Impossível essa frase fazer mais sentido. Não sei se isso acontece com todo mundo, mas saí da Colômbia com a impressão de que em outra vida eu já fui colombiana. Pelas três cidades que eu conheci, posso falar que minha experiência foi maravilhosa. A Colômbia me encantou e me surpreendeu muito. Não imaginava que podia me identificar tanto com esse lugar. Estou em terras tupiniquins há menos de 24 horas e ainda me encontro em alfa, sem acreditar que tudo acabou... Aqui vou eu, resgatar na memória e no caderno as histórias que vieram pós Cartagena e que contribuíram para fechar com chave de ouro essa viagem.
San Andrés. Se esse lugar não é o paraíso, nenhum outro é. Não tenho coragem de falar que foi onde eu vi as praias mais bonitas da minha vida, pois tenho claramente as imagens de Fernando de Noronha que não me deixam mentir. Entretanto, não posso negar que foi o lugar onde a cor da água mais me deixou abestalhada. Um azul que eu não sabia existir no mundo real, que ninguém nunca viu numa paleta de cores da Coral ou da Suvinil. Aquele azul, que mesmo olhando durante horas a fio, é difícil de acreditar que existe. Mesmo quando fomos à praia do centro, perto de casa, a menos bonita comparada às outras que visitamos, não dava pra parar de se impressionar a cada vez que olhávamos o mar. Ao piscar, ou olhar para o lado, ou se distrair, quando mirávamos o mar novamente, era um susto. Que lugar é esse!?!
Ultrapassei todos os meus conceitos de estar maravilhada, quando fizemos um passeio de barco até a ilha de Cayo Bolívar. Uma aventura, suportada só por quem tem estômago de marinheiro. Paguei por uma saída de barco e ganhei um ingresso de montanha russa. Por azar (ou sorte, para quem gosta de emoção), pegamos o mar muito agitado, diferente do normal, de acordo com o barqueiro. Quanto estávamos em alto mar, as ondas eram tão gigantes, que a cada 5 minutos o barco subia a uma altura monstruosa e caía com a maior força na água, deixando todo mundo com a leve sensação de que a alma saia do corpo em cada queda livre. Com as bolsas e mochilas dentro de sacos plásticos, falsamente protegidas da água, os menos de 20 integrantes do barco saíram do mesmo, sem sequer uma parte do corpo seca. Eu adorei! Mas não foi bom assim para todo mundo... Depois de esperarmos mais de meia hora, para a chegada de um casal venezuelano, tivemos que aguentá-los com sérios problemas dentro do barco. A menina não parava de chorar, dizendo "Quiero mi padre", e o cara, racista, que chamava o barqueiro, de maneira rude e preconceituosa, só reclamava dizendo que não havia pagado por aquela "merda", tendo como resposta irônica e muito bem dada pelo nosso capitão: "Hay que ser valente!". Em meio a alguns gritos, quando éramos surpreendidos por alguma onda, eu, a Lud e umas argentinas doidas cantávamos nos esgoelando a música de Titanic. Foi demais! Tudo ficava ainda mais engraçado com os comentários religiosos do nosso capitão, apelidado por uma baiana de Capitão de Jesus. Tanto na ida, quanto na volta, fomos convidados a bater palmas para Deus, para pedir e para agradecer pela proteção no passeio. Divino! Literalmente.
Ainda na ida, eu perdi todas as chances da minha vida de ganhar na loteria, quando um peixe voador saiu da água com toda a voracidade e veio parar na minha cara. Sim, tomei um soco no nariz, e quando ainda estava um pouco zonza, sem saber o que tinha acontecido, Ludmilla olha pra minha perna e começa a gritar. Quando percebi, tinha um peixe se debatendo no meu colo. Aproveitei o embalo e gritei também! Loteria foi pro espaço... Quando chegamos ao nosso destino, percebemos que valeu cada segundo e cada centavo. Não dá nem pra tentar descrever. Embora eu fale que a água era calma, com poucas ondas, onde imaginávamos estar numa piscina de tão clara, com areia branca e um coqueiral na beira da praia, eu não conseguirei relatar a beleza daquele lugar.
Passamos a maior parte do tempo nessa ilha, que era um território militar, e só tinha o nosso barco de turismo. A praia era nossa! Depois, fomos de tarde para outra ilha, próxima, e que, essa sim, era DESERTA. Até nadar pelada foi possível. Que liberdade! O barco foi embora e nos deixou lá, com hora marcada para buscar. A ilha não tinha nada, casa, bar, pessoas, nada, nada, nada. Nem sombra, tinha! O passeio não foi muito barato, custou COP$180.000 (uns R$200), pois as ilhas ficavam longe, com almoço incluído e bebida liberada (água, refrigerante e cerveja). Nossa, com a cerveja na mão, dentro d'água, no mar do caribe, eu estava me sentindo muito patroa. Que vidão!
San Andrés é pequena, por isso nós demos a volta na mesma duas vezes. Num dia, alugamos um carrinho de golf por COP$100.000 (mais ou menos R$125), deu pouco mais de R$40 pra cada uma, e no outro, alugamos bicicletas por COP$25.000 (+/- R$30). Da primeira vez rodamos no sentido horário, da segunda, no anti-horário. Passamos por praias sensacionais (San Luís, Bongo's Place, La Piscinita, West View, Ensenada del Cove...), com visuais completamente diferentes. Parávamos sempre que queríamos para mergulhar, tomar uma bebida, descansar... Um dos lugares mais divertidos foi o balneário de West View, onde pagamos COP$3.000 (menos de R$4), para entrar e mergulhar num marzão com muito peixe. Como era uma encosta, só dava pra entrar pulando, descendo pela escada, por um toboágua ou por um trampolim. Fui em todos. Venci meu pavor de pular de lugares altos. Apesar de entrar água no ouvido, no nariz, biquíni sair, foi um máximo. Adorei!
Só uma observação, as praias tem nomes em inglês e espanhol, pois a ilha é bilíngue. A colonização foi inglesa e espanhola. Alias, parece que os san andresanos possuem maior identificação com a Jamaica, que com a Colômbia. É tudo muito diferente. Continuando, percebi uma proximidade muito grande com os locais. A relação com a ilha e com os moradores, era muito intimista. Na fila de uma lanchonete, um cara me cutucou pra me perguntar o idioma que eu estava falando com a Mariana, no rolé de bike, ou de carro, as pessoas acenavam, mexiam com a cabeça, diziam "bom dia", sorriam... Um astral muito bom! Quatro crianças de bicicleta seguraram no nosso carro e foram sendo puxadas pela gente, sem fazer esforço. Muito engraçado!
Quando estávamos de bicicleta, eu não resisti ao fone de ouvido, para aproveitar aquele momento com a trilha sonora escolhida. Parecia que eu estava no clipe da música "Love Generation" (Bob Sinclar), pedalando numa estrada na beira do mar, num lugar foda.
Os perrengues, sempre presentes foram tranquilos. No dia do carrinho, ele parou de funcionar num dos nossos pit stop. Por sorte, tinha um restaurante perto, onde eu consegui ligar pra empresa que alugou, para que eles mandassem um mecânico. Enquanto ele não chegava, ficamos na praia. Vida difícil. No dia da bike, tivemos um pequeno acidente com a Lud, que se esborrachou no chão, depois que um maldito de moto cortou ela pela direita, quando ela jogou a bicicleta pra este lado, achando que ele fosse passar pelo lado correto, a esquerda. Felizmente, já estava no final do passeio, não foi grave e pudemos continuar pedalando em direção à casa. As comidas que impressionaram na cidade foram: empanadas de lagosta e caranguejo, comidas na praia do centro, arepas no "El Rey de las Arepas", que é um salgado tradicional, parecido com uma tapioca, só que feito a base de milho, recheado com queijo e frango ou carne. BOM DEMAIS!!! Comemos também numa lanchonete, a "Kirikiki", onde o forte era o frango. "Pechuga de pollo con papas", melhor podrão da vida!
Bogotá, última parada, também não deixou a desejar. Substituímos os biquínis e as cangas por casacos e cachecóis. A altitude não matou só no frio, a falta de ar também foi pesada. No primeiro dia então, falta de ar, dor de cabeça, enjoo, no segundo só estava um pouco difícil de respirar, no terceiro eu já estava fazendo tour de bicicleta, subindo e descendo ladeira, feliz com as hemácias adquiridas. A cidade é lindíssima, limpa, segura, com transporte eficiente e trânsito que flui. Visitamos o Centro Histórico, o Centro Cultural Gabriel Garcia Marques, o Museu Botero (que além de obras do artista, também era carregado de Matisse, Picasso, Monet, Renoir, Toulouse-Lautrec, Miró... Bom demais!), o Museu do Ouro e várias Igrejas. A impressão que dá é que tem uma do lado da outra. Muita livraria. Isso foi algo que chamou a atenção, bem parecido com Buenos Aires. E a cidade é carregada de manifestação política nos muros. Coisa de sociedade que lê e que pensa. Bonito de se ver.
O melhor rolé da cidade foi o de bicicleta. Fizemos um tour de 6 horas, com a Bike Tour Bogotá (Cra Tercera, No. 12-72, Candelaria) que custou COP$35.000 (+/- R$40), com várias paradas sensacionais. Uma das primeiras foi no mercadão, no Centro, onde provamos mais de 15 tipos de fruta (Mamoncillo, Lulo, Granadía, Uchuva, Guanábana, Mangostino, Sapote, Pitaya, Higo, Tomato de Árbol con Raspeberry e outros que não me lembro o nome...). Conhecemos a "Red Light", que nem se compara com a de Amsterdã. É apenas uma região onde a prostituição é permitida e as primas ficam na rua, vendendo seus serviços. Depois seguimos para uma fábrica de café, onde, no final, tomamos um cafezinho adoçado com rapadura em pó, a famosa "panela". Delicioso! Passamos por um antigo estádio onde aconteciam as touradas, até serem proibidas. No meio do caminho, as surpresas eram a melhor parte. Encontramos o "Osama Bin Laden" de Bogotá, um sujeito que se vestia de Bin Laden e dizia proteger a região. Conhecemos crianças SENSACIONAIS: conversadeiras, inteligentes e carinhosas ao extremo, quando fazíamos uma pausa ou outra. Elas gostavam de pegar as câmeras para tomar ou posar para fotos. Demais!
Encontramos com nossos amigos brasileiros de Cartagena e fomos juntos à cidade de Zipaquirá, a pouco mais de uma hora de Bogotá, para conhecer a Catedral de Sal. Pegamos o transmilenio (uma espécie de transoeste daqui do Rio) e um ônibus, que no total deu COP$5.300 (+/- R$6). Depois de andar uns 20 minutos, chegamos à entrada do estabelecimento. Pagamos COP$20.000 (+/-25) para entrar na mina. É uma caverna com mais de 1,5km de extensão com diversas capelas iluminadas e um espaço maior, como se fosse o salão principal de uma igreja, com bancos, altar e tudo mais. Nunca vi nada igual, mas é o tipo de programa dispensado a quem for claustrofóbico. Quando já estávamos há algum tempo andando lá dentro, surgiu uma vontade coletiva de bater no Felipe, um dos nossos amigos, quando ele disse: "Po, véi, deve ter sido foda ficar preso na mina, né?", seguido de um pavor coletivo de: "Caraca moleque, isso é hora de falar essas coisas?". Felizmente, o episódio do desabamento da mina não se repetiu com a gente.
Em Bogotá, conheci um restaurante maravilhoso, o El Gato Gris. Ele fica ao lado da Plaza del Chorro Quevedo, na Candelária. No frio que faz à noite em Bogotá, não poderia ter lugar mais aconchegante. Um casarão de dois andares, possui um salão maior embaixo, aquecido por uma lareira e pequenas salas no andar de cima, com sofás e pufes, para quem preferir um espaço mais reservado. Com decoração de madeira, quadros surrealistas, fotos retrô, armários antigos com louças e livros, davam um ar de "casa antiga". Quando cheguei, estava tocando "Strawberry Fields Forever" dos Beatles e seguido de outras músicas da banda. O som de fundo só mudou, quando chegou um grupo de músicos, com violoncelo, tambor e violão, que foi de arrasar. Em alguns momentos parecia uma música country, em outros, jazz. Não sei exatamente o que eles tocavam, mas era muito bom. Outro lugar imperdível é o Bogotá Beer's Company. Um bar com cervejas artesanais da melhor qualidade, que não é caro e possui um ambiente agradabilíssimo para reunião de amigos. Foi lá o primeiro encontro com o pessoal de Cartagena. A degustação de cervejas, combinada com duas porções de Nachos, com guacamole, frango desfiado, sour cream e um molho picante, veio junto de um delicioso encontro. Sensacional!
Bem, como que tudo que é bom tem que acabar, foi com muita tristeza que eu me despedi desse país que tanto me acolheu, com todas as delicadezas de "a la orden", "mucho gusto", "mi amor", "corazón lindo" e "que estés muy bien" muitas vezes escutados. Por pouco eu não ficava por lá. A minha vontade era de mudar o voo de volta Brasil para Cartagena e começar tudo de novo. Agora só em sonho, até eu viajar pra outro lugar e me fascinar de novo...
Até breve (eu espero).
































Fantastica viagem....fantastica sua narração, viajei juntinho....delicia. Agora só mesmo ouvir seus depoimentos, ao vivo e a cores, vai ficar rouquinha
ResponderExcluirque delícia ler sua viagem. cissa, saudades. não vejo a hora de conhecer os lugares descritos com tanto encanto. mil beijos .
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