segunda-feira, 1 de agosto de 2011

L’art sauvera le monde

Fiedor Dostoievsky afirmou: “A arte salvará o mundo”. Não sei por que, mas eu concordo com ele. Em apenas dois dias, domingo e segunda, tive contato com a arte em suas diversas facetas e posso afirmar ter alcançado o ápice da viagem, até agora. Não sei se mais ligada, ou mais louca, mas com certeza mais “rhynoceros” (como Salvador Dalí, no filme Minuit à Paris).
Mesmo tendo ido dormir quase 4h da manhã no sábado, depois de um aniversário, no pub australiano Café Oz, na Châtelet, acordei disposta no domingo, para um passeio um tanto distante. Fui com algumas meninas do curso ao Château de Vincenes, um castelo medieval, do século XIII, que fica no final da linha 1 do metrô, na zona 2, de Paris. Logo que cheguei, fiquei fascinada. É igual à de filme! Aqueles muros gigantesecos em volta, encostados em valas profundas, para dificultar a entrada dos inimigos. Somente duas pontes ligam o mesmo à sua área externa. Após a entrada, é possível ver à Igreja e a Torre. Fomos então, para a segunda, que era a moradia do rei e de sua família, assim como seu local de trabalho. Além de outras dinastias, foi nesse castelo que morou Carlos V. O mesmo foi utilizado como moradia real até o século XVI, quando virou uma prisão, que, por sua vez, cumpriu esta função até a Segunda Guerra Mundial. Nela, foram presas figuras célebres, como Denis Diderot, um dos autores da Enciclopédia, importante obra difusora das idéias iluministas. Tem, inclusive, uns rabiscos de presos nas paredes da prisão, que ainda estão conservados. Fiquei pensando quanto tempo demorava para construir um castelo daqueles. Imagina o trabalho! Uma parte que eu fiquei viajando foi a sala dos tesouros. Fiquei imaginando vários baús com cordões, pedras preciosas e moedas de ouro pulando pra fora. A sala só tinha uma chave, que ficava com o rei. Quando ele viajava, ele selava a porta com cera, para saber se alguém o tinha roubado durante a sua ausência. Demais! 




Na saída, no momento em que íamos para o Bois de Vincenes, que é o bosque que tem em frete ao castelo, para passear, encontramos a rua fechada e cercada. Por sorte, pegamos o Tour de France passando por lá. Este é um tour de bicicletas, que acontece na França todos os anos e tem duração de três semanas. Antes daquele grupo denso de ciclistas atravessar, passam diversos carros de pessoas, de alegorias, de propagandas, com as demoiselles dançando, ou com uns mascotes super cafonas. A maioria joga amostras grátis para o público, que fica encostado nas grades, esperando as bicicletas passarem. Foi nesse momento, que eu fiz uma daquelas coisas sem pensar, que depois eu me pergunto por que eu sou assim. Quando estava passando um carro de uma marca de sabão em pó, eu tive uma rápida lembrança de que precisava lavar roupa, mas não tinha comprado o mesmo. Então eu nem pensei duas vezes, sacudi os dois braços em cima da cabeça e berrei pra Luíza, minha companheira de quarto: “Corre, Luíza!! Corre!! Pega o sabão em pó, eles estão jogando!” e saí correndo igual um bandido em fuga. Mas não rolou. Não consegui. Quando eu voltei, as pessoas estavam rindo, falando “não acredito que você fez isso”.


Conseguimos chegar à entrada do bosque, passando por debaixo da avenida, pelo metrô. Pagamos €2,50, o preço da meia, e entramos. O bosque estava cheio, porque no dia 1º de junho, começou aqui na França o festival de jazz. Em todos os jardins, parques e bosques estão ocorrendo vários programas culturais ligados ao jazz, além de outros estilos de música, que vão até o dia 25 de setembro. Então, assim que entramos, as meninas foram procurar um banheiro e eu parei numa apresentação de três músicos, que tocavam acordeão, violoncelo e um instrumento de percussão, que eu não identifiquei qual era. Demais! Fiz um vídeo e já está no Youtube: http://www.youtube.com/watch?v=rMXBgx-0eS8&feature=player_profilepage. O público era variado, mas a maioria estava com as suas cestas de pique-nique, uns sentados na grama, outros em cadeira... Bem agradável.


Então, fomos almoçar em um restaurante que havia por lá. Ele não era barato não, mas também não era caríssimo. A comida deu uns €17 pra cada um. Mas também, atendimento de primeira, garçon educado, lugar todo bem arrojado, no meio das árvores, uma maravilha! Depois fomos dar um bordejo. No centro do bosque, tinha um espaço circular enorme, estava ocupado por um palco, onde teria a apresentação principal. Em frente a ele, um lago, com umas esculturas modernas no meio e grama em volta, onde diversas pessoas estavam sentadas, e atrás da grama, uma grande quantidade de flores. Muitos e muitos girassóis. No lago, tinham alguns cisnes e patos, que pareciam que estavam junto com as pessoas, fazendo pique-nique. Eles vinham na beirada comer na nossa mão. Muito doido! Cara, quando começou a musica, parecia que eu estava em um filme. Ainda mais com aquele dia bonito; tinha aberto o maior sol. As meninas foram andar mais um pouco e eu fiquei estirada na grama, junto com as abelhas (muita flor, muita abelha, não tem como escapar). Uma delícia!






Como o dia estava corrido, tivemos que sair de lá, para voltar pro centro. Fomos para o Jardin de Luxembourg, no Quartier Latin. Lá, ao invés de jazz, estava rolando música clássica. Chegamos na hora de um concerto homenageando Chopin. Esse parque, sim, estava LOTADO! De longe, eu preferi o Bois de Vincenes; pouco turista, mais tranquilidade e grama pra deitar. Tomando um sorvete, caminhamos até achar um banco na sombra. Comemos e depois eu quis descansar. Ficamos em um muro, onde, a leste estava o concerto, a norte, o Château de Luxembourg, a noroeste a Tour Eiffel e a oeste, um lago, também com centenas de pessoas em volta. Depois de tomar a minha Perrier, pra tirar o gosto do sorvete, me deitei no mesmo, que tinha uns 50 centímetros de largura, e adormeci sob o sol. Depois tive que ouvir da Larissa, uma das meninas falando: “Cissa, só você pra dormir no muro”. É o cansaço! (ou é Paris?)



Segunda-feira foi outro dia fora do normal. Pra começar, descobri que sou uma carioca de meia tigela. Estava tão branca, que consegui ficar queimada, na meia hora que eu dormi, em um sol de cinco horas da tarde, na França. Onde já se viu?! De tarde, quando fui à rua, reparei que muita gente me pediu dinheiro (olha a crise atingindo a França!), e então segui para me encontrar com as mesmas meninas no meu lugar preferido de Paris: Montmartre. O recanto dos boêmios, dos artistas e das prostitutas. O reduto da Belle Époque, do começo do século XX e da decadência. O lugar mais pitoresco, agradável, charmoso, encantador e mágico de Paris. Até o cheiro deste lugar é diferente, parece que estamos em uma cidadezinha no interior da França, não na capital, barulhenta. Dividimo-nos no meio do caminho (o que gerou problemas no final do dia, pelos desencontros) e fui com a Luíza para o Espaço Dalí, um museu pequeno com obras de Salvador Dalí. Ah, antes de continuar, preciso fazer uma observação de algo interessante, que aconteceu na semana passada. Fui a uma megastore, como uma FNAC, que se chama Virgin, comprar um negócio, e quando tinha acabado de pagar, vi que tinha uns livros no balcão. Um livro, me chamou atenção pelo título, então eu o peguei e li a sinopse. É um livro chamado "Le Brouillards de la Butte", que se passa em Montmartre, e ganhou o prêmio de melhor literatura policial de 2002, Tendo adorado, perguntei à moça do caixa, quanto custava e ela me respondeu que era de GRAÇA. Coisa de primeiro mundo, né? Imaginei, logo, que se fosse no Brasil, alguém ia pegar um de cada e ia vender. Pois é... Voltando à Montmartre, entrei inspirada no Espaço Dalí. Depois de ter discutido arte a aula inteira (pois este é o tema desta semana na Paris Langues), mergulhei no Surrealismo.





“O Surrealismo sou eu”, disse Salvador Dalí. Ele chegou a se inscrever na Escola de Belas Artes de Barcelona, algo que me fez franzir a testa (Dalí na escola de Belas Artes?!) mas alguns anos depois ele foi expulso da mesma (ah bom!). Nessa ocasião, ele veio para Paris e conheceu um cara aí, tal de Pablo Picasso. Dois anos depois, ele participou da Exposição Universal do Surrealismo, onde conheceu Coco Chanel e Sigmund Freud. Inclusive, depois desse encontro, ele fez um desenho, em que ele representa Freud, com a cabeça de caracol. Será que é porque esse cara era muito enrolado, muito confuso? Acho que não... Devia ser uma pessoa que quase não pensava. Foi em Paris que ele realmente virou surrealista (ai, ai... Paris!). Ao longo do tempo, Salvador Dalí se destacou entre os outros participantes desse movimento, não por ser um gênio, mas por ser considerado esquisito e não se inserir no modelo que era proposto. Foi então, que ele também foi expulso do Movimento Surrealista. Ele até fez uma obra retratando a sua expulsão, que se chama “Le Grand Inquisiteur chasse le serviteur”. Ele se representa como uma girafa, que é jogada da janela, por um cardeal. Na minha interpretação, o cardeal representa a Igreja Católica, que é conhecida como uma estrutura rígida, conservadora e crítica de tudo aquilo que é diferente do que ela prega. A semelhança entre ela e o escola surrealista, seria o fato desta ter se fechado para manifestações artísticas que destoavam um pouco do que a mesma representava, embora ela pregasse a loucura e a criação livre. Ele, por sua vez, era simbolizado pela girafa, porque a mesma, com o pescoço longo, enxerga mais alto que todo mundo e, por isso, vê o que os outros não vêem. Doido, né? Eu diria mais: rhynoceros!

Os quadros dele são geniais, mas eu gostei mesmo foi das esculturas. De todas as que eu já vi, pra mim, as dele são as melhores. Que cara fantástico. Pode ter gente que ache feio, aquelas coisas malucas, caracol, relógio, mulher sem cabeça, mas o motivo da criação de cada uma delas, pra mim é o que interessa. A ideia que ele teve e como ele a representou é estupenda. Algo que o inspirou profundamente foi a relatividade do tempo. Neste museu, possuem três esculturas, inspiradas nos quadros de mesmo nome, em que o protagonista maior é o tempo. O primeiro, se chama Relógio Mole. É uma escultura de um relógio pendurado em um galho, escorrendo, como se fosse cair, com uma lágrima na ponta. Ele teve essa ideia ao ver um queijo Camembert derreter, momento em que ele se questionou dum dos princípios fundamentais da vida: o tempo. “Assim como um queijo derretendo, o tempo também se funde. O relógio mole concretiza a relatividade do tempo em relação ao espaço”. A nossa concepção de tempo depende do nosso estado de espírito; e a parte da lágrima escorrendo do relógio pendurado representa a melancolia do artista. Eu acho que eu li alguma coisa que falava que ele começou a pensar no tempo, depois que ele perdeu o irmão, mas não tenho certeza.


A segunda chama-se Perfil do Tempo. Nesta, ele zomba da rigidez do tempo, que controla tudo, que faz com que as pessoas não tenham nenhum domínio sobre ele. Como uma ironia, ele retrata o relógio mais uma vez mole, criando um paradoxo com o que ele quer representar. Além disso, ele acredita ter envelhecido amolecendo, como o relógio que ele retrata. É interessante, inclusive, que nessa obra, se virarmos a cabeça para a esquerda, é possível ver o rosto dele. Trata-se de um autoretrado atípico.


A terceira chama-se A Nobreza do Tempo. Nessa obra, a peça que serve para dar corda ao relógio é substituída por uma coroa. E o mesmo, está estirado em uma árvore, como se fosse um rei, pois é assim que o artista o via. “O rei governa sobre a beleza; exerce todo seu poder sobre a natureza; ele é gerador de vida”. Fantástico! São obras que a beleza não está caracterizada na sua forma de criação, mas na ideia. Isso que é o mais interessante. Quem não entende, ou não quer entender, acha horrível uma escultura de um relógio mole, em um tronco de árvore. Acha muito mais bonito uma pintura de uma paisagem. No entanto, a genialidade é a caracterização das coisas que ele pensa da maneira que o faz. Nas outras partes do museu, me interessei por uma técnica que ele desenvolve chamada de Buletismo. É um aparelho, que joga uma bola de tinta, que estoura no quadro e, então, ele cria em cima.


Outra escultura fora do normal é a Vênus Espacial, que é o corpo de uma mulher, com um relógia ocupando o lugar da cabeça e na parte da barriga, ela é cortada e tem um ovo, que separa a barriga das pernas. Além disso, ele coloca algumas formigas andando no corpo. O relógio, mais uma vez, indicando o tempo, cria uma dicotomia entre a efemeridade da beleza do corpo e a eternidade da beleza da obra de arte. O ovo, naturalmente, representa a vida. Já as formigas, retratam a morte, assinalando que a decadência está próxima.


Por último, teve a obra O Caracol e o Anjo, representada por um caracol com asas. “A inteligência sem ambição é como o pássaro sem asas”. Nesta, ele explora o contraste entre o duro e o mole. A casca dura do caracol significa a valorização do artista pela sua arte, enquanto que o corpo mole, dentro da casca representa o mesmo artista, frágil, em sofrimento. A casca cumpre o mesmo papel do crânio, que protege o cérebro. As asas simbolizam o voo do espírito. “As capacidades do espírito são ilimitadas para aqueles que sabem explorá-la”.  Assim como as representações de Alice no País das Maravilhas, o resto da obra e de Dalí pode ser descrita pela frase “Em volta de Dalí tudo é real, menos ele mesmo”. Saí do museu extasiada. A propósito, a meia entrada custou €6 e o áudio (fundamental), em português, €3. Fora isso, comecei a ficar preconceituosa com asiáticos. É vigésima vez que eu reparo como que eles são mal educados. SEMPRE estão tirando foto com flash em museus, que imbecis, não sabem olhar plaquinha na parede, e SEMPRE entram na frente das pessoas, que estão olhando, apreciando, ou tirando foto. Parece que eles não têm a menor noção do mundo exterior, ou acham que são o centro e que podem fazer tudo.  Para completar o passeio de Montmartre e não deixando de citar a parte gastronômica (muito importante), eu e a Luíza, fomos a padaria que ganhou o prêmio de melhor pão do ano. Provamos o mesmo pão que o Sarcô e a Carlinha comem todos os dias, e vou te falar: QUE PÃO MARAVILHOSO. Ela fica na rue des Abesses, número 6. É pequena, não sei o nome. A baguette, como nos outros lugares, custa €1,10. Não sei se o processo de fermentação é diferente, ou se a massa é que possui um elemento x, mas a casca é muito crocante e o miolo é mole, mas não tanto, parece uma esponja, que desmancha na boca. A massa possui buracos, como um queijo suíço. O melhor de tudo: comemos ele quentinho, pois tinha saído à pouco tempo. Minha nossa senhora, que delícia!

Na terça, não tivemos aula de manhã, pois fizemos um passeio com a escola ao Musée du Rodin. Eu descobri que eu não sirvo para andar em bando. Não posso fazer esse tipo de passeio com grupo, porque eu gosto de ter o meu tempo e não ter obrigação de seguir o horário combinado. Resultado, vi bem o primeiro andar, mas quase não vi nada do segundo. O jardim, que pra mim é sempre mais interessante e onde tem as obras principais “O Pensador”, que retrata o homem diante dos problemas da sua existência e “A Porta do Inferno”, inspirada na “Divina Comédia” de Dante Alighieri, eu passei correndo. Quanto às percepções, tiveram coisas que eu gostei e outras que não. Não é só porque é Rodin, que eu vou gostar de tudo. As primeiras salas, com as obras do começo de carreira, eu não gostei muito não. Eram sem forma, difícil de enxergar, enquanto que as do final são de tirar o ar! Os detalhes, as expressões faciais, são realmente impressionantes. Uma das partes que eu adorei foi uma sala destinada à artista Camille Claudel, sua musa e discípula. Quem é admirador da obra de Rodin, tem dificuldade de admitir como que Claudel é boa também. Eu, além de não ter dificuldade nenhuma de reconhecer isso, no começo, cheguei a afirmar que preferia as obras dela que as de Rodin. Olha só que pecado! No museu do cara, eu fazendo uma afirmação dessas... Depois eu mudei de ideia, mas continuei achando a criação dela espetacular. Outra sala foda é uma chamada de “Rodin-Monet, rien que moi et vous” (Rodin-Monet, nada além de mim e você). Parece meio gay, mas não tem nada haver. É uma sala que representa a combinação de obras, de inspirações e a amizade entre os dois. Existem nas paredes cartas trocadas entre os dois. Tem uma entre elas, que começava assim “Meu caro Rodin, eu recebi a sua carta, a qual eu respondo em primeiro lugar, que você será bem vindo, se quiser vir à Giverny...” Olha a intimidade!
Fora isso, achei o museu mal conservado. Possuía paredes descascando, pintura remendada, teto rachado... O segundo andar é pior ainda! Assim que eu subi as escadas, o nariz começou a coçar. De tarde, fui ao cemitério do Père Lachaise, com os espanhóis e uma brasileira. Mais uma vez, percebi que não sirvo para andar em bando. O pessoal andava devagar, não tava nem aí, estava sem paciência de procurar os túmulos. Meu amigo, então pra que que vai? Fiquei chateada, que não vi nem um quinto do que eu queria. Vi as tumbas de Jim Morrison, Frederic Chopin e Allain Kardec, mas faltou: Auguste Comte, Edith Piaf, Eugène Delacroix, Honoré de Balzac, dentre outros... Quero voltar, mas não sei se terei tempo. Paris tem muita coisa pra fazer e o tempo é curto (já vi que terei que voltar... Que sacrifício!).
Na quarta, voltei ao Musée Carnavalet, para ver o segundo andar, a parte da Revolução Francesa. A exposição começa com uma miniatura da antiga prisão da Bastilha, depois aparecem outras. Nas paredes, a história é contada. D'abord, relatam que, quando a prisão foi tomada, em 14 de julho de 1789, o governador da mesma foi pego,  decapitado e andaram com a sua cabeça em um pedaço de pau por Paris. Já começa assim! Com toda a radicalidade e violência. Os quadros anônimos representam exatamente como a cidade estava na época, uma loucura. Teve um que mostrava a participação das mulheres, olha que interessante; elas indo à Versailles, procurar o rei. Adorei ver o original do pedaço do muro da prisão, que foi dado ao rei Louis XVI. Imagina, a cena, no século XVIII, dum subordinado do rei, chegando à Versailles, com um pedaço do muro da Bastilha, pra que vossa excelência acreditasse no que estava acontecendo. Eles também tem na coleção, as chaves originais das celas. Quase infartei quando vi um quadro, com a placa dos Direitos do Homem e do Cidadão. Art. 1º “Les hommes naissent et demeurent libres et égaux en droits; les distinctions sociales ne peuvent être fondées que sur l’utilité commune” (Os homens nascem e morrem livres e iguais em direitos; as distinções sociais não podem ser baseadas em nada além que o bem comum). Coisa mais linda! A revolução foi marcada como uma das primeiras festas patrióticas parisienses. Em todo lugar tinha um broche, uma plaquinha, até prato, caneca, copo, com as frases: “os franceses são livres, iguais e unidos”, “respeito à lei”, “paz, segurança, liberdade, igualdade e fraternidade a todos os povos nossos amigos”, “a lei e a paz”, “viver livre ou morrer”... Vários quadros mostrando a execução do rei e, que eu me lembre, um mostrando o da Maria Antonieta. Por mais que o rei tenha sido um filho da puta, as obras que representavam ele e a sua esposa se despedindo da família eram muito tristes. Imaginem: “Tchau gente, amo vocês. Tô indo ali ser guilhotinado. Será que vou sentir dor, ou vai ser rápido demais?”. Da parte nojenta, tem xumaço de cabelo conservado da Maria Antoinette, do Louis XVI, de Robespière... Não sei como que não se desmanchou com o tempo. Fiquei tão maravilhada, que quando eu olhei o relógio, já tinha se passado quase duas horas e eu ainda estava na terceira sala. Então comecei a correr. Fui pra parte da “Convenção do Terror”. Danton, Marat e Roberpière lado a lado. Várias guilhotinas. Quadro mostrando Charlotte Corday com a faca na mão, a mulher que assassinou Marat. Outro chamado de “Les Jacobins aux Enfers” (Os Jacobinos no Inferno). Que clima pesado! Em outra sala, haviam umas obras que retratavam a separação do Estado com a Igreja de uma maneira bem radical. A pilhagem e a destruição da mesma era o tema em voga. Tem um que mostrava a violação das covas dos reis dentro da Basílica de Saint-Denis. Os restos deles foram jogados em fossas comuns, marcando o fim do privilégio, a igualdade para todos. Acabei a visita na parte de Napoleão.
De noite, eu e algumas amigas íamos fazer um pique nique na Champs de Mars, mas como o tempo não ajudou, tivemos que fazê-lo no quarto. Primeiro tivemos um breve contra tempo com a dificuldade de abrir a garrafa de vinho. Sem possuir nenhum abridor e sem poder ir na recepção pedir um, já que é terminantemente proibido de comer e beber no quarto, fomos para a rua, com o vinho dentro da bolsa. Perto de casa, tem alguns restaurantes, mas todos chiques. O primeiro que vimos, com cara de bistrot mais ou menos, decidimos pedir para um garçom abrir a nossa garrafa. Primeiro, aquela vergonha, a Lili, alemã, não acreditando no que a gente estava fazendo, achando tudo aquilo muito errado. Depois, a discussão eterna de "quem vai?", até que eu, pra variar, sem pensar duas vezes: "Monsieur... me desculpe, mas nós temos um problema. Temos uma garrafa de vinho, mas não temos abridor. Será que o senhor podia abrí-la para nós?" Então, sem tirar a garrafa da bolsa, conforme ele tinha sugerido, olhando para os lados, com uma atitude suspeita, exatamente na porta do bistrot, pudemos finalmente abrir o vinho, que já estava com a rolha estraçalhada, depois de eu tentar abrir com a tesourinha de unha. Biscoitos, queijo fedorento (para quem gosta), vinho, frutas, pão, fotos e muitas gargalhadas. Uma delícia.

No final da noite, inventei de lavar roupa com a Luíza. De início, acredita-se que numa lavagem de roupas, não é possível acontecer nada de extraordinário. No entanto, comigo perto, isso é sempre uma incerteza. Estavam lá as indicações de temperatura de água, para cada tipo de roupa. Tranquilo. O que eu não sabia, é que o material das roupas brasileiras não são preparados para receber água quente na lavagem, pois estraga o tecido e DIMINUI O TAMANHO DA ROUPA. Pois bem, ao final da lavagem, percebi que teria que perder 10 quilos, para entrar nas minhas roupas, que diminuíram dois números. Que beleza!
Quinta-feira, quando eu estou entrando no meu prédio, depois do almoço, escuto um “Coucou”. Era a Mabruka, a femme de la ménage, que veio se despedir de mim, porque estava entrando de férias. Bonitinha! Me abraçou, disse que foi bom me ver de novo. Ela era tão boazinha... Quanto às aulas de tarde do curso, estão muito boas. Essa semana peguei um professor muito bom, o Jorge. As aulas do atelier, que são sempre as mais cansativas, depois do almoço, na hora que todo mundo está com sono e doido para ir pra rua, estão sendo muito divertidas e produtivas. Conversar com os alunos sobre os costumes diferentes é sempre engraçado. Nesse dia, por exemplo, fiquei sabendo que na Coreia, as pessoas têm regras diferentes para se cumprimentar na rua. Os homens podem chamar as mulheres pelo nome, mas não o contrário. Assim como a mulher não pode dirigir a palavra ao homem, caso ele não faça isso primeiro. Coisa estranha! De tarde, Centre Pompidou. Como era enorme, me detive às exposições fixas de Arte Moderna e Contemporânea. Assim como no Musée Rodin, houveram obras que eu não gostei e outras que eu achei sensacionais. Vi Dalí, Wahrol, Picasso, mas um artista que eu gostei mesmo e não conhecia foi o Vassily Kandinsky. Lindas obras! Achei sensacionais as imagens táteis. Nunca tinha visto. São cópias de obras, em alto relevo, para os cegos poderem sentir como elas são. Legal! Com a carteirinha de estudante, da escola de francês, eu não paguei pra entrar. Na volta, conheci uma livraria, a “Mona Lisait", na Châtelet, que vende livros novos e velhos com ótimos preços, inclusive mais baixos que os da editora. Não sei qual é o esquema deles, mas sei que vale a pena. Ela não está só na Châtelet, é uma rede, tem por toda Paris.



Na sexta-feira fui para uma salsa na beira do Sena, na altura da Pont de Sully. Encontrei com a Valéria e uns amigos dela, que ficaram beliscando e tomando champagne à beira do rio, antes de ir para a dança. Junto com os franceses soltinhos e fedorentos, não tive escapatória: tive que arriscar dar uns passinhos tortos, com o amigo da Valéria, que frequenta aulas de dança. Nada mais ridículo! O pior, é que tem fotos, mas elas ainda não estão sob o meu domínio. Depois fomos andando, pela beira do rio, até Notre-Dame, onde eu ia encontrar com uns amigos. Como eles já tinham ido embora, acompanhei o pessoal até um bar na rue Mouffetard, no Quartier Latin, exatamente atrás da Sorbonne, perto da estação do metrô Place Monge. Por mais que esse bairro seja caro para morar, nele é possível encontrar os barzinhos mais baratos, pois é a zona das faculdades. Como estudante não tem dinheiro, tem que ter bar barato pro pessoal beber. Paramos em um legal e ficamos por lá. Um copo de chopp, de meio litro, estava custando €5,50, parece caro quando se pensa em euro, mas sempre tem que lembrar que "quem converte, não se diverte".

Sábado, fui à feira de Porte de Clignancourt, última estação da linha 4. É uma feira que acontece todo sábado, domingo e segunda, que vende um pouco de tudo a preço baixo. As coisas não são boas logo de cara não, tem que vasculhar. Comprei tênis, óculos, relógio, sandália rasteira e sapatilhas entre €5 e €8. O pessoal tem uma cara meio sinistra, por isso tem que andar ligado com a bolsa, mas eu acho que vale a pena. De noite, fui para uma festa na casa da minha amiga Louise, que conheci ano passado. Portadora de todo estilo e elegância, a minha amiga, que é excelente anfitriã, recebeu cerca de 90 convidados em seu barco, que é sua casa. Fui com duas amigas brasileiras e reencontrei um amigo, o Saad, um sírio que conheci ano passado. Elas foram embora cedo, eu fiquei até o dia seguinte, para poder pegar o metrô às 5h30. Pude treinar bastante o francês com uns franceses que eu conheci, a ponto de não ter que pensar mais pra falar. Mais que falando, já estava discutindo, interpelando, sacaneando... Ótima noite!
Hoje, domingo, queria ter acordado cedo para ir à Giverny, à casa do Monet, com a Valéria, mas tendo ido dormir 6h30, foi impossível. Fiquei devagar, fiz poucas coisas e de noite encontrei com as meninas e fomos à casa de chás Angelina, na rue du Rivoli, próxima à estação do Rivoli, que tem o melhor chocolate quente de Paris. Apesar do calor insuportável, sim, hoje foi o primeiro dia que o verão deu as caras, sem nenhuma nuvem pra atrapalhar, e temperaturas dignas desta estação, tivemos coragem de tomar chocolate quente. E comprovei as estatísticas, foi o melhor que eu já tomei. Que delícia! Cremoso, consistente e muito saboroso.


Pra voltar pra casa (sim, aqui já é minha casa), pegamos um metrô MUITO fedorento. Mas é muito mesmo! Eu não sei qual é o problema das pessoas aqui que não sentem o próprio odor. No calor, sem banho, sem desodorante, minha nossa senhora... Dava vontade de vomitar.
Acabei o dia com muita dor de cabeça, sem fome, nem jantar eu fui. Mas estou longe de reclamar do calor. Quero que fique assim até o final!
Hoje a aula começou mais tarde, pois segunda-feira é o dia da chegada dos alunos novos. Por enquanto é isso. Que esta seja uma boa semana. 
À tout à l'heure!

Um comentário:

  1. Cissa, que lugares divinos!!!!
    Suas "aulas de artes" estão sendo bem proveitosas, pois uma coisa é irmos a passeio, outra é irmos para estudar e termos tempo de observar as miudezas de cada lugar, artista e obra!
    Que pessoa é essa que, estando em Paris, lembra de pegar uma amostra de sabão em pó para lavar roupa?
    Cara, eu lavaria com sabonete ou algo semelhante!!!!
    Ah, e os girassóis?
    Lindos, alegres e significam a Flor da Alegria!
    Fotos belíssimas e a sua narração parece que estamos juntinho com vc... me vi fazendo uma cara estranha quando a moça disse q o livro era de graça. Aqui nem um folheto é de graça! :)!
    Continue postando... eu adorando, me deliciando e apredendo!
    Bjs, aproveite e nos mantenha no clima de Paris!
    Bjo bjo,
    Deca!

    ResponderExcluir