Tendo bem utilizado as férias da Semana do Estudante e dois finais de semanas
esparsos, durante o mês que passou, desapeguei um pouco de Clermont-Ferrand.
Minhas pernas me levaram à Barcelona (Espanha), Bruxelas, Bruges (Bélgica),
Amsterdam (Holanda), Strasbourg e Lyon (França). Diferentes paisagens, adversas
temperaturas, deliciosas comidas, novos (e alguns bons e queridos) amigos.
Como quase que planejado, desfrutei dos últimos raios de sol do verão na incandescente Espanha. Não só de temperatura, como de juventude e de contato; causando imediata empatia. A absoluta atração pelo país foi intensificada pelo fato de estar indo ao encontro de uma pessoa querida, não vista há alguns meses. Maior que alegria de encontrar um amigo em um lugar distante, foi o fato de se tratar de alguém tão especial, com um super astral, naquela terra abençoada. Se me perguntassem como estava o meu estado de espírito, eu não saberia dizer nada além de: radiante. Sem pressa de conhecer pontos turísticos, ir a um ou outro lugar específico, queríamos conversar, falar português (nossa, como é bom!), rir, mais que isso, gargalhar de doer a barriga, de escorrer lágrima, beber e brindar nossa vitória do intercâmbio e o nosso encontro. Outro dia foi em Niterói, dessa vez, era em Barcelona.
Como quase que planejado, desfrutei dos últimos raios de sol do verão na incandescente Espanha. Não só de temperatura, como de juventude e de contato; causando imediata empatia. A absoluta atração pelo país foi intensificada pelo fato de estar indo ao encontro de uma pessoa querida, não vista há alguns meses. Maior que alegria de encontrar um amigo em um lugar distante, foi o fato de se tratar de alguém tão especial, com um super astral, naquela terra abençoada. Se me perguntassem como estava o meu estado de espírito, eu não saberia dizer nada além de: radiante. Sem pressa de conhecer pontos turísticos, ir a um ou outro lugar específico, queríamos conversar, falar português (nossa, como é bom!), rir, mais que isso, gargalhar de doer a barriga, de escorrer lágrima, beber e brindar nossa vitória do intercâmbio e o nosso encontro. Outro dia foi em Niterói, dessa vez, era em Barcelona.
Pegamos a cidade em festa por conta da disputa do clássico
Barcelona x Real Madrid. No sábado, 26 de setembro, assistimos à partida, que terminou 2 x 1, para os donos da casa,
sentados em um bar perto da praia. Ele comendo uma paella e eu, calamares,
bebendo sangria e ouvindo os comentários nervosos dos catalães, perdoando cada
ausência do garçom, que não tirava os olhos da televisão. Entre uma garfada,
uma palavra ou outra, escrevia alguns postais, ria de algum comentário
engraçado, genuinamente feliz por estar ali.
Ir pra Barcelona me deslocou profundamente do meu último
posto. Senti forte a diferença de culturas. Como a Espanha é envolvente, jovem,
alegre! Inclusive à noite, chamou a minha atenção o quanto aquele lugar era
vivo. Muita festa! Eu que não sou muito de noitada, fiquei maluca. Quanta
opção! Desde o primeiro rolé a beira mar, senti que a energia daquele lugar era
outra. Olhei para o alto e vi a bandeira balançando. Confirmei que tinha me
transportado. Foi nesse instante, que me dei conta de que sempre que viajo,
guardo o momento em que vejo a bandeira do país trepidar no alto de alguma
construção pela primeira vez. Parece que naquele exato momento a minha ficha
cai e eu percebo onde estou.
Entretanto, por um momento achei que o meu encantamento pela
cidade havia acabado. Aconteceu quando o meu amigo foi embora. Senti uma
tristeza profunda de permanecer sozinha por mais dois dias, naquela cidade sem a
sua companhia. Queria que o tempo passasse rápido, que chegasse logo o momento
de ir para a Bélgica, pois, lá sim, eu começaria sozinha, então não haveria
essa frustração. No entanto, por obra do destino, minhas lamúrias não duraram
uma tarde. No hostel, à noite, conheci uma penca de brasileiros
simpaticíssimos. Mesmo estando convicta de que iria pra cama cedo, sem sair,
para acordar cedo no dia seguinte e aproveitar o dia melancolicamente, fui
convencida (sem maiores esforços) a sair com aquela galera animada e boa praça
que tinha acabado de conhecer. Eu, que não aguento uma cerveja e um sorriso,
fui para mais uma noite doida, com pessoas maravilhosas, que salvaram o resto
da minha viagem.
Quebrando a perfeição daquela cidade, achei Barcelona muito cara. Come-se bem – em quantidade e qualidade; muito melhor que na França, diga-se de passagem –, mas paga-se muito caro no turismo, de modo geral. Recusei-me a entrar na Catedral do Bairro Gótico, que cobrava €6 pela visita. Paguei revoltada, €13,50 (preço de estudante) para entrar na Sagrada Família, o famoso templo, desenhado pelo arquiteto catalão Antoni Gaudí. Tudo bem que ambas merecem arrecadar fundos para a restauração, mas são apenas igrejas! Um absurdo! Depois disso, abri mão de entrar em La Pedrera, justamente pelo preço alto, e subi no Parc de Montjuïc a pé, ao invés de pegar o teleférico. Dei mole de não ter ido ao Parc Güell e à casa Batlló, estava deixando as vontades momentâneas me levarem, sem panos e planos... Ficarão para a próxima.
Tive a primeira experiência de mergulhar no Mediterrâneo.
Que prazer! Estava com saudade da praia. Há mais de três meses não punha meus
pés na areia e não imergia em água salgada. Mesmo gelada, não conseguia
retornar a terra. Queria ficar ali, entre um mergulho e outro, sorrindo e
agradecendo. Praia, mar, sol! Que momento! Agora sim, eu estava preparada para
o inverno rigoroso, com seus muitos graus abaixo de zero e suas tempestades de
neve.
Comi salivando e apreciando muito a última paella, de
pescado, tomando uma blanca (cerveja com suco de limão), pensando, sorrindo e
escrevendo... Sempre! Deixei o país ainda borracha da última bebedeira, na
madrugada, andando por La Rambla, com a mochila nas costas, rumando ao ponto de
ônibus que me levaria ao aeroporto. Que tristeza de deixar aquele lugar e que
alegria de sair com aquele sentimento. Estava empolgada com o que viria pela
frente.
Foi dura a chegada em Bruxelas. A saída de madrugada de
Barcelona, os estresses no aeroporto El Prat, por conta da burocracia da
estúpida Ryan Air (que companhia ridícula!), somaram-se ao cansaço da noite não
dormida, junto a uma ressaca que começava a dar as caras, ao fato do aeroporto
de Charleroi ficar à uma hora de Bruxelas e mais aquele trabalho básico de
chegar na estação de trem, pegar o TRAM para o hostel, descobrir onde ele
ficava... Ao chegar, fiquei sabendo que o check in era somente às 15 horas
(deviam ser umas 11hs) e não me restava nada além de ir pra rua, conhecer a
cidade, até a hora de entrar no quarto. Por sorte, conheci uma brasileira super
tranquila, que viajava sozinha e rodamos a cidade juntas. A Grand’ Place é de
tirar o fôlego. Os prédios parecem palácios, com a arquitetura imponente,
detalhada e preciosa, digna de um país que ainda é governado por uma monarquia,
ainda que parlamentar.
Quando voltamos ao hostel, encontrei um menino que conheci
em Barcelona na recepção. Que coincidência! Depois do merecido banho, fomos os
três para a rua, comer e conhecer o famoso bar da Delirium, uma marca de
cerveja belga, que já ganhou prêmio de melhor cerveja do mundo com sua pilsen
Delirium Tremens. Mesmo estando numa cervejaria gigantesca, com um andar
reservado à chopp, outro às cervejas em garrafa, tendo entrado para o Guinness
Book, com mais de 2000 variedades, não consegui me deleitar como gostaria
naquela terra dos sonhos. A vida intensa em Barcelona, com noites viradas,
cachaça, alimentação porca, junto com a mudança brusca de temperatura e clima,
me derrubaram. Eu estava arrasada de gripe, nariz entupido, tossindo... Ruim
mesmo! Minha saúde me traiu e a gripe me deixou baleada até o final da viagem.
Saí de Bruxelas carregando remédio de gripe que ganhei de um
amigo. Achei super legal, pois me lembrei de que tinha acabado de fazer o
mesmo, com outra pessoa, em Barcelona. Existe uma cumplicidade entre viajantes,
pessoas que acabaram de se conhecer, que é incrível. Há uma gentileza de graça.
Um carinho invisível por quem você nem conhece direito, não sabe de nada, mas
não impede de dizer: “toma, fica com o resto pra você”. Bacana, né?
A chegada em Bruges deu-me uma pequena aflição por ser a
primeira cidade onde a língua falada não era espanhol, francês, ou inglês, era
flamengo. Mas foi tranquilo. Peguei um ônibus na porta da estação de trem,
pedi, em inglês, ao motorista que me deixasse em tal lugar e dei sorte de ter
dois australianos pertos de mim, indo pro mesmo albergue. Perfeito! Cheguei a
tempo de tomar banho e ir para o tour pela cidade com a galera do hostel. Não
interagi com ninguém. Só tinha anglófono e eu tenho muita preguiça de falar
inglês. Foi legal, mas um pouco cansativo! No final eu tava morrendo de fome,
cansada e (ainda) doente. Comecei a sentir os vestígios de inverno: as poucas
horas de luz dificultam turistar e fazia muito frio.
No dia seguinte, quando fui andar sozinha, me apaixonei pela
cidade. Apesar de não ter o mesmo céu azul do dia anterior, me senti
extremamente acolhida por aquele ambiente flandrino. A Veneza do norte me
envolveu não só com os seus canais, pontes e casinhas delicadas, como pela gastronomia.
A Bélgica produz, com excelência, as três coisas mais formidáveis já criadas
pelo homem: cerveja, batata frita e chocolate. Não tem como não ser feliz nesse
lugar!
Entre uma voltinha e outra, parava numa barraquinha na Markt, pagava
cerca de €2 na porção pequena (e vinha muito) das famosas batatas belgas com um
molho (dentre várias opções) para acompanhar. Era de comer lambendo os beiços.
Eu gosto de doce, mas não sou fã. Então, só uma vez, fui a uma das muitas
chocolatarias artesanais e escolhi no peso algumas opções que eu queria provar.
Nossa... Que momento foi aquele, sentada em um banquinho à beira de um canal, provando
um a um, sentindo os diferentes sabores de cada chocolate. Acho que nunca mais
conseguirei comer Cacau Show.
Neste mesmo dia, à noite, sentei-me no balcão do bar do
albergue para tomar umas cervejinhas. Meu nariz já não estava tão entupido e
percebi que daria para apreciar aquelas maravilhas. O cardápio era imenso e a
um preço sincero, sem tentar roubar os hóspedes que ali iam se embriagar. Com o
mesmo preciosismo de cervejarias, cada iguaria pedida vinha num copo especial,
exclusivo para aquele tipo. Comecei apontando às que eu conhecia e queria
reviver o sabor, depois para às indicadas pelos amigos, seguindo pela maneira
mais bêbada de tapar os olhos e girar o braço com o indicador apontando a
próxima vítima. Enquanto sentia o corpo ficar cada vez mais leve e sorria com
mais facilidade, conheci uma pessoa incrível, que me fez pensar o quanto tudo
está conectado e tem sentido. Um menino que eu encontraria depois, na parada
seguinte, em Amsterdam, e me traria boas músicas e novos aprendizados. Mas isso
é conversa para depois.
Eu, que não aprendo com meus erros, criei a tradição de
mudar de cidade morrendo de tanta ressaca. Era praticamente uma sentença de que
eu viajaria vomitando todo aquele álcool no de caminho de Amsterdam. Tendo
ficado conversando (e bebendo) durante a madrugada com uma rapaziada que
conheci, tive apenas duas horas de sono antes de quitar o hostel. Como sairia
muito cedo, os ônibus ainda não estariam rodando. Então deixei reservado um
taxi para me levar à estação. Cadê que ele apareceu? Por um momento de pânico,
achei que perderia o trem, por conta de uma empresa de taxi nada confiável. O
recepcionista do albergue conseguiu chamar outro, apesar das esperas serem de
mais de 20 minutos (sim, para a minha surpresa, em Bruges, apesar da cara de
cidade parada, tem noitadas, o que aumenta a demanda dos taxistas pela
madrugada). Todo meu cuidado foi insuficiente, visto que descobri, na
experiência, que a Bélgica é danada para atrasar. Minha viagem de trem para
Amsterdam tinha duas conexões, em Antwerpen e em Roosendaal. Pois bem, o trem
que ia de Bruges a Antwerpen atrasou 40 minutos, a ponto de me fazer perder já
a primeira das conexões. Esgotada, sem poder dormir nos trens, para não perder
a parada, vomitando a cada banheiro que encontrava no caminho, até mesmo em
lixeira de estação, quando não dava tempo, com a cabeça rodando, tive que
esperar os trens seguintes em Antwerpen e Roosendaal, para finalmente chegar a
minha saudosa Amsterdam. Foi duro, mas deu tudo certo!
Em Amsterdam, peguei o TRAM que me levaria ao meu novo destino. Diferentemente, da falta de conforto de albergue, minha última parada seria na absoluta comodidade de uma casa de família! A sorte de poder contar com gente que tem amigo que mora longe e aberto a receber visita estranha permitiu-me passar alguns dias no maior aconchego desde que pus os pés para fora do Brasil. Após fazer minhas pequenas viagens, voltar para minha casa em Clermont, já me traz a sensação de “lar, doce lar”. No entanto, minha casa é um quarto, né? O lugar em que me hospedei colocou meu quartinho no chinelo em termos de acolhimento e bem estar. Aquilo sim era um lar!
Por ter anotado o endereço errado, fui parar em outro número
da rua em que procurava. Entretanto, consegui resolver a situação com
facilidade, graças à gentileza holandesa. Eu já tinha me esquecido o quanto é
gritante a diferença daquele povo, quando comparado aos franceses. E olha que
já ouvi a respeito da educação holandesa de muitas pessoas! Enquanto na França
fariam cara feia e negariam sem nem terminar de escutar o que eu dizia, na
Marnixstraat, a vendedora de uma loja infantil abriu-me um sorriso e com toda a
delicadeza quis me ajudar. “Pelo seu rosto eu vi que você precisava de ajuda”
ela disse assim que eu acabei de falar. Além de me deixar usar o computador,
para enviar uma mensagem a quem me esperava, emprestou-me também o celular. Assim,
de graça, a uma desconhecida, com mochila nas costas que estava perdida. Quero
muito retribuir a algum viajante desnorteado que venha cruzar o meu caminho.
Aproveitei o conforto para descansar e poder aproveitar a
cidade. Desta vez, com calma. Sem aquela pressa de turista que quer fazer tudo
ao mesmo tempo. Sem estar com 100% de vigor, por conta da saúde baleada, até
que consegui curtir, no meu ritmo, tudo o que Amsterdam me oferecia. Só de
estar ali, eu já estava feliz. Não me cansava de passar por aqueles canais a pé
ou de bicicleta, que peguei emprestada quase todos os dias, ouvindo música
alta, para ignorar as trezentas buzinas que soavam a cada 100 metros.
Entre um coffee shop e outro, conhecia novos sabores, após
ouvir indicações dos doidos que cruzavam o meu caminho. Com quanta gente
diferente conversei! Perdi até as contas... Rodei muito por aquelas ruas,
descobrindo novos cantos, que não me lembrava de ter passado da última vez,
encontrando conhecidos dos outros dias de viagem e provando novas iguarias.
Essa cidade é um crime para quem quer emagrecer. Uma delícia maior que a outra,
oferecida a cada dez metros. O comércio gastronômico trabalha bem com o dos
coffee shops, que jogam nas ruas olhos dilatados e bocas ávidas por laricas. Comida
em Amsterdam não é necessidade, é um desejo, é gula. Depois de ter rodado por
fast food tailandês, outra dose de batatas belgas e churrasco argentino,
deliciei-me num fast food vegetariano. Já conhecia de nome, mas nunca tinha me
arriscado à prova. O Maoz me faz salivar cada vez que me lembro do gosto
daquele falafel com legumes, saladas e molhos saborosíssimos.
Minhas noites foram bem aproveitadas com uma noitadinha de
rock e pub na Red Light em boa companhia. No primeiro dia, curti um show da
banda de um dos meus anfitriões. Chega a ser difícil imaginar algum canto em
Amsterdam que não seja turístico, mas lá estava eu, com a galera local,
adorando aquele clima. No dia seguinte, encontrei com um amigo, aquele de
Bruges, e tive uma das noites mais agradáveis da viagem. Quanta conversa boa,
construtiva, com uma pessoa superinteressante, cabeça aberta e de bom gosto.
Saí com músicas e histórias anotadas no meu caderninho, que devem ser contadas
pessoalmente. Voltei pra casa pedalando, imaginando o que seria de mim sem as
minhas viagens. O quanto de gente bacana eu não deixaria de conhecer se não
fosse por elas...
Voltei para Clermont-Ferrand cansada por aqueles onze dias, que
mais parecia ter sido um mês. Todavia, agradecida, satisfeita com todas as
barreiras ultrapassadas, carregando o maior sorriso do mundo, com o coração
repleto de amor, por tudo de novo que veio para mim. Ainda no clima dessa troca
de cidades, mal cheguei a casa, desfiz mala, lavei roupa e pisei na estrada
novamente. Desta vez, norte da França, quase fronteira com a Alemanha. Fui
visitar uma amiga e conheci a cidade de Strasbourg.
Pertencente à Alsácia, região que, assim como a Lorena, foi motivo de disputas entre França e Alemanha por mais de 15 séculos, quando essas nações ainda nem existiam. Ela traz fortes características alemãs ao cenário francês não só pela arquitetura marcante, como o fato de todas as ruas estarem nomeadas nos dois idiomas, perceber-se marcas da Reforma Protestante e ser coalhada de cervejarias artesanais. Tendo passado apenas um final de semana, já percebi a alma hippie da cidade. Repleta de lojas de estilo “ripongo-alternativo”, a cidade é repleta de bicicletas e jovens que dão um tom diferente ao céu cinza cotidiano. Por se situar nas montanhas, é comum o tempo mudar com frequência. Eu, que já tinha previsto chuva para todos os dias, não deixei que o mal tempo estragasse o meu passeio. De guarda-chuva na bolsa (ou na mão, quando precisava), os pingos d’água não me incomodaram em nada, nem estragaram as minhas fotos, participando delas, inclusive. A partir do momento em que fui já esperando por eles, não haveria o elemento surpresa, que é o causador de todos os males.
Rosetei sozinha no primeiro dia, enquanto a minha amiga
trabalhava. Mesmo tendo um mapa na bolsa, conseguido com o seu companheiro de
piso, não ousei abri-lo sequer uma vez. Sabia que a cidade era pequena e queria
a boa sensação de me jogar sem saber para onde eu estava indo. Ir descobrindo o
que me esperava por conta do acaso e não por marcações, círculos no mapa e
obrigações turísticas. Eu ando meio rebelde em relação a isso. O destino me
levou ao Musée Historique de Strasbourg. Foi um achado. Uma superexposição a
preço de banana me deixou embasbacadas em como cultura pode ser muito bem
transmitida, quando se tem incentivo. Quando paguei €3,50 (preço de estudante)
para entrar, imaginei que encontraria uma exposição minúscula e meia boca. Caí
pra traz ao ver que se tratava de um museu gigante, com uma exposição
permanente linda, muito interativa, cheia de curiosidades e conhecimento. Todos
os elogios são pequenos para definir o trabalho do curador e dos museólogos
dali. Enquanto caminhava pelo labirinto, não parava de pensar que tinha pagado
dez euros a mais para entrar numa igreja, em Barcelona.
Em seguida, dirigi-me à Corte Europeia dos Direitos Humanos,
para conhecer o lugar onde minha amiga trabalha. À noite, fomos para um jantar
na casa de um amigo dela, também do tribunal. Em se tratando de uma amiga
holandesa, que conheci na Argentina, que agora mora na França, o jantar não
poderia ser mais internacional. Com anfitriões e pratos ingleses, sentei-me a
mesa com gente da Espanha, Itália, Hungria, França, Eslováquia, sem falar nela
da Holanda. Foi um máximo as conversas que consegui ter, apesar do meu inglês
ser extremamente inferior aos deles, o que me fazia ficar, na maior parte do
tempo, calada, só sorrindo, aparentando ser tímida e fechada. Ó céus, que não
me conhece que me compre! Percebi que, diversamente dos encontros que estou
acostumada no Brasil, só tinham dois celulares em cima da mesa, que ninguém
tocava. A única vez que uma menina pegou por cinco minutos para mandar
mensagem, já foi interpelada por outra que dizia: “você precisa voltar pra
festa”. Sem comentários.
No último dia, fui com a minha amiga a um bar, onde a
especialidade é a tarte famblée, uma espécie de pizza, numa massa bem fininha e
crocante, prato alsaciano onde o tradicional é servido com queijo, cebola,
bacon e champignon. Muito maravilhoso! Só não aprovei a falta de educação dos
funcionários do lugar. Quando chegamos, estava cheio, mas sem filas.
Encontramos uma mesa vazia e nos sentamos. Depois de algum tempo esperando
sermos atendidas, veio uma garçonete estúpida, que, na maior grosseria, demandou
quem foi que nos autorizou a sentar naquele local, visto que a mesa era para
quatro pessoas e nós éramos apenas duas. Disse que tinha gente esperando mesa
(mentira! As pessoas devem ter chegado durante a demora da vinda daquela
maldita.) e que nós deveríamos aguardar. Levantamos-nos envergonhadas com a
situação criada por aquela rameira que gritou com a gente e fomos esperar no
balcão.
Eu demorei a reagir, pois, como estava conversando em inglês, meu pensamento em francês estava lento. Quando me dei conta do que tinha acontecido, dei um ataque, também aos berros (já estou me garantindo no francês, a ponto de não levar desaforo pra casa), para que os outros clientes escutassem. Disse que ela havia sido extremamente mal educada e grosseira desnecessariamente, visto que quando chegamos não havia sequer uma pessoa esperando, ninguém nos atendeu e não poderíamos imaginar que duas pessoas são proibidas de se sentar numa mesa para quatro. Ela ficou assustada com a minha reação, pediu desculpas e em dois minutos conseguiu uma mesa para nós. A minha amiga, que ficou com cara de paisagem, sem entender nada da discussão, me perguntou o que eu tinha falado e, quando eu disse, ria e me abraçava sem parar, dizendo que eu era demais. Ela contou que está acostumada a receber uma patada atrás da outra, sem conseguir se defender por não dominar o idioma, e que todos os estrangeiros que trabalham com ela detestam os franceses por situações como essa.
Passado o trauma, conseguimos aproveitar o pouco tempo que nos restava, muito felizes pelo reencontro. Fazia quase três anos que não nos víamos, conversamos muito sobre o que passou em nossas vidas nos últimos tempos. Apesar do distanciamento físico, estivemos sempre conectadas e o não alterou o afeto, o carinho que sentimos uma pela outra. Despedimo-nos na plataforma do trem, sem ter a menor ideia de daqui a quanto tempo vamos no rever e onde será que isso vai ser. Só resta aguardar o que a vida nos reserva.
Depois disso, sosseguei o meu facho em Clermont por um final
de semana, pois no seguinte tomei o rumo que leva à Lyon ao encontro de outro
amigo. Sem a menor dor no coração de pisar na cidade que era a minha intenção
de intercâmbio, graças às pessoas mais maravilhosas de Clermont-Ferrand, que
conheci no último mês, aproveitei a estadia no berço da cultura francesa.
Sem saber se queríamos conversar ou olhar a cidade, pois
fazia dois meses que não nos víamos, conseguimos mesclar os dois e fazer tudo
junto. Começamos a visita pelos vestígios romanos, no alto da colina de
Fourvière. Conhecemos a tripla Basílica de Notre-Dame de Fouvière de estilo
romano-bizantino. Ela é tripla, pois além da igreja principal, existe uma
subterrânea e uma lateral, que eu não faço a menor ideia do por quê! Depois,
não conseguimos entrar no teatro romano, pois este estava fechado, por conta de
uma nevasca que teve em Lyon na semana anterior. Que pena! Tomamos o mesmo
funicular que nos levou ao topo, para descer para a Vieux Lyon (Velha Lyon). Os
bairros de Saint Jean, Saint Paul e Saint Georges são medievais com
características renascentistas, onde é possível observar a influência italiana
na arquitetura.
No bairro de Saint Jean, encontra-se a Catedral de Saint-Jean, que começou a ser construída em estilo romano e acabou em gótico. Trata-se da igreja mais importante de Lyon. Durante a Reforma Protestante, os santos que ornamentavam a fachada foram decapitados. Depois, na Revolução Francesa, foram destruídos de vez. Em 1944, quando as tropas aliadas chegaram bombardeando, ao final da Segunda Guerra Mundial, alguns vitrais foram estilhaçados. Além disso, a catedral abriga um dos relógios astronômicos mais antigos da Europa, de 1383, época em que ainda se acreditava que o sol girava ao redor da Terra.
No bairro de Saint Jean, encontra-se a Catedral de Saint-Jean, que começou a ser construída em estilo romano e acabou em gótico. Trata-se da igreja mais importante de Lyon. Durante a Reforma Protestante, os santos que ornamentavam a fachada foram decapitados. Depois, na Revolução Francesa, foram destruídos de vez. Em 1944, quando as tropas aliadas chegaram bombardeando, ao final da Segunda Guerra Mundial, alguns vitrais foram estilhaçados. Além disso, a catedral abriga um dos relógios astronômicos mais antigos da Europa, de 1383, época em que ainda se acreditava que o sol girava ao redor da Terra.
Há duas curiosidades da cidade, que eu li num blog antes de
viajar, impressionaram-me muito ao encontrar. A primeira delas são as janelas
tapadas. Durante o passeio por essa parte antiga é comum encontrar alguns
prédios que tem algumas ou várias de suas janelas fechadas com cimento, mas
ainda com a moldura a mostra. Isso existe, pois, durante a Revolução, foi
criado um imposto sobre portas e janelas. Foi a maneira que os revolucionários
encontraram para fazer os mais ricos pagarem mais. Estes, por sua vez, saíram
fechando-as, para não desembolsar a bufunfa, contrariando os insurretos.
A segunda delas está relacionada aos Traboules, palavra de
origem lionesa, que designam as passagens secretas que fazem a fama na cidade. A
grande maioria está nesses bairros antigos. Elas existem desde que os imóveis
foram construídos, isto é, desde a Idade Média. Sua função é ligar os prédios
de uma rua à outra, para cortar os quarteirões imensos e as construções
coladinhas. Alguns são privados, mas muitos são públicos. Os moradores dos
edifícios que existem em cima dos traboules, que permitem o trânsito por eles,
recebem auxílio do governo local. Para encontrar um deles basta ficar de olho.
Porta rústica é sinal de traboule.
Fiz uma visita ao Musée des Frères Lumière (Museu dos Irmãos Lumière) pertencente ao Institut de Lumière, que engloba, além do museu, uma sala de cinema e uma biblioteca temática. É simplesmente tão fantástico o descobrimento da criação do cinema e o desenvolvimento da fotografia a cores, produzidos pelos irmãos Auguste e Louis Lumière, que chega a dar raiva da nossa insignificância e nenhuma contribuição para o mundo. Trata-se de gênios. Eu olhava os equipamentos, lia como é que eles funcionavam e mesmo assim não conseguia entender como alguém tinha chegado até ali. Tudo isso por cismas, como querer retratar o movimento, a fumaça, coisa que a fotografia não permitia. É de aplaudir de pé.
Gulosa que sou não posso deixar de falar que o prato que me
fez revirar os olhos foi comido no Marché du Noël, típica feira natalina que
tem em várias cidades francesas no período que antecede ao natal. A iguaria de
apenas €5,00 chama-se Patabert. É uma espécie de batata inglesa. A batata vem
assada, recheada com tomate, cebola, frango ou bacon, com camembert fundido por
cima e queijo emmental ralado. Para quem é agressivo e tem coragem de tornar
esse manjar dos deuses ainda melhor, é possível acrescentar uma manteiga de
salsinha por apenas €0,50. Com o detalhe de que a manteiga é colocada antes do
recheio e a moça ainda tem o cuidado de mistura-la com a batata que já está
descolada da casca. É de passar na cara de tão bom!
Lyon, esse gelo de cidade, banhada pelos rios Rhône e Saône,
traz uma surpresa no domingo de manhã. A beira do rio Rhône, do lado da
península, corre uma feira que me deu saudade de casa. Caminhei sentindo cheiro
de frutas e legumes frescos, ouvindo os gritos dos vendedores oferecendo promoções
instantâneas comuns nas xepas. “Allezzz!
La rapport! Cinq euros pour finir! Alleeezzz! Tout le plât de champignon un
euro! Allezzzzz!!”. Os tradicionais saucissons, muitos e variados
champignons, os nossos “frangos de padaria” rodando naquela estrutura metálica,
servidos com batatas cozidas, flores, peixes e crustáceos, também davam lugar às
barracas de comidas do mundo. Depois de passar por empanadas chilenas, comida
chinesa, e comida árabe/judaica, dei de cara com uma iguaria que pronunciei no
alto e bom português: “bolinho de bacalhau!!!”. Assim que me ouviu, a
vendedora, portuguesa, apressou-se em dizer com aquele sotaque lindo e
carregado: “Vamos, ande logo! Pode pegar. São os últimos. O que estás
esperando?” Mesmo tendo acabado de comer, não aguentei. Comprei dois e comi
rezando...
Acabo de me dar conta de que daqui a uma semana, faltarão
apenas dois meses para voltar pro Brasil. Estou assustada de como o tempo passa
rápido e como ainda tem muita coisa pra viver nesse período que me resta.
Ontem, andando por Clermont-Ferrand, percebi que o céu estava limpo, anunciando
o dia ensolarado de hoje. Vi surgir a primeira estrela do céu e lembrei-me
daquela frase de criança: “Primeira estrela que vejo, faça aquilo que desejo.
Eu desejo...”. Quando fui pedir, vi que não tinha nada. Eu estava completa. Só
queria agradecer. Não tenho palavras
para explicar a sensação, gastei todas que tinha nesse texto, imenso outra vez.
Sem mais o contar, encerro por aqui.










Legal demais Cecília! Deu até saudade de voltar pras zoropa!
ResponderExcluirNos encontraremos por esse mundão doido sem porteira!!
Quando vier pra BH, tem que conhecer a feirinha da Savassi!
Bjos
Marco Túlio
Deixou pra escrever tudo de uma só vez,,,,,poxa..!!!!!!!!!!as fotos estao maravilhoso, beijo
ResponderExcluirIrmã! Seu blog é um desbunde! (como diria a Dona Mercia) Estou profundamente emocionada com a sua alegria, coragem, sensibilidade para viver intensamente e sentir todas as cores, formas, cheiros e sabores com mestria! Estou louca de saudades da sua gargalhada e de vontade de te abraçar!!! Te amo!
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