quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Per Roma, con amore. (Magari...)


 Ainda que o título seja exclusivo, o texto não será. Embora a vida em Clermont-Ferrand já tenha caído na rotina, ainda rende boas histórias... Contudo, o foco será a Itália, que veio de surpresa e não poderia ter chegado em melhor hora. Comecemos então por ela, antiga, forte e imponente.

Stagione di Milano Centrale. Depois de uma baldeação de trem que durou um dia inteiro (Clermont – Lyon –Genebra – Milão), pisei em terras lombardas. Após um pouco de pilha de um amigo para encontrá-lo (não é preciso muito para me convencer a viajar), percebi que era hora de começar a dar um rolé nessa tal de Europa. Milão seria apenas o ponto de encontro, já que a viagem seria Toscana e Roma. Por infortúnios do caminho, Toscana não rolou, fazendo com que ficássemos somente em Roma, o que não foi de todo mal...



Apesar de breve a estadia em Milano, deu tempo de sentir um pouco o ambiente. Cheguei à noite, bati um pratão (dois, para ser sincera) de farfalle, com presunto cru (o marco da viagem, depois dos sorvetes), cebola e molho branco, que meu amigo preparou e guardou pra mim (ô sorte!). Em seguida, banho e rua. Fizemos uma noitada de bicicleta! Ah que saudade que estou da minha magrela... Aqui em Clermont tem esquema de aluguel, como em Paris, mas é ineficiente, já que não tem em muitos pontos da cidade. Até hoje tive preguiça de entender como funciona e quanto tempo posso ficar até devolvê-la numa das três paradas (as únicas que vi até agora). Alias, acabou que não expliquei de onde surgiram as bicicletas.

Fiquei hospedada na casa de um amigo do meu amigo, que mora numa república com outros meninos. Não sei se as bicicletas eram dos caras, ou todas dele; sei que a que eu usei parece que foi feita pra mim. Com um ar retro, um freio que não funcionava muito e barulho de bicicleta velha. Que delícia... Visivelmente uma cidade industrial, mas bonita e charmosa. Aqueles fios suspensos no meio das ruas, ao invés de tornar feio, davam um tom especial àquele cenário. Na madruga, me senti em casa, com várias biroscas e lanchonetes abertas para a larica da juventude. Ao invés de salgados, italianos e temakis, comuns no Rio de Janeiro, o lanche, naturalmente era: pizza, focaccia, calzone... Caímos dentro! 


No dia seguinte, antes de ir pra Roma, comemos comida italiana no chinês (só porque era barato). Acompanhando os que estavam comigo, pedi uma tal de piadina, uma espécie de pão sírio dobrado ao meio, recheado com mussarela de búfula e presunto cru. Comi rezando. Naquele momento percebi que voltaria rolando da Itália. Sim, meu rosto tá elegantemente redondo nas fotos. Ai ai a Itália...! Rs. Pegamos 7 horas de trem, sem contar com o clássico ritardo, até a capital. Chegamos destruídos. Só deu pra sair pra comer, voltar e esperar a dona da casa para dar um oi educado. Ficamos na casa da irmã do menino de Milão. Jornalista, também dividia apartamento, nos tratou a pão de ló. Ela e o seu namorado foram as pessoas mais gentis e agradáveis possíveis. Tomamos uma cerveja, conversamos um bocado antes de se entregar ao sono. Ah, a parte da conversa... Foi difícil hein? Além de o meu italiano ter atrofiado em escala assustadora desde que vim pra cá, percebi a inferioridade do meu aprendizado na língua comparado ao francês. Enquanto este, eu aprendi na França - com nativos - e no Brasil - com aula particular de qualidade com professora brasileira -, o italiano, tive que mudar de professor três vezes, quebrando o método de ensino, sem ter tido nenhuma ênfase em pronúncia e escuta. Resultado: o meu italiano foi ridículo. Até que conseguia me comunicar, entender, mas me deu trabalho. Não foi simples não. 



O primeiro dia na capital do Império Romano foi com um sorriso de orelha a orelha e arrependimento amargo de ter levado roupas pouco frescas. Desde que vim para Clermont-Ferrand, esqueci que o calor existe e é possível senti-lo. De calça comprida e blusa até o meio do braço (isso é o máximo de fresco que se pode usar aqui) desidratei o dia inteiro, mas morrendo de felicidade de estar ali. Sabe quando você olha tudo incrédulo, pensando: “eu não acredito que eu to aqui”? Era eu! Sem tomar café da manhã, só fui me alimentar num mercadão descoberto no caminho da parte histórica. Um monte de coisa maravilhosa e colorida exposta, eu fui provando pastinha com pão, querendo comer todas aquelas massas, beber todos aqueles vinhos, mas me contive numa barraca com prosciutto crudo cortado na hora. Acho que comi o melhor sanduíche de presunto cru de todos os tempos. Não sei se era a fome (pode ser), mas naquela hora eu vi estrelas e pensei: “Que isso... Não é possível que isso exista!”.






Saindo de lá fiz os programas mais turísticos possíveis: Circo de Massimo, Foro Romano, Colosseo e Fontana di Trevi. Ao circular por aqueles prédios e monumentos gigantes, carregados de conhecimento, luta, dor, cultura, escravidão, parecia que eu estava voltando no tempo. A impressão que eu tinha era de que as paredes começariam a falar a qualquer momento. Era tudo o que eu desejava, pois descobri que sou nula em história antiga. Quando pisei no Foro Romano, meu amigo disse: “Bem vinda a Roma!”. Naquele momento os vestígios de pedras tomaram vida e foram se recompondo as construções originais. Comecei a ver pessoas passando de batas brancas, com sandálias amarradas, escravos a tira colo, estudiosos, teóricos e nobres.  Parecia que eu ia trombar com César na esquina seguinte. 












Dei uma baita sorte quando cheguei ao Coliseu. Tendo comprado um bilhete duplo no Foro Romano, não precisei entrar na fila quilométrica para comprá-lo. Se tivesse, acho que teria desistido. Era coisa de duas ou três horas de espera. Com o ingresso na mão, passamos direto, sem esperar nem dez minutos. Incrível. Lá dentro, um mundo de turistas tirando foto sem olhar, no automático... Aquela coisa de sempre! Eu tava de queixo caído. Uma mistura de “não acredito que to aqui” com “é o Coliseu” com “olha o tamanho disso”. Fiquei horas olhando para o centro do prédio, tentando descobrir qual era a graça de ver gladiadores se matando, escravo lutando com leão, escravo com gladiador, etc. Fui embora sem saber o que tinha de espetáculo naquilo. Era uma espécie de UFC sem os “limites” de hoje. Que horror! Tá doido...




Fontana di Trevi. Só me lembrava de “Anjos e Demônios”. Mesmo sendo mega comercial, feitos para vender, tenho que admitir... Eu adoro os livros do Dan Brown! Hahaha! Em meio aquele mar de gente jogando moeda de costas, consegui me instalar e ficar olhando, até cansar e ir tomar um sorvete, o segundo do dia. Pois é, nessa viagem revezei entre stracciatella, limone, fragola, frutto della passione, mango e nutella e ainda não descobri qual o melhor. Acho que limão, né? Minha longínqua azeda paixão. 






Chegamos à casa destruídos e ainda saímos com os anfitriões. De carro, fomos até uma zona de bares super alternativa, onde aconteceu uma situação engraçada. O menino de Milão comentou com a irmã dele, dona da casa, que achava que Roma não tinha mulher bonita. Afirmação pesada, né? Ela sorriu e explicou que em Roma as pessoas, portanto incluindo as mulheres, são mais naturais, simples, se vestem como querem, não tão nem aí pra nada; enquanto em Milão, as mulheres parecem que saíram da revista, que andam conforme a moda, cabelo amarrado em penteado e 3 kg de maquiagem. Mesmo sem ter reparado nisso, já dou meu voto maior e absoluto a Roma. Saindo de lá, os italianos nos fizeram uma surpresa...

Levaram-nos até a Piazza Cavalieri di Malta. Sendo um conhecido ponto turístico, a praça não chama atenção a um desavisado ao que ela tem de especial. Eles nos conduziram até uma porta de madeira e falaram que devíamos olhar pela fechadura e ver uma das coisas mais bonitas da nossa vida. Fiquei curiosa e fui primeiro. Meus lábios se entreabriram e o espanto foi de imediato. Daquele buraquinho minúsculo era possível ver toda a cúpula da Basílica de São Pedro iluminada, destacando no meio da cidade. Fiquei maluca com aquilo. Comecei a fazer quinhentas perguntas, atropelando as palavras, sem saber o que eu queria saber primeiro. Descobri que o portão de madeira fica numa casa dos anos 500, pertencente aos Cavaleiros de Malta (por isso o nome da praça). Estes, por sua vez, são uma espécie de entidade respeitadíssima, que era a responsável por carregar os corpos dos mortos nas Cruzadas, de volta às suas famílias. Acredita-se que a casa foi construída propositalmente com a abertura oportuna para a vista da Basílica pela fechadura, seria muito difícil ser uma coincidência, mas... Quem sabe? Não há motivos para limitar a imaginação. Pensei muito se deveria escrever o que se via além da fechadura, pois não sei se é tão conhecido e queria que todos que pudessem, passassem pela mesma emoção que eu. Resolvi escrever, apenas pelo fato deste passeio estar em diversos livros de turismo, não sendo segredo pra ninguém. Pra mim foi mágico, imperdível. Antes de voltar pra casa, entramos no Giardino degli Arancie que tem ao lado da praça, para admirar a cidade vista de cima, a beira do Tevere. É possível ter uma ilusão de ótica ao olhar a Basílica de longe e de perto. Antes, temos a impressão de que ela é maior. Curioso!



No dia seguinte, o destino foi o Vaticano. Fiquei mais tempo do lado de fora, conversando, que lá dentro, turistando. Eu tava cansada de correr. O primeiro dia foi mega cansativo, no segundo eu já queria passear de leve. Entrei na Basilica di San Pietro e realmente... É bonita!  Mas impossível não associar imediatamente à opulência da Igreja Católica com toda aquela ostentação. Longa discussão... Quero nem entrar no mérito. Não pude subir à Cúpula por causa do horário, o que me fez voltar ao Vaticano no dia seguinte, somente para fazê-lo. Foram mais de 500 degraus para ver a cidade de cima. Uau! Encantadora. Valeu a subida por aquelas escadas estreitas, tortas e estranhas. Por falta de conhecimento, só fiquei sabendo depois que a visita da Capela Sistina se faz pelo Museu do Vaticano. Errei o caminho para chegar lá e quando finalmente consegui, tinha acabado de fechar. Eram 16hs. Fiquei triste. Terei que voltar à Roma só pra ver Michelangelo (ah que dureza... Rs.). 











Estava fazendo um calor do Ceará, quando eu fui barrada do museu. Parei pra descansar (os mais de quinhentos degraus estavam marcando presença nas minhas pernas) e tomar uma cerveja. Sentei num restaurante ali perto e esperei mais de 15 minutos pra ser atendida. O serviço de Roma consegue ser pior que o da Bahia, se é que isso é possível. Quando estava prestes a levantar, o garçom veio e eu me rendi a um chopp bem gelado. Valeu cada gole. Agradeço por ter ficado lá. Sinto o sabor dessa cerveja descendo a garganta como se estivesse tomando-a agora. 


No primeiro dia de Vaticano, saindo de lá, caminhei até o Castel Sant’Angelo. Não entrei, pois já estava tarde. Além do mais, viagem de três dias não dá pra entrar em todos os lugares, infelizmente. A visita é sempre por fora. Entre uma fotografia e outra, atravessei a ponte que há em frente ao castelo e fui, seguindo a “Via di Panico”, até a Piazza Navona, encantada com tudo... No segundo dia, após ser barrada no Museu e descansado com o choppinho, fui a pé, ouvindo música e cantando, até a Piazza del Popolo. Depois segui para a Piazza Spagna. É só deixar um mapa na minha mão, que vou pra qualquer lugar...









 
Não posso deixar de falar de um dos lugares que mais amei: Trastevere. Dei um rolé por lá com a família italiana à noite. Não sei se rola algo de bom durante o dia, mas me encantei pelo jeitinho charmoso do bairro. Restaurantes, bares, iluminação baixa, muros repletos de heras, que atravessavam as ruas e caem de fios de energia. Quando voltar a Roma, quero me hospedar lá! Ô lugarzinho simpático. Comemos uma comida muito boa e barata, num restaurante muito pouco ou quase nada agradável. Assim que chegamos, fomos informados que a cozinha fecharia em 15 minutos. Tudo bem, nós entendemos (e os italianos que estavam conosco idem) que temos que pedir os pratos em até 15 minutos. Depois, só se pode pedir coisa que não é da cozinha, como bebida, até o restaurante fechar. Pois é, nesse restaurante, “cozinha fechar” significa “apagar as luzes da casa”. Tivemos que engolir a comida, com os garçons tirando todas as cadeiras em volta, varrendo o chão, numa tremenda grosseria. Aqueles que estavam com a gente fizeram questão de demonstrar a insatisfação no final, reclamando com a gerente. Foi quando comecei a desencantar com a Itália (já explico...). O mais engraçado, foi que ao sair do restaurante, encontrei essa placa no local, tive que tirar uma foto. 




Até o momento, eu estava tão radiante com Roma, com aquele calor, aquele povo quente, que fala alto, discute na rua, sem a preocupação francesa em ser polido ao extremo, sem aquela embromação de “Bonjour, excusez-moi, est-ce que vous pouvez me dire où ce trouve la rue Blablabla” pra dizer “Opa! Meu amigo, cê sabe onde que é a rua Blablabla?”... Eu estava começando a pensar que tinha cometido um erro em ter escolhido a França ao invés da Itália para fazer intercâmbio. Ninguém faz ideia do quanto eu voltei apaixonada por aquele lugar. Até a minha última noite, onde eu só me lasquei e afirmei com precisão pra mim mesma: “É, definitivamente, Paris é melhor que Roma.”.


Duas foram as expressões que mais ouvi na Itália: “bo” e “magari”. A primeira, quer dizer “não sei”, o famoso “chepas” daqui. A segunda traduz tanto o “pode ser”, quanto o “quem sabe” ou mesmo “talvez”. Foi por isso que quis colocá-la no fim do título deste post. Lá vai a explicação... No último dia no Lazio, dei um rolé pela cidade sozinha, enquanto meu amigo saiu com o amigo dele. Combinamos de nos comunicar numa hora exata, para nos encontrarmos. Isso seria feito através do wifi de algum lugar. Na hora precisa, encontrei um restaurante que dizia haver internet sem fio. Depois que sentei e pedi um tagliatelle a bolognesi, percebi que a rede não funcionava, o que impediu a nossa comunicação. Recebi uma mensagem, dizendo que o ponto de encontro seria numa estação de metro. Beleza, não poderia responder, pois estava com o chip de cartão francês, mas estaria lá no horário marcado. Tínhamos combinado também, que, se a comunicação desse errado, nos encontraríamos em casa. Na hora eu me liguei que não possuía a chave de casa e nem tinha como apertar o botão do porteiro eletrônico, visto que o nome que estava lá era o do proprietário do apartamento, não da locatária, a irmã do menino. Então eu não conseguiria subir. Fui em direção à estação de metro combinada e ao chegar, não encontrei ninguém. Vi que tinha um orelhão ao lado, que aceitava cartão telefônico ou moeda, mas não sabia qual era o preço da ligação. Fui perguntar a duas mulheres que passavam, que me responderam rispidamente, quando me viram catando moeda na bolsa, e saíram andando. Entrei numa espécie de snack bar e pedi gentilmente ao dono para usar o telefone, pagando, claro. Aquele calhorda, então, me respondeu da maneira mais grosseira possível que eu deveria comprar um cartão e ligar do orelhão como em qualquer lugar do mundo. Patada de graça. Oferta do dia! Quem vai? 



Finalmente eu consegui falar com o italiano e disse que os esperaria num restaurante que tinha ao lado do metro. Pronto, agora as coisas vão dar certo, pensei. Depois de um bom tempo esperando ser atendida, pedi um chopp acalmar os ânimos, enquanto escreveria ou leria esperando minhas companhias. Foi então que o garçom me escorraçou do restaurante por ter sentado apenas para pedir um chopp (eu poderia tomar outros...). Ele me disse com as seguintes palavras: “Isso aqui é um restaurante, as pessoas vem aqui para comer. Você não pode ocupar lugar só para tomar um chopp. Scusate.”. Eu não acreditei! Não sei como não mandei um “Va fanculo, Dio stronzo schifoso cane!” para aquele maldetto. Solução? Voltar para o snack bar daquele velho desgraçado do cartão telefônico, o único comércio possível além do restaurante - só para jantares - ao lado da estação de metro Cavour. Depois, o final da noite foi ótimo. Cervejinha sentada na praça, junto com os locais... Parecia a Cantareira! Mas não nego que desencantei um pouquinho depois dessa chuva de patadas. Ainda falam que os franceses que são estúpidos. Discordo em gênero, número e grau. To aqui para defender bravamente a minha galera. 


 Ah, antes de voltar para França, pude perceber o quão comum são os maus hábitos naquela terra. Se o ônibus não tem fiscalização, não tem que pagar. Compra-se o bilhete, mas só valida se entrar algum fiscal. Se o metro não tem quem esteja olhando, pula-se a roleta. Na lanchonete, primeiro se paga, por exemplo, a bebida, e depois a própria pessoa vai buscar na geladeira; nesse caso, por que não pegar duas, já que ninguém está olhando? Cheguei à conclusão de que a fama de que brasileiro tem espírito de porco é absolutamente equivocada. Fiquei pasma com o quanto isso é comum na Itália. Não sei se é excesso de liberdade e confiança, se é cultural ou se é doença, mas isso existe e eu vi muitas vezes. 

No aeroporto Fiumicino, quando estava na fila para entrar no avião com destino à Lyon, achei o máximo da fofura de não ver nenhum idoso (francês, é claro) querer passar a frente dos outros passageiros, quando o funcionário da Easyjet chamou para entrar primeiro os passageiros especiais (idosos, crianças, deficientes). Todos de cabelo branco e rugas na face, salvo os mais debilitados, ficaram ali, em pé, junto aos seus familiares esperando a sua vez na fila. Achei um máximo! Dão um banho de educação!

Apesar dos contratempos, a ida a Roma foi definitivamente espetacular. Pode-se dizer que o saldo foi absolutamente positivo. Eu voltei para Clermont-Ferrand com um gás, uma alegria e um bem estar incomensuráveis. Comecei a olhar as coisas de outra maneira. Na semana passada, por exemplo, percebi que estava bem, leve, tranquila. Tão boa essa sensação. Passados alguns dias, comecei a perceber o quanto o tempo está voando, passando mais rápido que eu supunha. Não sei o que aconteceu, mas a cidade se modificou aos meus olhos, se tornou especial. Comecei a gostar daqui e gostar de estar aqui. Achar boa a experiência de viver em uma cidade pequena (por alguns meses, não sei se eu gostaria de morar aqui anos). Planejando viagens então, ficou muito mais delicioso o intercâmbio. Mesmo quando fico em casa, estou feliz, porque não estou gastando dinheiro. Hahaha!! É, a economia está braba! Com um pouco mais de um mês em Auvergne, meu coração está em paz. 







Como nem tudo são flores, tem coisas que tenho que aturar, que não são do meu agrado. O curso de francês, por exemplo, não é lá essas coisas. Para ser mais exata, é um saco! A aula de argumentação, semanal, dura duas horas e meia, que demoram mais que a eternidade pra passar. Toda semana é a mesma coisa, o professor dá um tema e temos que pensar em argumentos para defender ou criticar a proposição. Só que independente do grupo em que eu esteja, as pessoas não falam, então sou sempre eu e mais um que temos que fazer sozinhos. São sempre temas chatos e cansativos como “Viagem nos faz enfrentar numerosos desafios” ou “É impossível viver sozinho”... Aí se perde muito tempo nisso. O professor coloca os alunos pra ler os textos, só que as pessoas têm um oral horroroso e eu não tenho a menor paciência de ficar meia hora ouvindo gente que parece que está se alfabetizando lendo. Na metade da aula eu já estou entediada, mexendo no celular, vendo o que tem de novo no facebook... Pra não dizer que não me acrescenta em absolutamente nada, eu gosto dos intervalos, quando converso com gente diferente. É sempre legal falar com alguém de longe, sempre vem coisa engraçada ou curiosa. Outro dia, por exemplo, troquei ideia com um chinês de origem turca, que mora no oeste da China, numa das regiões que tenta se separar e por isso sofre várias restrições do governo. Enquanto pra nós é comum viajar para Argentina, Uruguai, Bolívia, Chile e Peru, as viagens que o menino faz são para Tajiquistão, Turcomenistão, Afeganistão, Quirguistão, Paquistão e por aí vai. O modo como ele contava era igual ao da gente falando da Argentina, um lugar pertinho, que vamos sempre, todo mundo conhece... Engraçado demais! Disse que é um parto tirar passaporte, demora dois anos e pra fazer viagem internacional, é preciso ir à Pequim, do outro lado do país. O governo se recusa a permitir aeroportos internacionais naquela região para não aumentar a autonomia. Sinistro! 

Université d’Auvergne. Completamente diferente da UFF... Acho que a única semelhança é o primeiro nome “Universidade”. Faço só três matérias, das quais duas tenho aula em anfiteatro e uma em sala normal. A grande diferença começa aí. Aula pra 200 alunos é palestra. O espaço impede qualquer aproximação entre professor – aluno, intimida o aluno que quer fazer perguntas (nunca vi nenhuma) e mostra que o ensino é absolutamente doutrinário, sem nenhum espaço de discussão. É uma coisa bem fria, bem Europa. No entanto, a organização, a pontualidade e o conteúdo das aulas são impecáveis. Não vejo professores dando aula “a la Bangu” como na UFF, onde cada um faz o que quer, se quiser trazer um dromedário para explicar a ligação do bicho com o direito... Aqui tem uma padronização. Tudo bem que tem professor que dá aula com Power Point, outro que só fala sem parar, outro que fica ditando o tempo inteiro, mas existe um conteúdo fixo a ser dado e eles cumprem a tarefa. O volume de matéria é imenso. É visível como que os estudantes aqui saem muito mais preparados e com mais conhecimento que nós, no Brasil. Não falo nem que eles são mais estudiosos, porque isso eu não sei. Alias, falam o tempo inteiro na aula e os professores reprimem com no máximo um “s’il vous plaît...”, jamais um “Meu amigo, você está incomodando. Se não está interessado vá para o lado de fora conversar com o seu colega”. Isso não existe. Tem hora que é demais! Insuportável. A pontualidade pra mim é outra grande surpresa, diferente do que pensam os tchecos. Pra eles, alguns professores chegam sempre atrasados (cinco minutos). Rs. E se a aula dura três horas, ela dura três horas. Se faltam 15 minutos para acabar e o professor já acabou a matéria, ele começa a da aula seguinte, mas não libera mais cedo. Isso pra mim está sendo muito cansativo. Óbvio, cada vez eu acostumo um pouquinho mais, mas ainda é muito diferente do que estou acostumada. Na UFF, minhas aulas de duas horas, se duram uma hora e meia é muito. É praticamente impossível manter a concentração até o final. Na metade eu já não raciocino mais, a fala do professor já vira um som em persa, do qual eu não entendo uma palavra. Saio acabada, como se tivesse passado um trator por cima de mim.


Mas pra curar o mal da rotina tenho feito coisas agradáveis e dado muitas gargalhadas. Outro dia morri de rir, quando descobri que eu era a única num grupo de romenas e espanholas, que conseguia dobrar a língua (pros dois lados e fazer um rolinho), estalar os dedos (não sabia que era possível alguém não conseguir), piscar um olho de cada vez e assobiar. Muito engraçado, gente! Meu primeiro aniversário longe de casa foi também motivo de piada. Recebi somente quatro abraços. Ainda bem que eu tenho bom humor! Aqui as pessoas não se encostam. Quem sabia que era meu aniversário desejava um “Joyeux Anniversaire” de longe, com um “tchauzinho”. Eu agradecia e ria muito por dentro. Não me senti nem um pouco carente ou triste; achei foi muito engraçado. Que doido! Melhor de tudo foi chegar em casa, ligar o skype e cantar parabéns junto com a minha família, que comia meu bolo e bebia champagne em minha homenagem, enquanto eu tomava água pra não ter ressaca da bebedeira que tinha acabado de chegar.  Acho que todos os dias eu dou um “salve” à tecnologia! 

Outro dia, participei da Jornada Internacional promovida pela Université Blase Pascal (a outra aqui de Clermont-Ferrand). Foi ótimo! Era uma espécie de jogo que tínhamos que fazer em grupo, percorrendo a cidade, respondendo um questionário. O evento acabou numa solenidade no Hotel de Ville, o prédio da prefeitura, com um banquete regado e champagne à la vonté. O representante da Universidade terminou o seu discurso lindamente dizendo que naquele momento tínhamos deixado de ser estudantes intercambistas e nos tornado estudantes Clermontois (Clermontuá, como se diz aqui. Rs.). De ficar arrepiado. Nesse dia, ainda, conheci uma manada de brasileiros e acabei saindo com eles, para show num bar, que tava rolando por conta do Festival de Jazz. Consegui ir a uns três eventos gratuitos no festival, uma raridade, já que aqui o jazz é bem elitista e grande parte dos concertos são pagos. Dei sorte que tinha uma amiga trabalhando no evento e consegui aproveitar. 




Tirei um domingo para conhecer a cidade de Vichy, também em Auvergne, que fica a meia hora de trem daqui. Foi um ótimo passeio! A cidade é bem pequenininha, mas no domingo muita gente vai pra lá, pois as lojas abrem (ao contrário de Clermont-Ferrand) e tem muitas feiras pelas ruas. Percebi, vendo inúmeros hotéis de luxo, que o forte da cidade é o turismo por conta das águas termais (alguém tá lembrado da marca de cosméticos francesa que leva o nome da cidade?). Pois é, as propriedades químicas das águas de Vichy são conhecidas desde o Império Romano. Em frente às “Thermes de Vichy”, tem banheiras de desenho galo-romano originais. Incrível. Hoje, o acesso a essas águas “cura tudo” se dá através dos SPAs que tem espalhados pela cidade.










Já ia quase me esquecendo de contar que finalmente descobri um cinema que prestasse nessa cidade. Tava indignada, como que uma cidade que abriga festival internacional de curta metragem só tinha cinema com filme comercial. Eu que não soube procurar (ou olhar). Na praça principal, tem um cinema que passa uns filmes diferentes, com produção menor, premiados no Festival de Cannes, sessões com debate após o filme e também filmes antigos, remasterizados. Pois bem, outro dia eu estava passando na frente e resolvi assistir alguma coisa. Quando vi, estava em cartaz “A Bela e a Fera”, na primeira versão do cinema, dirigido por Jean Cocteau (!!!!!!). Fiquei maluca! Sem pestanejar, entrei e aguardei menos de meia hora para o filme (detalhe que é uma sessão por dia, dei muita sorte com o horário!). Numa sala para 120 pessoas, assistiria sozinha – se não chegasse um doido em cima da hora – ao filme em preto e branco, de 1946. Inspirado no conto de Jeanne-Marie Leprince de Beaumont, de 1757, “La Belle et la Bête” (no original), o filme é uma viagem no tempo. A atuação dos atores é extremamente exagerada, sem a menor intenção de ser sutil, a trilha sonora é exclusivamente música clássica e o filme tem pouquíssimos cenários. Bem rudimentar. Acho que o castelo da Fera só é mostrado em quatro ambientes, muito diferente da megaprodução de Walt Disney. Em alguns momentos era um pouco cansativo, mas foi surpreendente e encantador. 



Chego ao final de mais uma aventura contando que a marchinha “Paris” do carnaval do Rio antigo até que faz algum sentido. A primeira vez que pus meus pés na Cidade Luz disse que a música era equivocada no trecho em que dizia “Paris, Paris, teu rio é o rio Sena / Paris, Paris, tem louras, mais não tens morenas...”. Equivocada, pois, como uma cidade multicultural e cosmopolita, o que mais tem é gente diversificada. Não sei se sempre foi assim, mas, supondo que a mensagem se estenda a toda França, aqui a música faz sentido. Em Clermont-Ferrand, o fenótipo não é muito variado e o meu cabelo é motivo de espanto. Estou me acostumando às pessoas olharem demais, perguntarem se é natural e elogiarem também. O mais engraçado é que quem pega o mínimo de intimidade já vem logo meter a mão! Hahahaha! Que comédia!
  

5 comentários:

  1. Amei a parte do "Parecia que ia trombar com Cesar na esquina seguinte" e "parecia a cantareira"!!! Choreiii! Hahahhahaha Muito bom ver que voce esta aproveitando tudo e mais um pouco e ainda me sentir viajando com voce!! Maravilhoso, posso dizer que matei... Hmm... 1% da saudade! Espero que voce continue com seu olhar otimista, que se encante ainda mais e mais... Fazendo a vida valer muuuuito a pena! Amo vc e amo saber que está feliz!!! Mil beijosss da Bibs que combina muito com esse ambiente francês, ja que ai é o lugar das loiras!! (Eike loucura!!!!) kkkkkkkkk

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  2. Fantástico, Ci! Esse blog tem q virar um livro e uma exposição de fotos!!! Curadoria impossível, tal qual a escolha de Sofia! ;) Mas deixo registrado meu especial encanto com a foto da fechadura (enquanto lia pensava: "ela tem que ter tirado uma foto! Por favor! Por favor! Hahaha!); a foto do Vaticano visto através de uma grade ; e a foto de um lago? Em preto e branco... Uau! Sou sua fã! Te amo!

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  3. Realmente Cissa, é delicioso ler suas experiencias, impossivel nao viajar na sua viagem..!!! Gostei da sua observaçao qto ao Trasteveris, um dos recantos de Roma que apaixonei-me..!!! Suas fotos estao explendidas, parabens, beijo grande

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