores praias estão fora desse circuito e a melhor maneira de
chegar é fechando um barquinho, que não sai caro, porque eles cobram por pessoa
(quanto maior o número, melhor a negociação do preço), que acaba saindo barato.
As lanchas costumam sair da playa de Castillo Grande, não precisando pagar a
taxa do porto. Com o barco, fomos num dia até Punta Arenas, no outro até Playa
Linda. Ambas não possuíam a água tão transparente quanto Playa Blanca, mas já
valeu a pena só pela paz. Nesta última, sim, comemos uma comidinha tradicional,
que também era a única coisa que tinha, que estava muito saborosa. Um peixe
(pargo) frito, com arroz de coco, patacones (acompanhamento feito com bananas
amassadas fritas) e salada.
Por falar em comida, a cada dia fico mais maravilhada com as
laricas daqui. Por diversas vezes, quebramos a cabeça na tentativa de eleger
qual é melhor. No dia do natal, comemos num restaurante cubano, indicado pela
Coleção Viagem de Bolso – Colômbia, da Editora Abril, SENSACIONAL! Localizado
na Calle Santo Domingo 33-81, Centro, o La Bodeguita del Medio, foi o lugar onde eu tomei o melhor mojito da Colômbia. Antes
do prato principal, pedimos de entrada, uma combinação de frutos do mar muito
bem temperada e mandioquinha frita, que já elegeu o restaurante como se não o
melhor, um dos melhores. Outro que
superou as expectativas foi uma loja da rede Crepes & Waffles, com crepes
que, apesar de completamente diferente dos franceses, eram maravilhosos. Tanto
os salgados, quanto as sobremesas eram encantadores de visual e sabor. O
atendimento que deixou a desejar na segunda vez que fomos, com a vinda de
pratos trocados e demora, mas nada que apagasse o brilho do restaurante. O mais
top de todos foi o La Cevicheria , que fica na Plazoleta
de San Diego. Como fazia muito calor, para beber, pedimos uma cerveja (Club
Colombia, uma das mais tradicionais) michelada. Ela vem num copo com limão,
gelo e sal na borda. Parece uma mistura de cerveja com Marguerita, sem a
tequila. Muito gostosa! Antes de pedirmos
as entradas, nos serviram como couvert uma porção de chips de banana com um
molho a base de manga. Uma coisa de outro mundo! Então pedimos dois aperitivos:
“Camarones a la Diabla”, cozidos e servidos num caldinho picante, com limão e
cebola roxa e “Muelitas de Cangrejo”, as famosas patinhas de caranguejo já sem
a casca, marinadas num vinagre de mostarda. Os
pratos eram individuais, mas preferi dividir com a Mariana. Modéstia a parte, mas MANDAMOS MUITO BEM!
Camarões, anéis de lula e caranguejo servidos em um caldo a
base de tomates e uns temperinhos maravilhosos. Esse almoço foi de ver
estrelas! Não foi barato, ao pensar que se tratava de um grupo de jovens
mochileiros, mas pela sofisticação de tudo, o preço foi bom. Saiu COP$56.290
(+/- U$35) por pessoa.
Das comédias da viagem, logo no primeiro dia, fomos a um
vulcão, o Volcón del Totumo. Seria apenas mais um passeio se não tivesse sido
doideira do começo ao fim. Foi um daqueles programas de índio que no final
valeram a pena. Não acreditei que peguei uma hora de ônibus em direção à
Barranquilla (o vulcão ficava entre esta e Cartagena), para mergulhar numa
caixa de lama de uma abertura de mais ou menos 3 metros de diâmetro e mais de
1.500 metros de profundidade. Quando eu cheguei pensei que fosse matar Mariana
por estar ali. Nós e Ludmilla, pensamos em desistir umas três vezes até entrar.
O espaço era pequeno, pra quantidade de pessoas que haviam, o que dava uma
sensação de falta de higiene bizarra, no meio daquele lamaçal que não era frio,
nem quente. Minha privacidade começou a ser invadida a partir do momento que
uns sujeitos com cara de peão começaram me fazer massagem, aproveitando que a
lama era boa pra pele (eu espero mesmo que seja) e que tinha um turista otário
ali pra dar um dinheiro depois. Mas a minha dignidade só acabou mesmo, quando,
pós o mergulho na lama, fomos para um rio tirar o grude e tinha uma muchacha
pra cada pessoa, ajudando a limpar (tudo pelo trocadinho de depois...). Tava
tranquilo, enquanto elas se restringiam a jogar água com uma bacia na nossa
cabeça, para ajudar a tirar aquela pasta densa do cabelo e do rosto. Começou a
ficar esquisito quando a chica que cuidava de mim enfiou o dedo no meu ouvido
pra ajudar a limpar, depois já saiu tirando meu sutiã do biquine, sem direito
de escolha e sem nem ao menos uma cervejinha. Quando eu fui ver, já estava
pagando peitinho no meio daquela galera. Todos estavam na mesma situação, só
que eu, em especial, estava numa parte mais rasa do rio, o que me impedia de
afundar. Já estava conformada, de mente aberta, pensando que gringo é descolado
e que nós que somos conservadores, quando a mulher começa a gritar no meu ouvido
“LA TANGA! LA TANGA!”. Era só o que me faltava, agora ela queria que eu tirasse
a calcinha!!! Aquilo era quase um estupro. Pois bem, eu tirei e a doida já saiu
arrancando da minha mão, pra ela mesma lavar. Que horror! Pelo menos, as partes
debaixo ficaram escondidas dentro d’água. No final eu já estava rindo, achando
graça daquilo, mas obviamente tive que pagar no final.
Das observações aleatórias, difíceis de encaixar num contexto
apropriado, a Vivian (uma brasileira que conhecemos aqui), está fazendo sucesso
com seu espanhol aprendido recentemente. Outro dia, no restaurante, deixou
algumas pessoas assustadas ao falar com entonação forte “TENGO HOMBRE”, na
tentativa de falar que tinha “hambre”, causando confusão quando quis demonstrar
que tinha fome. (...) Foi fofo passar um dia dizendo “Merry Christmas” e “Feliz
Navidad”, com os gringos cantando músicas natalinas de seus determinados
países. (...) Não imaginava que as noches de Cartagena eram tão iradas, quanto
as pessoas falavam, até as noitadas louquíssimas no Mister Babilla (apelidado
mais tarde, por um amigo, de Babilla Tequila, sem maiores explicações – o mesmo
que depois afirmou “Tequila is suicide”) e no hostel Media Luna, onde têm
festas às quartas. (...) Tivemos má impressão de grande parte dos argentinos
que estavam no nosso hostel. Obviamente que não foram todos, conhecemos pessoas
maravilhosas de La Plata e alguns de Buenos Aires, mas a maioria dos portenhos
são folgados, exibidos e mal educados. Hoje, por exemplo, teve barraco com uma
americana, que tava revoltada, com os caras falando alto a vera de manhã, com
som ligado, gargalhando, como se fossem os únicos hóspedes, com direito a
xingamentos e agressões de “Go back to your fuckin’ country” pra baixo. Durante
a maior parte dos dias, ficamos em um quarto de 12 pessoas e frequentemente
acordávamos com um despertador alto a vera, tocando Cumbia, seguido por
falatório, luz acesa, gargalhadas, não importava a hora que fosse. (...) Por
último, a beleza de ficar numa cidade por mais de uma semana é que dá pra sentir
o lugar sem pressa, curtindo algumas delícias, que só são feitas por quem tem
tempo de sobra, como deitar em cima da muralha, de frente pro mar, vendo o pôr
do sol e ouvindo Novos Baianos. O dia 31 foi regado a yoga e banho de mar assistindo
o último sol do ano indo embora, para se livrar da energia negativa de 2012 e
começar o ano novo com o espírito renovado.
Bem, já era hora deste post chegar ao fim, bem como chegaram
os dias em Cartagena. Foram 9 dias muito bem vividos, que não me permitiram
pausar um minuto sequer para escrever. Estou apaixonada por essa cidade. As
ruas estreitas, os casarões coloridos, a quase inexistência de carros
estacionados nas ruas, o espírito histórico, as praças charmosas e as belas
praias são um convite a não querer sair mais daqui. Já imaginava que ia me
encantar com esse lugar, mas não sabia que iria superar tanto as minhas
expectativas.
Agora, seguimos viagem rumo à ilha de San Andrés.
Vamos al Caribe! OOOOlé!
Vamos al Caribe! OOOOlé!
Cissa, adorei!
ResponderExcluirConta mais, conta mais, connnnntaaaaa!
Aproveitem tudo!
Bjs,Mayra
Cissa minha princesa....amei. Este seu espírito libertário faz voce desfrutar os acontecimentos numa fantástica dimensao.Isso é chamado VIVER.......e nao ter a vergonha de ser feliz.Continuo no aguarde, beijos pra voces 3
ResponderExcluirtia Beth